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Peter Kuznick: "A mídia dos Estados Unidos carece de contexto e perspectiva histórica"

05.07.2017
 
Peter Kuznick:

Entrevista com Peter Kuznick: "A mídia dos Estados Unidos carece de contexto e perspectiva histórica"

Historiador e maior parceiro de Oliver Stone fala sobre as intenções do cineasta em entrevistar recentemente Putin, o que tem gerado mais uma histeria na grande mídia do Estados Unidos, analisa as tensas relações entre Washington e o Kremlin e  as possibilidades de Moscou ter raqueado as eleições em seu país. O pesquisador fala também do cinismo da mídia oligárquica diante disso tudo: "Ninguém menciona a história dos Estados Unidos de intervenção eleição a eleição em todo o mundo. É a doença do nacionalismo e da mentalidade provinciana, o que chamamos de 'excepcionalismo norte-americano'".

As recentes entrevistas de Oliver Stone com Vladimir Putin têm sacudido intensamente a já transtornada mídia norte-americana, historicamente dedicada a atacar o presidente russo e, assim como a grande mídia em todo o mundo na era da informação global em tempo real, mergulhada no descrédito crescentemente generalizado - também por ataques de histeria como este, diante da mais nova produção de Stone contra outro "inimigo" criado desesperadamente pelo moribundo regime de Washington, a fim de alimentar a indústria bélica e de justificar a "política" expansionista-coercitiva a nível global do Império dos aloprados, fundamentada sobretudo na intolerância, no ódio e no medo diante de toda e qualquer diferença e de ameaças que, na maioria das vezes, não existem. 

"Oliver sabia que pagaria um preço incalculável por conceder espaço para que Vladimir Putin expressasse suas opiniões na televisão norte-americana. E ele tem apanhado sem piedade da mídia norte-americana", observa o historiador estadunidense Peter Kuznick.

Diretor do Instituto de Estudos Nucleares da Universidade Americana da capital norte-americana de Washington e autor diversos livros, Kuznick é também co-autor de Untold History of the United States (lançado também em português, A História Não Contada dos Estados Unidos) com Stone. 

Na entrevista a seguir, o pesquisador fala das entrevistas com Putin, o que foi pretendido através de mais esta produção de seu companheiro Stone, por que a grande mídia, "adestrada" nas palavras do historiador, demoniza o presidente russo e, agora, pede a cabeça do próprio renomado cineasta estadunidense. "Isso é o que acontece com os pacificadores neste mundo doente", diz o professor doutor Kuznick, maior parceiro de Stone desde a juventude. 

Kuznick discute ainda as tensas relações EUA-Rússia através de uma análise retrospectiva, as quais ameaçam a eclosão de uma III Guerra Mundial com sérios riscos de ataques nucleares, diante de uma mídia irregenerável em sua arte de manipular e de uma Casa Branca enlouquecida, com um fascista inconsequente, Donald Trump, à frente. 

"O fato de que os eleitores dos Estados Unidos escolheram um apresentador de TV imensuravelmente ignorante, intolerante e mentiroso patologicamente como presidente, é prova mais que suficiente de que os Estados Unidos são uma democracia fracassada", avalia o pesquisador.

Tratando especificamente da polêmica gerada dentro dos Estados Unidos, de que Moscou poderia ter raqueado as eleições a favor de Trump para prejudicar a democracia norte-americana, Kuznick afirma que tais denúncias ultrapassam a racionalidade, observando inclusive que as primárias republicanas e a própria campanha de Trump tratou de jogar a "democracia" de seu país ainda mais no lamaçal. 

"Com 17 adversários que discutiram quem era o maior ignorante quando se tratava de mudanças climáticas e ciências gerais além de debater quem tinha o pênis maior, a Rússia precisava mesmo intervir para desacreditar a democracia norte-americana? Os norte-americanos estavam fazendo um trabalho suficientemente bom, sem ajuda da Rússia", ironiza Kuznick.

Na sequência, a íntegra das providenciais e fortes observações de um dos historiadores mais renomados do mundo.

Edu Montesanti: Professor doutor Peter Kuznick, muito obrigado pelo indescritível privilégio de ser seu parceiro em publicações em todo o mundo. Qual sua análise da cobertura da mídia norte-americana, em relação às entrevistas recentes de Oliver Stone com o presidente russo Vladimir Putin?

