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Ciência

Debatendo dúvidas sobre as mudanças climáticas

19.01.2016
 
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Uma criança recém-nascida não tem a mínima percepção de futuro. Uma pessoa saudável talvez alcance os 50 anos com a noção de que a velhice e a morte são realidades ainda distantes. Não assim, com um idoso, digamos, com 70 anos de idade. A perspectiva histórica ajuda muito a perceber tendências. Mesmo no curso de uma geração, uma pessoa atenta terá notado que o mundo mudou muito nos últimos 60 anos.

Arthur Soffiati, ecohistoriador e ambientalista

Se não temos noção de que a população do mundo aumentou demasiadamente, percebemos que ela aumentou a nossa volta, sobretudo se vivemos numa grande cidade. Notamos que a própria cidade cresceu e se transformou numa megametrópole, envolvendo os núcleos urbanos adjacentes. Usando automóvel ou transporte coletivo, perceberemos que era mais fácil o deslocamento de veículos há 50 anos do que hoje. Sentiremos também que os ruídos aumentaram.

Um simples olhar ao redor, revelará que a paisagem mudou, que a poluição visual tornou-se algo comum em nosso entorno. Rios que conhecemos na nossa infância, na nossa adolescência ou na nossa juventude hoje não passam de canais de esgoto, repletos de lixo sólido. Os odores também se tornaram desagradáveis. Acreditamos que chuvas mais intensas provocam inundações, invadem ruas, casas e arrastam carros. Exclamamos que antes não era assim, que havia margem de segurança para transbordamento dos rios e que essas margens foram urbanizadas ordenada ou desordenadamente. Recordamos que suas água eram mais limpas e nos permitiam pescar ou tomar banho como forma de recreação.

Percebemos também que os bairros irregulares, hoje denominados comunidades, multiplicaram-se e que as desigualdades sociais aumentaram, a despeito dos programas de transferência de renda.

Mas há mudanças que não notamos usando visão, audição, olfato e tato. Sem aparelhos apropriados, não percebemos a contaminação dos alimentos que chegam à nossa mesa, quando chegam. Quem mora em áreas onde havia cobertura vegetal nativa ou atividades rurais, hoje substituídas por atividades urbanas considera o desmatamento de florestas tropicais como algo muito distante do seu dia a dia e que essa transformação não nos atingirá. Desconhecendo a história das terras em que estamos instalados, nada sabemos sobre florestas e animais que existiam onde hoje só há tijolo, pedra, asfalto e concreto. Pouca ou nenhuma relação estabelecemos entre urbanização e aumento de epidemias transmitidas por vetores animais.

Quando os meios de comunicação divulgam listas de espécies vegetais e animais em extinção ou extintas, não estabelecemos conexão entre nossas atividades e a expulsão e a extinção dessas espécies. Não temos a mínima ideia de como era a fisionomia da América, da África, da Ásia e da Oceania há dois séculos. Trata-se de um tempo muito longo para a nossa compreensão das profundas mudanças por que passaram nosso planeta.

Se os cientistas nos informam que o nível dos oceanos era mais alto há cinco mil anos e que ele desceu a partir de então, alcançando certa estabilidade, manifestamos nosso completo desinteresse por tal assunto. Não nos ocorre que os oceanos podem voltar a invadir terras continentais ou que a Terra pode sofrer uma nova glaciação. Já falaram intensamente do esburacamento da camada de ozônio. Para a maioria das pessoas, o problema não foi tão percebido quanto a inflação, o aumento do custo de vida e os problemas políticos mais próximos. Governantes e empresários apressaram-se em aparentar interesse pelo ambiente e trataram de substituir os clorofluourcarbonos por outros elementos.

Se um meteorito colidisse com o planeta, os efeitos seriam percebidos e considerados por toda a humanidade, pois seria um problema de sobrevivência. Mas se a chapa sob nossos pés esquenta progressivamente, só gritaremos quando o aquecimento se tornar insuportável. Se os cientistas nos informarem que o teor de nitrogênio e fósforo nas águas doces e marinhas alcançou índices alarmantes, não temos como perceber a elevação de imediato. Então, não nos preocupamos com o anúncio.

Nossas dúvidas e indiferença se manifestam principalmente sobre as mudanças climáticas do planeta. A Organização das Nações Unidas criou, em seu âmbito, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), reunindo cientistas do mundo todo. O grupo vem recolhendo dados ao longo dos anos e, em cada relatório, confirma que as atividades humanas estão provocando mudanças no clima global. Tais mudanças geram secas, incêndios em vegetação, tempestades de vento, derretimento dos gelos polares e dos pontos altos da Terra, chuvas catastróficas e estiagens prolongadas. Como não nos interessamos por climatologia ou não temos formação apropriada para absorver os conhecimentos divulgados pelo IPCC, continuamos acreditando que tais mudanças são naturais.

O quadro fica mais tumultuado e confuso com o parecer dos céticos em relação às mudanças climáticas por ação antrópica. Eles têm posição contrária quanto às causas das mudanças, sustentando que a Terra sempre esteve sujeita a oscilações climáticas naturais e que estamos vivendo uma fase de aquecimento natural como tantas outras no passado. De fato, o leigo interessado no assunto não sabe de que lado se posiciona. Até mesmo cientistas de áreas distintas da climatologia manifestam dúvidas ou certezas a favor ou contra o aquecimento global.

Contamos com duas certezas divulgadas pelo IPCC, pela Agência Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), órgão governamental dos Estados Unidos, e várias outras instituições. Uma delas é que a concentração de gás carbônico está aumentando na atmosfera. Antes da revolução industrial, a concentração deste gás era menor que 300 ppm (partes por milhão). Em 2015, ultrapassou 400 ppm. A segunda é que a temperatura média do planeta vem subindo gradativamente desde 1976. A média ocorre em todos os pontos da Terra e não equivale àquela expressão muito usada pelos céticos para ilustrar a questão das médias: se uma pessoa colocar os pés num forno quente e a cabeça num congelador, a média é perfeitamente tolerável.

Com relação aos governos, existe um dilema. Ao mesmo tempo que manifestam sincera ou cinicamente preocupação com o aquecimento global, são prisioneiros do sistema capitalista que gera os gases causadores do aquecimento. Ao mesmo tempo que assumem compromissos para reduzir emissões de gases do efeito estufa em conferências internacionais, no dia a dia continuam aquecendo as caldeiras. A contradição é patente. Nos Estados Unidos, a NOAA, agência governamental, mostra o perigo das mudanças climáticas, enquanto a economia continua com atividades que as potencializam.

Os cientistas que acreditam no aquecimento global acusam os céticos de estarem a serviço das grandes empresas geradoras de CO2. Estes, por sua vez, acusam os primeiros de usarem o argumento das mudanças climáticas a fim de obter financiamento para suas pesquisas. Estima-se que 98% dos cientistas de todo o mundo consideram as mudanças climáticas como resultado das ações humanas coletivas. Mas devemos reconhecer que existem cientistas honestos e desonestos nos dois lados.

Talvez seja tarde para frear o carro da crise ambiental global que enfrentamos. Não se pode brecar um veículo em alta velocidade à beira de um precipício. Contamos, todavia, com a capacidade de resiliência da Terra, ou seja, com sua capacidade de restabelecer equilíbrios perdidos. Acreditando ou não nas mudanças climáticas e em outros fatores responsáveis pela crise ambiental planetária, pelo menos pode-se adotar o princípio da precaução, tão desrespeitado por motoristas: não dúvida, não ultrapassar. O problema, então, exige uma mudança profunda de civilização, algo que não estamos dispostos a promover.

 


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