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Federação Russa

Poder global: a Rússia sobe

28.05.2014
 
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Há dois propósitos principais na propaganda ocidental sobre os acontecimentos atuais na Ucrânia. Primeiro, encobrir, ou pelo menos disfarçar, o papel fundamental que Washington teve na derrubada do governo democraticamente eleito da Ucrânia. Segundo, demonizar ao máximo a Rússia.

Sabe-se a verdade, mas a verdade não faz parte nem importa para a TV-empresa ocidental, ou para a imprensa-empresa impressa. Um telefonema interceptado de uma conversa entre a Secretária Assistente de Estado dos EUA Victoria Nuland e o embaixador dos Estados Unidos para a Ucrânia, Geoffrey Pyatt, revela o teor da discussão entre os dois golpistas, sobre quem seria instalado como "pessoa de confiança", a marionete de Washington, no novo governo fantoche. Outra interceptação telefônica, desta vez entre o Ministro do Exterior da Estônia, Urmas Paet, e a funcionária de política externa da União Europeia, Catherine Ashton, põe a nu as suspeitas, posteriormente confirmadas, de que os atiradores que alvejaram e mataram pessoas no conflito em Kiev vieram do lado apoiado pelos EUA no conflito.

A "revolução" laranja

Resumindo: depois de 2004, quando Washington orquestrou a "Revolução Laranja", que deveria entregar a Ucrânia nas mãos do ocidente, mas falhou, Washington, de acordo com Victoria Nuland, gastou nos dez anos seguintes, na Ucrânia, cerca de 5 bilhões de dólares. O numerário foi entregue a políticos que os EUA prepararam com cuidado e a Organizações Não Governamentais (ONGs) que operavam 'de fachada', fantasiadas de instituições educacionais, pró-democracia ou pró-Direitos Humanos, mas que, na realidade, Quinta Coluna de Washington na Ucrânia.

Quando, depois de analisar os custos e benefícios, o presidente Yanukovych rejeitou o convite para aderir à União Europeia, Washington enviou suas bem financiadas ONGs e as pôs em ação. Brotaram protestos em Kiev, exigindo que o presidente mudasse de opinião e unisse a Ucrânia à UE. Os protestos, inicialmente pacíficos, rapidamente se tornaram violentos, com a adesão de ultranacionalistas e neonazistas. O mote do protesto também mudou; passou de "adesão à União Europeia" para "derrubar Yanukovych e seu governo".

O que se seguiu foi o caos político total. Washington implantou lá um governo fantoche. Entretanto, os ultranacionalistas e neonazistas, como os do Pravy Sektor (Setor Direita), logo se puseram a intimidar os fantoches 'democráticos' que Washington impusera. Na tentativa de responder à ameaça, os títeres idiotas de Washington começaram a ameaçar a população ucraniana de nacionalidade e de língua russa.

Historicamente, se sabe que as áreas do sul e do leste ucraniano sempre fizeram parte do território russo e foram incorporadas à Ucrânia por líderes soviéticos. No início da União Soviética, Lênin doou aquelas áreas à Ucrânia, e Khrushchev fez a incorporação da Criméia à Ucrânia, em 1954. A população dessas áreas - alarmada pela destruição de monumentos de guerra soviéticos erguidos em comemoração à liberação da Ucrânia das garras nazistas pelo Exército Vermelho; pela proibição do uso do russo como língua oficial; e pelas agressões físicas aos falantes de russo na Ucrânia - explodiu por sua vez em protestos.

Adiante, o povo da Crimeia votou pela sua própria independência, pediu e obteve a reunificação com a Rússia, mesmo anelo das regiões de Donetsk e Lugansk.

Washington e seus fantoches - e a imprensa-empresa ocidental - negam que as votações realizadas na Crimeia, em Donetsk e Lugansk tenham sido sinceras e espontâneas. Em vez disso, Washington só faz repetir que os protestos que levaram às votações, e as próprias votações, teriam sido orquestrados pelo governo russo, com ameaças, subornos e coerção. E a reintegração da Crimeia à Federação Russa é apresentada pela imprensa-empresa de propaganda ocidental como "invasão e anexação" pela Rússia.

São mentiras deslavadas. Os observadores internacionais independentes que fiscalizaram o desenrolar das eleições sabem disso. Mas a imprensa-empresa não existe para dar voz e vez a opiniões democráticas bem informadas. A imprensa-empresa ocidental, que opera como bloco monolítico, atua como uma espécie de ministério de segunda categoria, a serviço dos EUA. Até a BBC - que antes tanto se orgulhava da própria independência, decência e coragem - também já vive hoje de mentiras a serviço de Washington.