 Peter Kuznick: Compreendo totalmente por que Oliver Stone decidiu entrevistar Vladimir Putin. Compreendo totalmente por que as entrevistas têm gerado tanta controversa. E entendo perfeitamente por que tantos críticos desejam matar Oliver - o Mensageiro -, em vez de lidar com o conteúdo do que Putin contou a Oliver nas entrevistas.

 O interesse de Oliver na Rússia e Putin não é algo do tipo banal e passageiro. Oliver é filho da Guerra Fria, cresceu sua à sombra. Seu pai era um republicano conservador. Em sua casa, os soviéticos eram considerados os vilões em busca da conquista do mundo. A maioria dos norte-americanos acreditava nisso na década de 1950 e no início dos anos de 1960.

Oliver era muito patriótico e politicamente conservador. Calouro na Universidade de Yale em 1964, ele apoiou Barry Goldwater (major-general da Força Aérea e senador republicano pelo Arizona de 1953 a 1965, e de 1969 a 1987) para presidente. Oliver mais tarde abandonou Yale, e ofereceu-se para servir no combate no Vietnã onde foi ferido duas vezes, e altamente condecorado. Não só ele acreditava que os Estados Unidos estavam do lado direito, ele arriscou sua vida por suas convicções. O Vietnã plantou algumas sementes de dúvida, mas ele estava apenas começando a descobrir as coisas. Ele não teve uma súbita transformação.

Até 1980, Oliver votou em Ronald Reagan. Na verdade, após a visita a El Salvador no início dos anos 80 ele começou a entender a natureza do Império norte-americano, e o insidioso impacto do excepcionalismo norte-americano. Então, seus pontos de vista começaram a mudar conforme ficou evidente em seus filmes SalvadorPlatoonBorn on the Fourth of JulyWall Street e JFK - todos feitos durante uma explosão extraordinária de criatividade, talvez sem precedentes, entre 1886 e 1991.

 Como ocorreu com todos nós, criados nos anos da Guerra Fria, Oliver fascinou-se pela Rússia. Na década de 1980 ele visitou a União Soviética, encontrou-se com dissidentes e escreveu um roteiro sobre eles. Oliver diz que isso foi muito bom. Tenho certeza que sim. No entanto, tratou-se de um filme altamente preocupante para Hollywood naquela época, jamais produzido. Mas o interesse de Oliver na Rússia nunca diminuiu.

As relações entre os Estados Unidos e a Rússia estão no cerne do nosso documentário Untold History of the United States e do nosso projeto de livro. Enquanto trabalhamos nisso por cinco anos, Oliver estudou a história russa bem como a história da política externa dos Estados Unidos. Apresentamos um retrato muito diferente sobre tais temas em relação ao que a maioria dos norte-americanos aprendeu nas escolas ou na mídia dos Estados Unidos. Mostramos a oposição armada dos Estados Unidos à Revolução Russa, e o apoio norte-americano aos anti-revolucionários.

Demolimos o mito de que os norte-americanos ganharam a Segunda Guerra Mundial na Europa, evidenciando que foram os soviéticos que executaram a maior parte dos combates, que sofreram as maiores baixas e que causaram as maiores baixas das forças alemãs, com 27 milhões de mortos naquele empreendimento.

Enquanto deploramos a extraordinária brutalidade de Stalin, mostramos que eram os Estados Unidos quem davam todas as cartas pós-Segunda Guerra Mundial - de uma economia em expansão a uma rede de bases ao redor do mundo para o monopólio das bombas atômicas -, e assumiu as principais responsabilidades pelo início da Guerra Fria.

Mergulhamos na história da Guerra Fria, concentrando-nos em grande parte nos modos pelos quais os Estados Unidos afastaram-se de seus ideais declarados para derrubar líderes democráticos populares, interferir nos processos políticos de outros países, apoiar ditadores e tiranos que deram liberdade irrestrita para corporações e bancos dos Estados Unidos, e intervêm militarmente em todo o mundo - os quase quatro milhões de vietnamitas mortos, são apenas as vítimas mais evidentes.

Mas a Rússia permaneceu no centro da história já que os soviéticos responderam ao enorme arsenal nuclear dos Estados Unidos, construído em grande parte nos ano do presidente Eisenhower, construindo alguns dos seus próprios arsenais enquanto o mundo sofria diante a perspectiva de aniquilação universal.

