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Economia Verde: A última fronteira do capital?

15.01.2015
 
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Só há uma maneira de conservar o ambiente natural: é preciso mudar, de fato, o próprio modelo de "desenvolvimento" hegemônico, a produção e o consumo

Fonte da notícia: Jornal Porantim - Edição Especial "NÃO à Economia "Verde"

Por Patrícia Bonilha, Assessoria de Comunicação do Cimi

 "Um modelo ainda mais predatório e perverso de sociedade, que mercantiliza a natureza em benefício das minorias historicamente privilegiadas, aprofundando drasticamente a desigualdade social e impactando, especialmente, os povos e as comunidades tradicionais". Esta talvez seja uma das definições mais sintéticas possíveis para expressar a proposta da economia "verde", a partir de uma perspectiva de quem não privilegia o lucro acima da própria vida.

Criado recentemente, o conceito de economia "verde" tem como um de seus objetivos principais mascarar de "sustentável" esta grave ofensiva sobre a natureza, os povos e as comunidades tradicionais - que sempre viveram harmoniosamente com e da natureza -, e sobre os seus territórios - justamente onde está concentrada a maior parte dos bens comuns: água, terra, ar, florestas, biodiversidade, etc.

Esse mascaramento é feito a partir de verdadeiros chavões publicitários e ilusórios, como "neutro em carbono", "responsabilidade socioambiental", "compensação de emissões", "certificação internacional", "florestal" e "ecológico", dentre outros. Com este propósito de ocultar a verdadeira prática, os envolvidos na implementação dos projetos que mercantilizam a natureza ainda afirmam que são aplicadas metodologias que garantem a "participação dos povos e transparência em todo o processo".

Nesse sentido, o de valorizar uma economia verde, caminha o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Segundo esta instituição, esta economia promove a melhoria do bem-estar humano e da igualdade, e, ao mesmo tempo, reduz os riscos ambientais e a escassez ecológica. Desse modo, seus focos seriam a redução das emissões de carbono, o uso eficiente de recursos naturais e a inclusão social.

No entanto, quando a economia verde é colocada em prática, geralmente em um processo "de cima para baixo", a realidade é totalmente oposta da descrita pelo Pnuma. Alguns exemplos são as seguintes situações vividas pelos povos:

 

  • Comunidades são iludidas com falsas promessas de emprego e de recursos financeiros para aceitarem os projetos em seus territórios;
  • Sem a autonomia e o controle sobre o território, os povos não podem mais exercer o modo tradicional de vida: pescar, caçar, fazer o roçado, coletar material, frutos, plantas para o artesanato, a medicina e até mesmo para comerem (o que ameaça a própria soberania alimentar);
  • Em outros casos, comunidades e povos são expulsos de seus territórios tradicionais (muitas vezes através do uso de força policial armada), as plantações são destruídas, os animais mortos, as casas são destruídas; violência física, diretamente contra as pessoas, também já ocorreu em alguns casos;
  • Se não cumprem as regras impostas pelo projeto, os comunitários passam a ser ameaçados e criminalizados;
  • Os conflitos e as divisões aumentam expressivamente dentro da própria comunidade;
  • A luta pela garantia da demarcação ou posse do território é relegada;
  • O problema do desmatamento e das emissões de gás carbônico não é solucionado.

O porquê da economia verde

 O primeiro motivo que vem à cabeça quando se tenta entender a motivação de tamanho investimento em falsas soluções para a destruição do meio ambiente e a desigualdade social é a total falta de interesse em mudar, de fato, as reais causas desses problemas, ou seja do atual modelo industrial de produção e consumo hegemônico. Por dissociar a sociedade da natureza e não concebê-la como ser vivo, mas apenas como fonte de recursos para a exploração e obtenção de lucro, este modelo é o responsável direto tanto pelas altas emissões de gás carbônico como pelo esgotamento de outros bens naturais, como a água, o petróleo e as florestas, dentre outros. No entanto, a intenção dos setores industriais e do sistema financeiro é a de que seus lucros continuem crescendo infinitamente, não importando as consequências dessa sanha capitalista. Isso faz com que insistam nas mesmas receitas de sempre como, por exemplo, o investimento em tecnologias antigas e mais baratas (a curto prazo), dependentes do carvão e de combustíveis fósseis. Importante ressaltar aqui que de nada adianta investir em novas tecnologias, como a energia solar ou eólica, dentro da mesma lógica oportunista. É preciso mudar, de fato, o próprio modelo "de desenvolvimento".

