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Solidariedade e Justiça Social: Outro Mundo É Possível

26.11.2016
 
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Se cada brasileiro, chinês e indiano levasse o estilo de vida norte-americano, precisaríamos de três planetas

 

por Edu Montesanti

 

Em 2013, três conceituados cientistas da NASA publicaram um impactante estudo no qual, fundamentando-se em complexos modelos matemáticos, prognosticaram o possível colapso da civilização humana em poucas décadas. Outros estudos apontam que se cada brasileiro, chinês e indiano levasse o estilo de vida norte-americano, precisaríamos de três planetas para manter a vida na Terra possível.

 

As causas evidenciadas como determinantes para que cientistas da NASA chegassem às conclusões acima foram, principalmente, duas: a insustentável super-exploração humana dos recursos do Planeta e a crescente desigualdade social, justamente as duas mais fortes características do capitalismo, inerentes à "lógica" deste sistema - que é ilógico, baseado na maximização do lucro, na competitividade e na lei do que mais pode materialmente, não no bem-estar, na solidariedade e na igualdade de direitos.

De acordo com o escritor esloveno Slavoj Žižek , só funciona na medida em que se fundamenta na existência de dois grupos sociais, o dos "incluídos" e o dos "excluídos. Se não fosse assim, isto é, se o sistema capitalista fosse benéfico às massas trabalhadoras, tratados como TPP, TISA e TTIP, estágios mais avançados das leis do mercado que submetem toda a sociedade e até recursos naturais como água e ar aos interesses financeiros (a ditadura do mercado), não estariam sendo discutidos secretamente pelos poucos tomadores de decisão internacionais. Porém, conforme dizia George Orwell, "enxergar o que está diante do nosso nariz, exige um esforço constante".

Observou o mensal Tribuna Popular da Venezuela, em dezembro de 2014:

"O Capitalismo é baseado em crescer ou perder, o que significa dizer que se o capital não cresce, a burguesia não acumula. A questão é que o acúmulo do capital é limitado. Assim, a contradição que emana do capitalismo em sua fase imperialista é insolúvel em seu próprio marco. Disto se compreende a lógica depredatória e agressiva do capitalismo.

"Disto se compreende que a lógica depredatória e agressiva deste sistema. E isso não é uma questão de maldade e nem de distúrbio mental de alguns capitalistas, mas a lógica do próprio capital, que na morte e no saqueio dos nossos povos cifra seu acúmulo. Mas, ainda assim, não pode solucionar sua contradição: a contradição que o desenvolve e o coloca em xeque."

Segundo reportagem do Instituto Humanitas Unisinos de 25 de junho de 2014, em entrevista com o economista francês Gaël Giraud:

"Os mais ricos, independentemente dos países, são os que mais poluem o planeta causando, portanto, a destruição do clima e da biodiversidade, o que resulta em processo de desumanização.

"Aponta Giraud: '(...) Na atualidade, uma pequena centena de pessoas no mundo possui riqueza equivalente à metade da humanidade. (...) A miséria afunda os mais pobres num inferno, e a ultra-riqueza isola os mais ricos num gueto separado do resto da humanidade, em pânico de perderem o seu conforto, incapazes de participar de um projeto histórico e político que ultrapasse as dimensões que são próximas da sua vida de luxo. Praticar justiça é uma libertação não somente das vítimas, mas também dos carrascos.'"

O capitalismo é inimigo declarado da felicidade
(Jorge Riechmann, no livro ¿Cómo Vivir?)


O sistema dominante disfarçado precariamente de democracia, onde prevaleceria o bem-comum independente do poder aquisitivo de cada um, utiliza-se da ditadura do consumismo e das aparências que cria, diariamente nos laboratórios de publicidade e marketing, necessidades fúteis, concorrentes a serem superados ou até mesmo inimigos a serem combatidos a fim de gerar individualismo, anular ideais e senso cidadão de seres acríticos, conformistas, apáticos, compulsivos e dotados de fobias na busca desenfreada por preenchimento interior de acordo com as sutis imposições do marketing sobre sociedades homogêneas nunca satisfeitas, excludentes e intolerantes com as diferenças, mesmo aquelas que, simplesmente, estejam de alguma maneira fora do estereótipo preponderante. 

Subproduto do consumo alienado e da imposição de valores, as massas acabam facilmente manipuladas pelo sistema político e por sua porta-voz sustentada exatamente pelos "donos" desse sistema, usurpadores do poder: a grande mídia. Tudo o que fuja disso deve ser combatido como ameaça através de agressivos rótulos - ideólogos, rebeldes, baderneiros, subversivos, autoritários, paranoicos, etc. 