As décadas subsequentes assistiram a flexibilização e o aumento das tensões, mas o perigo de uma destruição mutuamente garantida nunca diminuiu até que a União Soviética entrou em colapso em 1991. Houve, realmente, um breve momento de esperança à humanidade, já que Gorbachev, um verdadeiro visionário, tentou desesperadamente criar um mundo de paz e democracia. Infelizmente, ele não tinha parceiro nos Estados Unidos nem na Europa.

A década de 1990 foi um desastre ao povo russo já que Boris Yeltsin, instigado por conselheiros dos Estados Unidos, submeteu a economia a uma terapia de choque tão selvagem que destruiu os padrões de vida e criou um novo grupo de plutocratas ou oligarcas sugadores de sangue, quase da noite para a noite.

Durante aquela lúgubre década, a expectativa de vida russa despencou e a economia diminuiu para o tamanho da Holanda. A Rússia deixou de ser uma superpotência, para ser um capacho sobre o qual os Estados Unidos pisoteavam. Foi Putin quem projetou a recuperação dramática da Rússia, quem restaurou o status de uma grande nação e grande protagonista em questões globais.

Em primeiro lugar, Putin estendeu a mão aos Estados Unidos buscando relações amigáveis. Mas os formuladores das políticas dos Estados Unidos estavam acostumados a tratar a Rússia com desprezo desde a década de 1990. Eles consideraram que a Rússia, com Putin, continuaria prostrada sob comando dos Estados Unidos, mas os russos estavam despertando meteoricamente.

Ajudado pelos preços mais elevados da energia, Putin inverteu o declínio econômico da Rússia e sua economia cresceu rapidamente. Padrões de vida e a expectativa de vida aumentaram. Ele também reverteu o declínio militar da Rússia, reforçando e modernizando suas forças armadas.

Em 2006, a revista Foreign Affairs do Council of Foreign Relations publicou ainda um artigo afirmando que os Estados Unidos alcançaram a capacidade de primeiro-ataque há muito tempo buscada. Os autores argumentaram que, se os Estados Unidos lançassem um ataque nuclear contra a Rússia, esta se encontraria indefesa e incapaz de contra-atacar. Isso perturbou o espíritos no Kremlin. Além disso, a Rússia estava cercada pela OTAN. Apesar das promessas do presidente George H.W. Bush (pai) e do secretário de Estado James Baker, a OTAN expandiu-se para 12 países - agora 13, com Montenegro - ao leste, até a porta da Rússia.

Quando George W. Bush (filho) começou a promover uma maior expansão para incluir a Geórgia e a Ucrânia (na OTAN), Putin considerou que já era demais, e começou a resistência. Ele decidiu que os Estados Unidos e os europeus não eram parceiros confiáveis, e percebeu que estavam tentando debilitar, humilhar e marginalizar a Rússia.

O esforço da União Européia para atrair a Ucrânia foi outro passo insuportável para Putin, que respondeu ao golpe apoiado pelos Estados Unidos aproveitando o antigo território russo da Crimeia, e apoiando a resistência no Donbass. A Rússia tornou-se mais assertiva em outras frentes, incluindo a Síria. Ele fortaleceu os laços com a China e outras nações que desconfiavam das intenções hegemônicas dos Estados Unidos. Sob a liderança de Putin, a Rússia tornou-se, novamente, protagonista no cenário mundial.

Em resposta, os líderes políticos norte-americanos e a mídia adestrada iniciaram uma campanha de hostilidade contra Putin nos Estados Unidos e em partes da Europa. As tensões aumentaram entre os Estado Unidos e a OTAN, e a Rússia na Síria, na Ucrânia e nos países Bálticos. Nenhum lado respeitava as linhas vermelhas do outro lado. A ameaça de guerra passou a ser cada vez mais intensa. 

Oliver e eu, junto com muitos de nossos colegas, alarmado-nos, dissemos isso publicamente e o mais rapidamente possível. Mas Oliver teve chance de fazer mais, e aproveitou essa chance. Ele queria trazer os pontos de vista de Putin ao público com a esperança de que, entendendo a visão de mundo de Putin, ajudaria a aliviar as tensões entre Estados Undos e Rússia.