E é justamente a possibilidade de transferir a responsabilidade sobre os graves impactos e consequências desse modelo de sociedade para povos e países que não têm nenhum envolvimento com esta situação limite de destruição/altas emissões a segunda motivação para a efetivação de mecanismos de economia verde.

O testemunho do uganês Yutuko Kimaleni, do povo Bagisu, expulso, em 1992, de sua terra tradicional devido a um acordo, de 99 anos, entre a associação holandesa dos produtores de eletricidade com o governo de Uganda, explicita a perversidade desta proposta. "Se vocês constroem fábricas, os vossos cientistas devem calcular o impacto que elas causarão no clima. Com tanta indústria se faz muita poluição. Se teremos de compartilhar as consequências disso, aconselhamos os holandeses que fechem algumas fábricas e que plantem árvores. Não aqui, onde não temos indústrias. A Holanda que arranje uma solução própria se tem problemas com sua indústria. Mas não podem vir aqui punir as pessoas plantando árvores para compensarem a poluição de lá. Isso é colonialismo. E nós, aqui na Uganda, pensávamos que o colonialismo tinha acabado", denunciou no documentário CO2 Álibi, produzido pela tevê holandesa Zembla. Cabe ressaltar ainda que um holandês emitia, na época em que o acordo foi firmado, 130 vezes mais emissões que um uganês.

No Brasil, o projeto Carbono Florestal Suruí é um exemplo emblemático da transferência de responsabilidade pelas emissões feitas por uma empresa poluidora para um povo indígena que vive na Amazônia e nada tem a ver com estas emissões.

A descoberta da possibilidade de capitalizar ainda mais com esta situação limítrofe e caótica do atual desenvolvimento da humanidade no planeta pode ser considerada como um terceiro - e essencial - estímulo para os mercenários da natureza de plantão. Mesmo sendo óbvio que os bens naturais não são ilimitados, preferem evitar as soluções reais e inventam novos mitos de mercado baseados no fato, por exemplo, de que pode-se utilizar quanta energia e poluir o quanto quiser que tudo será compensado. O que é falso.

A solução já existe

Segundo estudiosos, militantes, organizações e movimentos sociais, só há uma maneira de conservar o ambiente natural: ter menos desenvolvimento, menos indústria, menos aviação, reduzir o uso de combustíveis fósseis, mudar o sistema de mobilidade, a construção e o funcionamento das casas e, muito importante, a própria dieta, que hoje, na maior parte das cidades, é baseada em produtos industrializados e na carne.

E, ironicamente, este é exatamente o modo como vivem os povos indígenas e as comunidades tradicionais para quem os mentores e defensores do mercado "verde" já enviam a conta dos seus débitos históricos, ecológicos, sociais e econômicos, resultado dos gastos e excessos que vêm cometendo nos últimos séculos com o propósito de "desenvolverem-se". É como se a história colonial estivesse sendo atualizada a partir de uma lógica ultra neoliberal.

Outro dado relevante é que divulga-se reiteradamente, na mídia por exemplo, a possibilidade da humanidade vir a sofrer drasticamente as consequências do aquecimento global e das mudanças climáticas, a ponto até mesmo de ser considerada a sua extinção. No entanto, pouco se debate sobre o fim do capitalismo e a substituição do seu agressivo modus operandi por um outro sistema social, fraterno, solidário e em harmonia com os outros seres e as diferentes formas de vida do planeta.

 


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