Já o grande valor do indivíduo dentro desta lógica reside na capacidade de vender produtos (atendimento médico, aula, etc) a clientes (pacientes, alunos, etc), e o lucro que se gera a partir disso, não o caráter, a bagagem intelectual nem necessariamente a qualidade real naquilo que se propõe a fazer, independente do retorno financeiro. 

Esta realidade permeia todos os segmentos de uma sociedade que rezam a mesquinha cartilha das leis do capital, onde "quem pode manda, e que tem juízo obedece cegamente", ou seja, as virtudes e o respeito são divisíveis, absolutamente relativos de acordo com os privilégios e a escassez das respectivas classes sociais. Assim, até a honra e o opróbrio são mercantilizados, tanto quanto a água e o ar que se respira.

Os defensores desse sistema têm como principal argumento o precário subterfúgio regressivo que afirma que o ser humano e o mundo são "assim mesmo", ou seja, o homem é egoísta por natureza e vale a lei do mais forte, geralmente tendo como exemplo, para dar um toque de naturalismo e talvez de ingenuidade, o fato de alguns animais se alimentarem de outros: "é a lei da vida". Alguns "mais religiosos" apontam, "sabiamente" e "cheios de fé", que Deus quis assim - "do contrário, não seria assim", palram. 

Os mais "técnicos" saem-se com ilusões do tipo, "todos têm a chance de se tornar milionários" no sistema capitalista apresentado como "um mundo de possibilidades", o qual não precisa ser pensado muito profundamente para que seja constatado exatamente o inverso disso: vale e pode (inclusive moralmente) quem tem e, tão importante quanto isso, quem aparenta ter. 

Do contrário, não se terá a possibilidade sequer de se mover do bairro de Santo Amaro ao Parque do Ibirapuera em São Paulo - ou se se conseguir chegar lá, ainda que a pé, o pior ainda estará por vir: no maior parque da América Latina, o cidadão comum das classes menos favorecidas ou que aparente certa simplicidade, terá de vencer a agressiva exclusão social, com todo o mal-estar bem conhecido que envolve esse ambiente no que deveria ser um período de lazer; e se for o caso, na tentativa de vender algo como artesanato ou uma série de livros para sobreviver, sofrerá forte repressão policial, apreensão dos produtos além da própria ridicularização societária, apenas para citar alguns exemplos menos dramáticos deste "mundo de possibilidades" em que, "dependendo apenas do esforço, qualquer um pode se tornar milionário".

Assim, em nome do excesso nas mãos de algumas dúzias de famílias nacionais e do 1% mundial, devemos todos nos conformar com o status quo opressor sobre as miseráveis maiorias, sem nenhuma perspectiva de mudança como se todo ser humano fosse melancólico como eles que inclusive primam, segundo imposição também da ditadura do capital e da informação rendida às "leis do mercado", pela glorificação dos iguais não admitindo diferenças, questionamentos nem muito menos afirmação e avanço cultural (esta, também negociável no sistema capitalista).

Devido ao "raciocínio" dos aiatolás do capital que apostam na ingenuidade alheia e extravasam a estupidez, povos e culturas milenares têm sido completamente dizimados ao longo da impiedosa história, ditada pelos donos e usurpadores do poder em nome de um suposto progresso financeiro e tecnológico que, à frente do bem comum, trouxe o mundo a este estado caótico onde se multiplicam velozmente fome, doenças facilmente tratáveis, violência, roubalheira indiscriminada, guerras, degradação ambiental, extinção de espécies e, logo, da espécie humana pela própria espécie.

Disse o papa Francisco em entrevista ao jornal italiano La Repubblica no dia 11 de novembro de 2016: "São os comunistas que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde os pobres, os frágeis e os excluídos sejam os que decidam. Não os demagogos, mas o povo, os pobres, os que têm fé em Deus ou não, mas são eles a quem temos que ajudar a obter a igualdade e a liberdade". 

Quando fez tal afirmação, o papa certamente não tinha em mente o capitalismo de Estado soviético, imperialista, tirânico, mas a organização social, por exemplo, dos povos originários da região hoje conhecida como América Latina baseada na inclusão e no bem-estar acima de tudo: do indivíduo, da família, da comunidade, dos animais e da terra.

Opor-se ao monoteísmo do mercado vai muito além de ideologia: cosmovisão, trata-se de questão de sobrevivência. A felicidade e a vida no planeta dependem de um outro mundo, possível, onde prevaleçam cooperação, valorização às diferenças (sejam elas quais forem, desde que não firam o espaço nem a liberdade do outro) e justiça social. No caso particular do Brasil, altamente despolitizado, a maior desgraça é que se conseguiu transformar até os pobres em seres reacionários e sem o menor senso de cidadania. Mas outro Brasil também é possível.

Jesus foi o primeiro socialista: dividiu o pão e o vinho; Judas foi o primeiro capitalista: vendeu Jesus por trinta moedas
Hugo Chávez

 


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