Ele quis mostrar que Putin não é o bicho papão sanguinário como costumam reproduzi-lo. Ele esperava romper com a difamação dos meios de comunicação dos Estados Unidos em relação a Putin e suas políticas, para que Estados Unidos e Rússia pudessem chegar a um denominador comum, agir em conjunto, onde tenhamos interesses comuns e um alívio nas tensões, nos pontos onde não temos feito isso.

Oliver está bem ciente de que Estados Unidos e Rússia têm mais de mil armas nucleares apontadas um ao outro sob alerta de disparo iminente. Está bem ciente de que dois indivíduos - Donald Trump e Vladimir Putin - têm poder de veto sobre a existência futura de nossa espécie.

Durante a crise dos mísseis cubanos, Kennedy e Khrouchchev descobriram o quanto vida desse planeta é  frágil, e tentaram trabalhar juntos para eliminar tudo que, entre as duas nações, poderia causar outra crise. Infelizmente, eles não conseguiram ver esse esforço concretizar-se.

Ao levar Putin ao público norte-americano e deixá-lo falar por si, Oliver atuou segundo a tradição de Kennedy e Khrushchev. Ele agiu como pacifista. Oliver estendeu a mão, e estendeu o pescoço dele. E a mídia norte-americana adestrada, liderada por The New York TimesNewsweek e Daily Beast, pisou nos dedos e tentou cortar sua cabeça. Isso é o que acontece com os pacificadores neste mundo doente.

Por que, na sua avaliação, a mídia norte-americana demoniza o presidente Putin?

A mídia norte-americana demoniza Putin porque ele defende o que ele acredita ser o interesse nacional da Rússia, que muitas vezes o coloca em desacordo com os líderes dominados pelos neocons dos Estados Unidos e com os esforços deles para manter a unipolaridade dos Estados Unidos.

De fato, os políticos norte-americanos nem reconhecem que a Rússia tem interesses de segurança nacional que precisam ser respeitados. A mídia dos Estados Unidos carece de contexto e perspectiva histórica. Pode-se ligar a CNN ou outras redes, e ouvir todos os "especialistas" concordando com o fato de que o suposto raqueamento da Rússia na eleição dos Estados Unidos foi um "ato de guerra". Elas exigem sanções, boicotes e medidas agressivas. Ninguém menciona a história dos Estados Unidos de intervenção em eleições a eleições em todo o mundo, inclusive na Rússia desde 1947 e em toda a América Latina muito, antes disso.

Os "especialistas" falam sobre a necessidade de punir a Rússia por suas ações na Ucrânia. Mas eles convocaram o mundo a boicotar os Estados Unidos pela invasão do Iraque? Eles pediram sanções contra os Estados Unidos e a OTAN por derrubar Gaddafi na Líbia, e espalhar o caos por toda a região? Eles são sequer capazes de julgar os Estados Unidos da maneira como julgam outras nações? É claro que não! Esta é a doença do nacionalismo e da mentalidade provinciana. É o que chamamos de "excepcionalismo norte-americano" - uma cegueira em relação aos próprios "erros" dos Estados Unidos, porque nossas motivações são "tão puras".

Bem, depois de obervar os Estados Unidos intervindo, bombardeando, invadindo, raqueando, supervisionando, zombando, saqueando país a país, você começa a questionar a pureza dos motivos dos Estados Unidos - pelo menos você faz se ainda consegue pensar racionalmente e de maneira crítica.

O problema com a mídia norte-americana não é que, conscientemente, difunda "notícias falsas". O problema é que seu quadro de referência é tão estreito que exclui versões da história, da verdade e da realidade que desafiam o quadro excepcionalista norte-americano. Como Samuel Huntington escreveu: "O Ocidente conquistou o mundo não pela superioridade de suas idéias, valores ou religião ... mas por sua superioridade na aplicação da violência organizada. Os ocidentais, muitas vezes, esquecem esse fato; os não-ocidentais nunca se esquecem".

Consciente do quanto a mídia norte-americana é arrogante diante de opiniões que, de alguma forma, desafiam o consenso geral como Oliver obviamente faz, ele pode ter adotado uma abordagem ligeiramente diferente em suas próprias aparições na mídia em torno das entrevistas de Putin. Em vez de declarar categoricamente que Putin não raqueou a eleição dos Estados Unidos, acho melhor dizer que ainda precisamos de evidências sólidas para sustentar essa sentença. 

