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Com 73.000 indigentes, Los Angeles é a capital dos sem-teto dos Estados Unidos

25.03.2009
 
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Com 73.000 indigentes, Los Angeles é a capital dos sem-teto dos Estados Unidos

22 de Março de 2009 - 09:20 (mmaldonado)

Califórnia, Suas palmeiras, seu clima, seu incomparável oceano. Sua crise, seu desemprego, seu déficit espantoso. O Golden State (Estado de Ouro), símbolo de um certo sonho americano, o horizonte longínquo que atraiu sonhos e milhões, converteu-se, em pouco tempo, numa de seus piores pesadelos. Um estado que soma os piores índices da recessão e onde, a cada dia que passa, milhares de pessoas acabam na rua.

Califórnia, terra de bolha imobiliária que agora registra, junto com Nevada, a pior taxa de despejos dos Estados Unidos e onde o valor das casas caiu 27% em relação ao ano anterior.

Califórnia, que descobriu recentemente que 20% da população de Los Angeles, pouco mais de dois milhões de pessoas, beneficiavam-se de algum tipo de subsídio e que, em 2008, perderam 541.000 postos de trabalho, confirmando uma taxa de desemprego de 10%, dois pontos acima da média nacional.

Califórnia, que soma um déficit de 42 bilhões de dólares (30,7 bilhões de euros) e que só conseguiu aprovar seu orçamento há um mês (por um único voto, após uma sessão maratonista, depois de que seu governador, Arnold Schwarzenegger, ameaçou despedir 20.000 funcionários.

Um panorama que beira ao cataclisma do qual Barack Obama acaba de regressar, depois de um giro de dois dias vendendo seu maltratado programa de resgate financeiro. “Não posso lhes dizer quanto vamos demorar ou quais obstáculos teremos que superar, mas posso lhes prometer que a Califórnia viverá dias mais ensolarados”, afirmou o presidente em uma de suas aparições públicas.

Viver num veículo

Mas, enquanto chove tanto no mar. “Aqui, a hemorragia é mais rápida do que no resto do país”, disse Sung Won Sohn, economista da universidade estatal.

Terry Mahoney sabe algo de tudo isto. Há meses, vive num veículo com seus dois filhos adolescentes, Brandon e Jennifer, numa rua de Veneza, a praia hippie de Los Angeles. Até há pouco, trabalhava na General Dinamics, uma fábrica de armas. “Ajudava a fabricar mísseis”, disse com ironia, “era o último elo da cadeia de montagem”.

O desemprego, ao qual se somaram um divórcio, a hipoteca, as dívidas acumuladas durante anos, deixou-a nas últimas. Num país, onde as ajudas são praticamente inexistentes, é fácil ficar sem nada.

“Pensei que Veneza fosse o melhor lugar para passar esta má sorte”, disse Terry, “pelo menos estamos perto do mar”. E não é a única. Em sua rua, vivem uma bibliotecária, uma professora-suplente, um mensageiro que trabalha no turno da noite da Fedex, um empregado do supermercado vizinho e um treinador pessoal; uns em carros, outros em caminhonetes.

“Não somos mendigos, somos gente que tenta manter o pouco que lhes resta de vida normal”, explica Terry. Seu filho, Brandon, continua indo regularmente à escola, em outro bairro de Los Angeles, onde ninguém sabe que ele não tem teto, e Jennifer é caixa numa loja de licores.

Mas, Veneza acabou não sendo o refúgio que eles esperavam. A praia cool, onde a maconha é vendida em máquinas descartáveis (com finalidade terapêutica e com receita) e onde os surfistas se deslizam, em pleno inverno, pelas ondas do Pacífico; o parque temático que nasceu no início do século do delírio imobiliário do magnata do fumo, Abbot Kinney e, com os anos, transformou-se em bairro de luxo de bohemian bourgeois (burgueses boêmios) em busca de legitimação alternativa, não querem pobres nem nada que parecido com eles.

“Patrulhas de vizinhos atacam os veículos no meio da noite, tentam abrir a porta para ver se há alguém dentro, dá muito medo”, diz Brandon. “Puseram areia no nosso tanque, furaram os pneus e, agora, suspeito de que fizeram algo no motor porque não há jeito de ele pegar”, acrescenta Terry, depois de fuçar, sem muito êxito, sob o capô.

Campos de refugiados

A polícia também os considera indigentes incômodos. “Muita gente que conheço acabou na prisão por andar vagabundeando, porque as autoridades não sabem o que fazer com eles” acrescenta Terry, “agora querem-nos colocar em campos de refugiados, em gigantescos estacionamentos, distantes de tudo, onde, além disso, você tem de pagar e não o deixam sair à noite”.

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Veneza, no momento, está ganhando a batalha. Há umas semanas, seu conselho municipal votou na limitação do estacionamento noturno nas ruas, tornando ilegal de fato a presença de seus inquilinos mais indesejáveis. Embora a Comissão de Costas da Califórnia, que dá a última palavra, não vá se reunir até junho, já apareceram faixas restringindo as horas de estacionamento.

“Não temos a quem recorrer. Não sei onde acabaremos”, disse Terry, “pelo menos temos a caravana de veículos. É o que salva a sua vida. O que separa você do cara em farrapos que empurra o carrinho de supermercado cheio de lixo e parece meio louco”.

A notícia foi amplamente coberta pela imprensa local, como um dos exemplos mais pungentes da crise. Mas há muitos outros. Em toda a Califórnia, estão surgindo tent cities, acampamentos de tendas de campanha, nos limites dos núcleos urbanos, que, a cada dia, acolhem mais pessoas que ficaram sem teto.

São imagens da Grande Depressão. Repetem-se em Sacramento, a capital; em Santa Bárbara, nacosta; ou em Ontário, uma localidade ao extremo leste de Los Angeles, onde, em fins do ano passado, a polícia teve de desalojar centenas de sem-teto que tinham-se instalado perto da pista de aterrissagem do aeroporto.

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