Pravda.ru

Mundo

Mudança, ou mais da mesma coisa?

27.10.2008
 
Pages: 123

Como tem sido Bush "punido" pelas mentiras que debilitaram a democracia, custaram milhares de vidas inocentes, causaram imenso sofrimento, e apequenaram a estatura moral dos Estados Unidos aos olhos do mundo? Durante oito anos ele vem sendo o líder daquela que é, defensavelmente, a mais poderosa nação da terra, sem jamais enfrentar acusações criminais ou impedimento de exercer o cargo. No entanto, há poucos anos, mentir a respeito de um relacionamento sexual era considerado de algum modo uma ofensa passível de impedimento para exercício do cargo.

Ainda assim, o mal provoca o mal e, embora Bush não tenha sido punido, os Estados Unidos têm-no sido. Se alguém examinar honestamente a herança de Bush (ou, como a chamei em artigos anteriores do Pravda.Ru, a "mentiherança" dele), fica óbvio que nada de bom decorreu da ocupação ilegal da Casa Branca por Bush.

Durante esse período de oito anos houve duas eleições fraudulentas — em 2000 e 2004; ocorreram os piores ataques terroristas em solo estadunidense da história dos Estados Unidos, e perguntas ainda restam a respeito do conhecimento prévio desses ataques pela ditadura Bush — e alguns falam de cumplicidade neles; a ditadura Bush cinicamente explorou o medo e a raiva do público em relação aos ataques para invadir ilegalmente o Iraque; biliões de dólares de dinheiro do contribuinte estão sendo gastos todo mês para perpetuar a ocupação ilegal do Iraque; o governo iraquiano está funcionando com superávit, enquanto a dívida nacional estadunidense escapou do controle; desastres naturais — como a destruição de New Orleans durante o Furacão Katrina — aconteceram durante a "atalaia" de Bush, e a resposta dada por ele foi, na melhor das hipóteses, inepta; os preços do combustível atingiram altas recordes, enquanto que as companhias de petróleo tiveram lucros recordes; o aquecimento global está levando animais à extinção e, no entanto, Dick Cheney, para agradar à indústria do petróleo, empenhou-se em manipular e censurar testemunho científico a respeito dessa crescente catástrofe ambiental; milhares de trabalhadores estão perdendo seu sustento à medida que as empresas fecham, promovem enxugamento ou "terceirizam" empregos; a depressão (inocuamente chamada de "recessão" está-se alastrando pelo mundo; as instituições financeiras, que incessantemente argumentaram que poderiam ser mais lucrativas sem regulação do governo, agora se aproximam do governo, de chapéu na mão, para receberem biliões de dólares de dinheiro de socorro financeiro; e muitos dos próprios "conservadores," que se opõem a assistencialismo para os economicamente em desvantagem, estão avidamente adotando assistencialismo para executivos que ganham milhões de dólares em salários, bônus e incentivos, enquanto suas corporações mergulham na falência.

Ironicamente, as pessoas vilipendiadas, nos Estados Unidos, são as que dizem a verdade. Um exemplo recente envolveu o Deputado John Lewis, vociferantemente condenado pelo candidato Republicano à presidência John McCain por ter comparado as táticas da campanha de McCain com as do ex-governador e político segregacionista George Wallace. Lewis disse que embora Wallace nunca se tenha envolvido em atos de violência, sua retórica certamente estimulou outras pessoas a fazê-lo.

Entretanto, estava Lewis realmente tão errado? Os historiadores tendem a concordar com que George Wallace era um oportunista político que faria e diria qualquer coisa para ganhar, mesmo se isso envolvesse apelar para o que há de pior em a natureza humana. Não é isso que McCain, e sua companheira de chapa Sarah Palin, estavam fazendo com frases capciosas dizendo que o opositor deles, Barack Obama "não é um de nós?" Não inspiram, tais frases, muitos dos partidários deles a gritar "terrorista," "matem-no," ou "arranquem-lhe a cabeça?"

Se alguém acredita que John McCain não dará continuidade à política de Bush de mentir, estimular a guerra e tornar os ricos mais ricos, então é porque esse alguém deixou escapar a acusação mais estranha que McCain levantou contra Obama: que Obama deveria ser condenado por desejar "disseminar a riqueza." Coerentemente com esse tema, McCain e Palin chegaram a tentar ressuscitar o espírito do bicho-papão "socialista" para atacarem as políticas econômicas de Obama.

Todavia, de acordo com muitos economistas, noventa e seis por cento da riqueza estão nas mãos de apenas quatro por cento da população. Nesse tipo de contexto, parece estranho que um candidato à presidência acredite que sua oposição ao "disseminar a riqueza" de algum modo seja vista como atraente para as massas.

Seria ainda mais irônico se essa estratégia funcionasse. Não seria, entretanto, de surpreender. A história dos Estados Unidos já mostrou que, com a mistura correta de preconceito, medo e incerteza, os estadunidenses frequentemente fizeram coisas em prejuízo próprio.

Naturalmente, McCain tentou racionalizar sua observação contendendo que a criação de "nova riqueza" é mais benéfica economicamente do que redistribuir riqueza já criada.

Todavia, para onde irá a esmagadora maioria dessa "nova riqueza criada"? Direto para as mãos dos quatro por cento mais ricos, porque a economia de"escoamento até chegar aos mais pobres" é realmente uma economia de "escoamento para os lados".

Pages: 123

Loading. Please wait...

Fotos popular