 

A Rússia tem capacidade de raquear esses correios eletrônicos, e pode ter tido a motivação para fazer isso, dado o comportamento norte-americano hostil que remonta a vários anos. Não podemos excluir essa possibilidade. Mas, por outro lado, há razões para questionar a certeza das 17 agências de inteligência dos Estados Unidos, que basicamente se resumem aos três que fizeram o estudo.

Em primeiro lugar, o sistema de proteção contra raqueio esteve extremamente descuidado, e os raquers deixaram tantas impressões digitais como vestígio, que parece que quiseram ser pegos ou, alternativamente, culpar a Rússia.

Em segundo lugar, teria sido um comportamento inusitadamente arriscado por parte de Putin fazer algo que o antagonizaria diante de Estados Unidos e (Hillary) Clinton, especialmente diante do fato que nem ele nem ninguém, em nenhum dos dois países, esperava que Trump ganhasse, provavelmente incluindo o próprio Trump.

Em terceiro lugar, desafia a racionalidade acreditar que tanto o FBI quanto o Comitê Nacional Democrata achavam que era suficiente aceitar a investigação da da empresa privada de segurança CrowdStrike sobre o sistema contra raqueio sem que o FBI realizasse sua própria investigação.

E em quarto lugar, o argumento de que os russos queriam prejudicar a democracia norte-americana não faz sentido. Nada poderia ter feito mais para zombar da democracia norte-americana que a campanha primária republicana, e a própria candidatura de Trump.

Com 17 adversários que discutiram quem era o maior ignorante quando se tratava de mudanças climáticas e ciências gerais além de debater quem tinha o maior pênis, a Rússia precisava mesmo intervir para desacreditar a democracia norte-americana? Os norte-americanos estavam fazendo um trabalho suficientemente bom sem a ajuda da Rússia. O fato de que os eleitores dos Estados Unidos escolheram um apresentador de TV imensuravelmente ignorante, intolerante e mentiroso patologicamente como presidente, é prova mais que suficiente de que os Estados Unidos são uma democracia fracassada.

Eu diria que muitos governos e canais privados raquearam e não há nenhuma prova, ainda, que os russos foram a fonte do WikiLeaks. Na verdade, Julian Assange negou categoricamente isso em diversas ocasiões. Mas eu não rejeitaria completamente a possibilidade de que os russos tivessem feito isso, e que Putin estivesse envolvido porque os governos geralmente agem irracionalmente, e vão contra seus próprios interesses.

Qual a importância dessas entrevistas de Oliver com Putin, e quais as passagens mais importantes a seu ver?

A coisa mais importante sobre as entrevistas é que elas humanizam Putin o que, em si, é uma grande conquista em um momento em que a mídia dos Estados Unidos o apresenta como um vilão de estória em quadrinhos.

Nas entrevistas, Putin surge como um reconhecido e sensato defensor dos interesses nacionais russos, mesmo que ele dissimule sobre isso, então. Ele tem uma visão coerente da história, muitas das quais tendo a concordar. Fiquei feliz em ver uma cópia da tradução russa de mil páginas do livro Untold History (of the United States) em sua mesa.

É claro que não concordo com Putin em tudo. Por exemplo, tenho uma visão muito mais laudatória de Mikhail Gorbachev que Putin. Sim, Gorbachev deveria ter sido mais prático e menos confiável como Putin diz a Oliver. Ele deveria ter escrito a promessa de Bush e Baker, de não expandir a OTAN em sequer um polegar a leste. Foi extremamente ingênuo.

Mas me agrada e admiro o utopismo e a fé de Gorbachev na humanidade, e no desejo que mais o compartilhe. Ele queria substituir o sistema soviético falho por um socialismo democrático, e estabelecer uma nova ordem internacional baseada no desenvolvimento pacífico compartilhado. Infelizmente, ele nunca teve essa chance. 

Yeltsin o substituiu. Putin resgatou a Rússia do desastre de Yeltsin, mas o país, como seu líder, tem tendências profunda e decepcionantemente conservadoras em seu abraço ao capitalismo, ao nacionalismo e à religião e a seus vínculos com alguns personagens, bastante desagradáveis, ​​ao redor do mundo. 