Washington teve satisfatório sucesso na 'gestão' da narrativa da "crise ucraniana". A população na Crimeia, Donetsk e Lugansk, em luta pelo seu projeto político, é apresentada ao mundo como se fossem todos "terroristas". E os neonazistas ucranianos foram elevados à condição de membros ilustrados de uma "coalizão democrática"!

Ainda mais surpreendente, os neonazistas são descritos na/pela imprensa-empresa ocidental como os "libertadores" das regiões que estariam em mãos dos "terroristas".

As milícias neonazistas provavelmente transformar-se-ão no novo exército do governo fantoche da Ucrânia, subserviente a Washington, já que muitas unidades do real exército ucraniano recusam-se a disparar contra manifestantes pacíficos.

A questão agora é saber como o presidente Vladimir Putin da Rússia reagirá aos acontecimentos e jogará esta partida. (...)

Putin sabe das dificuldades. Mas também tem consciência de que Washington quer que ele aja confirme a imagem demonizada que a imprensa-empresa tenta lhe impingir. Se Putin aceitar o pedido de Donetsk e Lugansk, e reincorporar as províncias à Rússia, Washington repetirá ad nauseam a alegação de que a Rússia teria invadido e anexado territórios, mais uma vez. O mais provável não é que Putin esteja amedrontado ou enfraquecido, mas que não queira dar a Washington mais motivos de propaganda, que circulará também na Europa.

A Alemanha continua a se opor firmemente a mais sanções norte-americanas contra a Rússia. Angela Merkel é vassala servil de Washington, mas o Ministro do Exterior alemão, Frank Walter Steinmeier, e o complexo industrial alemão não veem com bons olhos as sanções. Além disso, a Alemanha depende visceralmente do gás natural da Rússia, centenas de companhias alemãs têm negócios em andamento na Rússia, e o emprego de muitas centenas de cidadãos da Alemanha depende de relações econômicas com a Rússia. Antigos chanceleres da Alemanha, como Helmut Schmidt e Gerhard Schroeder têm-se oposto firmemente a Merkel, pela subserviência dela a Washington. Merkel pôs-se em posição muito fraca, depois da decisão estúpida de pôr os interesses de Washington acima dos interesses da Alemanha.

Mas Putin já deu muitas provas de que não é mais um imbecil, como a maioria dos políticos ativos hoje no ocidente. O presidente da Rússia vê, no conflito entre a pressão de Washington sobre a Alemanha e os reais interesses da Alemanha, uma oportunidade para dobrar a OTAN e a União Europeia.

Caso a Alemanha decida, como Yanukovych fez, que seu interesse está em ter boas relações com a Rússia, muito mais do que em se deixar converter em mais um fantoche de Washington, será que Washington conseguirá derrubar o governo alemão, para pôr ali marionete mais confiável?

É possível que a Alemanha já se tenha cansado do peso de Washington sobre ela.  Passados 69 anos da 2ª Guerra Mundial, e ainda ocupada por tropas norte-americanas, a Alemanha teve seu sistema educacional, sua história, sua política externa e sua adesão como membro da União Europeia e do mecanismo do euro manipulados de maneira coercitiva por Washington.

Se ainda restar um farrapo, que seja, de orgulho nacional alemão, como povo recentemente reunificado, talvez os alemães decidam que BASTA, que não mais suportarão essas imposições humilhantes forçadas contra eles pelos EUA.

A última coisa que a Alemanha quer seria um confronto, econômico ou militar com a Rússia.  O vice-chanceler Sigmar Gabriel disse que Merkel não demonstrou muita inteligência ao dar a impressão de que a Ucrânia teria de decidir entre Rússia e União Europeia.

Se o governo russo decidir que ter os EUA no controle da Ucrânia ou de qualquer parte dela seria inaceitável ameaça contra a Rússia, os militares russos saberão tirar proveito da evidência de que a Ucrânia é historicamente parte da Rússia. Se a Rússia ocupar a Ucrânia, Washington nada poderá fazer... exceto usar bombas atômicas contra a Rússia. Entre as bases de lançamento e os alvos das bombas atômicas, estão todos os países membros da OTAN, expostos ao risco de serem varridos do mapa; e jamais concordarão com a opção atômica, a louca.

Putin pode tomar a Ucrânia quando quiser e, na sequência, dar as costas ao ocidente - essa entidade corrupta, naufragada em depressão e saqueada constantemente pela classe capitalista.

O século 21 pertence ao Oriente, China e Índia. A grande expansão russa tem base nos dois países mais populosos do mundo. Com o Oriente, a Rússia ascende ao poder. ****

 

22/5/2014, Paul Craig Roberts, Strategic Culture, trad. mberublue
http://www.strategic-culture.org/news/2014/05/22/russia-rise-to-global-power.html

 


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