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Nem todo terror será castigado

28.02.2008
 
Pages: 1234
Nem todo terror será castigado

O incrível julgamento político de cinco cubanos, condenados nos EUA a até duas prisões perpétuas, por procurar evitar atentados terroristas. Enquanto isso, Washington protege agente que explodiu avião com 73 pessoas a bordo

Leonard Weinglass

Presos, os cinco não opuseram resistência. Não tinham a missão de descobrir segredos militares dos EUA, mas de espionar criminosos e informar Havana sobre seus planos de agressão

Acusados de ter cometido 26 delitos contra as leis federais norte-americanas, cinco cidadãos cubanos - Gerardo Hernández, Antonio Guerrero, Ramon Labañino, Fernando González e René González - foram presos em Miami, Flórida, em 12 de setembro de 1998. Os "cinco", como ficaram conhecidos, tinham chegado aos Estados Unidos vindos de Havana, a capital cubana, com a missão de se infiltrar nas organizações armadas surgidas nas comunidades cubanas exiladas, as quais eram toleradas e mesmo protegidas na Flórida por sucessivos governos estadunidenses. O grupo tinha também a tarefa de descobrir as eventuais atividades terroristas destas organizações contra Cuba.

A ilha sofreu perdas humanas significativas (cerca de duas mil mortes) e grandes prejuízos morais em virtude das agressões de que foi vítima durante décadas. Seus protestos contra o governo dos Estados Unidos e as Nações Unidas foram em vão. No início dos anos 90, época em que Cuba se empenhava em desenvolver o turismo em seu território, os anti-castritas de Miami desencadearam uma campanha violenta de atentados que visavam dissuadir os estrangeiros de visitar a ilha. Em 1997, uma bomba foi descoberta em um dos aeroportos de Havana e outras explodiram em ônibus e hotéis. Um turista italiano, Fabio di Celmo, foi morto, dezenas de outros viajantes foram feridos. As instalações turísticas foram metralhadas por embarcações que vinham de Miami.

Na ocasião de sua prisão, os cinco não opuseram nenhuma resistência. Eles não tinham a missão de descobrir segredos militares norte-americanos, mas sim de espionar os criminosos e informar Havana sobre seus planos de agressão [ 1 ]. Eles agiam contra o terrorismo. Entretanto, foram enviados a presídios disciplinares reservados para o cumprimento da pena dos criminosos mais perigosos e foram mantidos presos durante 17 meses, até o início de seu julgamento.

Assim que o julgamento terminou, sete meses mais tarde, em dezembro de 2001 (três meses depois do terrível atentado de 11 de setembro), eles foram condenados a penas máximas: Hernández, a duas prisões perpétuas; Guerrero e Labañino, a prisão perpétua. Os dois outros, Fernando e René González, a 19 e 15 anos de reclusão, respectivamente. Vinte e quatro dos promotores que trabalharam no caso, em caráter técnico e relativamente menor, apontaram o uso de documentos falsos e ao desrespeito à obrigação de se declarar enquanto agente estrangeiro. Nenhuma das acusações envolve a utilização de armas, atos violentos ou a destruição de bens.

Terroristas, sim; mas "nossos"...

Nada é mais revelador do que o contraste entre a maneira como o governo americano conduziu este caso e a sua atitude em relação a Orlando Bosch e Luis Posada Carriles. Estas duas pessoas são, entre outras, as organizadoras de um terrível atentado a bomba contra um avião de linha cubano DC-8, que explodiu em pleno no dia 6 de outubro de 1976, matando 73 civis inocentes. Quando Bosch pediu permissão de residência nos Estados Unidos, em 1990, uma pesquisa oficial do Departamento de Justiça concluiu: "Durante anos, ele esteve envolvido em ataques terroristas no exterior, se diz defensor da realização de atentados e sabotagens, e esteve envolvido em atentados e sabotagens". Apesar disso, ele teve concedida a sua permissão de residência nos EUA pelo presidente George Bush pai...

Carriles, que explodiu o avião, pode ser expulso para o país de sua escolha. Os EUA recusam-se a extraditá-lo à Venezuela, onde deveria enfrentar as acusações de terrorismo e fuga da prisão

Preso em 1976 na Venezuela e condenado pelo atentado contra o DC-8 da Cia Cubana de Aviación, Posada Carriles "evadiu-se" da prisão de San Juan de los Morros em 1985, com a ajuda de "amigos" poderosos [ 2 ]. Ele admitiu publicamente em El Salvador, onde reside, ser o responsável pelos atentados a bomba realizados entre julho e setembro de 1997 em Havana (dentre os quais, o que causou a morte de Fabio di Celmo e feriu uma dezena de pessoas) [ 3 ]. Depois de sua prisão, em novembro de 2000 (época em que ele planejava um atentado com explosivo C-4 contra o presidente Fidel Castro na 10ª Conferência Ibero-americana no Panamá que poderia ter causado centenas de outras mortes), um tribunal local o condenou a oito anos de reclusão no dia 20 de abril de 2004.

Posada Carriles foi igualmente pela inexplicável hospitalidade do governo norte-americano (curiosamente engajado numa "luta mundial contra o terrorismo"...), como demonstra uma amabilidade ilegal, "por razões humanitárias", concedida também a três de seus cúmplices, pela presidente do Panamá, Mireya Moscoso, dois dias antes do fim de sem mandato, em 26 de agosto de 2004.

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