Putin justifica muitos dos excessos da Rússia dizendo que a democracia ainda é jovem. Para mim, um crítico franco da "democracia" norte-americana, isso não é suficientemente bom.

Na Rússia, eu preferiria muito mai ver uma mídia mais aberta, uma distribuição mais equitativa da riqueza, não só tolerância mas o incentivo à dissidência, o repúdio explícito a todas as formas de discriminação contra gays e lésbicas, maior proteção a jornalistas e uma mais vigorosa perseguição de seus assaltantes, e um papel menor da religião. 

Mas Putin tem idéias diferentes e expressou-as claramente nas entrevistas. Suas idéias aparentemente ecoam às da grande maioria dos russos.Seus índices de aprovação ainda são superiores a 80%, e o impacto que da economia em relação à queda dos preços do petróleo e do gás, e às sanções dos Estados Unidos e da Europa, não afetaram esses índices de aprovação. 

Gorbachev, que forneceu a primeira propaganda em apoio ao nosso projeto Untold History, é, desculpe dizer, muito menos popular na Rússia apesar do fato de que ele chegou tão tentadoramente perto da abolição de armas nucleares em Reykjavik, em 1986, no que teria sido uma das maiores realizações em toda a história humana.

Com essas restrições, as entrevistas proporcionam uma oportunidade sem precedentes para entender a perspectiva russa sobre muitas das questões cruciais do nosso tempo. Putin detalha seus pontos de vista sobre Síria, Ucrânia, OTAN, política norte-americana e sua política externa, guerra cibernética, terrorismo, mudanças climáticas e uma série de outras questões.

Achei que suas declarações prudentes sobre a ameaça nuclear foram particularmente reveladoras, além de ter apreciado muito que Oliver convencesse Putin a sentar-se com ele e assistir ao dr. Strangelove, brilhante comédia negra de Stanley Kubrick sobre a aniquilação nuclear. Putin considerou que o filme levantou "sérios problemas" sobre "ameaças reais, existentes". Ele disse que "pouco mudou" desde que o filme foi produzido, em 1964. 

Apesar das armas nucleares modernas, ele advertiu que são "mais sofisticadas, mais complexas" A "ideia de um ataque de retaliação e a incapacidade de administrar esses sistemas" é altamente relevante hoje. E estas coisas, ele previu, "se tornarão ainda mais difíceis e perigosas" no futuro.

Oliver trouxe Putin para falar sobre seus próprios antecedentes e a história familiar, e o questionou sobre o desejo de manter o poder e o controle. Na quarta entrevista, Oliver induziu duramente Putin para que defendesse o suposto raquer russo, na recente eleição dos Estados Unidos. As repetidas negativas de Putin não foram convincentes.

Sua declaração de que a Rússia não intervém nos assuntos internos de outros países parece ridícula. Sabemos que todas as nações poderosas fazem isso. Talvez seu comentário de que cada ação traz uma contra-ação foi mais realista, especialmente depois de detalhar uma longa lista de ações norte-americanas hostis à Rússia.

O que se adquire é uma boa compreensão de como Putin vê o colapso das relações russo-norte-americanas desde o fim do comunismo. Ele claramente não aprecia a atual hostilidade entre as duas nações, referindo-se repetidamente aos norte-americanos como seus "parceiros" e pedindo melhores relações entre as duas nações mais poderosas do mundo.

Ele diz que ele é cautelosamente otimista. Mas ele também é um realista. No final da entrevista, depois de terem assistido a Strangelove, Oliver entregou a Putin o estojo de DVD, no caso de querer voltar a vê-lo. Putin agradeceu e abriu o material, e constatou que estava vazio. "Presente típico de norte-americano!", afirmou.

Oliver sabia que pagaria um preço incalculável por conceder espaço para que Vladimir Putin  expressasse suas opiniões na televisão norte-americana. E ele tem apanhado sem piedade da mídia norte-americana.

No final da terceira entrevista, Putin perguntou a Oliver se ele tem apanhado. "Oh, sim, muitas vezes", disse Oliver. Putin respondeu,, presciente: "Então, não será nada novo o que você vai sofrer pelo que está prestes a fazer". Para o que Oliver respondeu: "Eu sei ... mas vale a pena. Vale a pena tentar trazer mais paz e consciência ao mundo. "Infelizmente, há muitos que não compartilham desse objetivo".

Edu Montesanti

 


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