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Para defender o dólar-imperialismo

24.12.2014
 
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"A 'necessidade' do Fed, de assumir papel ainda mais ativo, com estrangeiros desacelerando cada dia mais as compras do dólar norte-americano, é meter o pé no breque da corrida de 'des-dolarização' em curso no mundo desenvolvido - corrida que nos empurra, em velocidade crescente, na direção do fim do atual regime monetário."

Stephanie Pomboy, MacroMavens


"Não importa o que digam nossos contrapartes, todos vemos claramente o que está acontecendo. A OTAN está ostensivamente acumulando forças do Leste da Europa, inclusive nas áreas do Mar Negro e do Mar Báltico. Suas atividades operacionais e de combate estão aumentando em escala."
-  Vladimir Putin, Presidente da Rússia


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"Mas como os EUA beneficiam-se disso tudo, afinal, se os lucros do gás vão para o Qatar e para os países de trânsito, não para os EUA?

Sim, é verdade. Mas o gás será denominado em dólares, o que fará aumentar a demanda por dólares norte-americanos, e perpetuará o sistema de reciclagem que cria um vasto mercado para dívidas em dólares, o que ajuda a manter ações e papeis dos EUA suspensos em altitudes vertiginosas. E é disso que se trata: preservar a supremacia do dólar, obrigando as nações a manter reservas excessivas em dólares norte-americanos para pagar transações de energia e atender às respectivas dívidas denominadas em dólares."

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Se houvesse meio pelo qual os EUA pudessem atingir seus objetivos estratégicos de longo prazo e, ao mesmo tempo, evitar a guerra contra a Rússia, os EUA prefeririam. Infelizmente, não há tal alternativa, motivo pelo qual haverá confronto entre as duas potências nucleares, no futuro próximo.

Permitam-me explicar: o governo Obama está tentando reequilibrar a política norte-americana de tal modo que tire o foco do Oriente Médio e o mude para a Ásia, que 'ameaça' ser a região de mais rápido  crescimento no mundo no próximo século. Essa mudança de política tem sido chamada de "pivô para a Ásia". Com vistas a beneficiar-se da avançada de crescimento da Ásia, os EUA planejam fatiar sua presença por todo o continente, expandir as bases militares, reforçar alianças bilaterais e os acordos comerciais, e assumir o papel de espinha dorsal da segurança regional. O objetivo nada-secreto da política é "conter" a China, quer dizer, Washington quer preservar sua posição de única superpotência mundial, controlando o crescimento explosivo da China. (Os EUA querem uma China fraca, dividida, que faça o que a mandem fazer.)

Para alcançar suas metas na Ásia, os EUA têm de enfiar a OTAN mais para leste, apertar o cerco em torno da Rússia e controlar o fluxo de petróleo e gás do oriente para o ocidente. Essas são as precondições necessárias para impor a hegemonia dos EUA sobre o continente asiático. E por isso o governo Obama está tão investido no futuro da junta alucinada que ocupa o governo em Kiev: porque Washington precisa das tropas de choque neonazistas de Poroshenko, para arrastar a Rússia para uma conflagração na Ucrânia, que exaurirá os recursos dos russos, desacreditará Putin aos olhos dos parceiros comerciais da União Europeia e gerará o pretexto para meter a OTAN em cima da fronteira ocidental da Rússia.

A ideia de que o exército-fantoche de Obama na Ucrânia lá estará para defender a soberania do país é pura conversa fiada. Sob a superfície, o fato é que os EUA tentam conter o próprio irreversível declínio econômico e o encolhimento progressivo de sua parcela do PIB global, usando força militar.

O que vemos na Ucrânia hoje é uma versão para o século 21 do Grande Jogo, implementado por políticos delirantes bebedores de Ki-Suco envenenado com cianureto que acreditam que possam fazer o relógio andar para trás para os primeiros dias pós 2ª Guerra Mundial, quando o Império dos EUA florescia e o mundo era a casca que protegia os EUA, preciosa ostra. Felizmente, esse tempo acabou.

Não esqueçamos que os gloriosos militares dos EUA consumiram os últimos 13 anos combatendo contra pastores de cabras em cavernas no Afeganistão, num conflito que, no melhor dos casos, pode ser declarado 'empatado'. E agora vem a Casa Branca, a querer tomar a Rússia?

Todos estão vendo bem a insanidade dessa política?

Por isso é que o secretário de Defesa Chuck Hagel foi demitido semana passada, porque não é suficientemente doido para desejar avançar nessa política de malucos, de escalar guerras simultaneamente no Afeganistão, no Iraque, na Síria e na Ucrânia. Todos sabem que se trata exatamente disso, o governo nem tentou desmentir. O governo Obama prefere agarrar-se a figuras completamente ensandecidas, de espumar pela boca, como Susan Rice e Samantha Powers, a seguir um veterano condecorado, que tem mais inteligência e credibilidade no dedo mindinho que toda a 'equipe' de Segurança Nacional de Obama somada.

Assim então Obama está hoje completamente cercado de doidos furiosos, consumados imbecis, todos enlouquecidamente agarrados ao mesmo delírio segundo o qual os EUA vão detonar a Rússia, derrubar Assad, redesenhar o mapa do Oriente Médio, controlar todo o fluxo de petróleo e gás do Oriente Médio para mercados na União Europeia e estabelecer milhares de cabeças de praia por toda a Ásia, de onde conseguirão manter o crescimento da China controlado com rédea curta.

Diga-me cá, prezado leitor: a coisa toda não lhe parece um pouco... improvável?

Mas, claro, a gangue de Obama pensa que está tudo ao alcance das garras deles, porque bem... porque é o que foram treinados para pensar, e porque é o que os EUA tem a fazer, se quiserem manter a exaltada posição de única superpotência mundial, quando sua significação econômica só faz declinar sem parar, no mundo. Você sabe, o negócio é o seguinte: a nação excepcional só faz ir-se tornando cada vez mais des-excepcional, sem parar, e é isso que muito preocupa os políticos, porque já viram o que aparece no muro e a escrita diz "Aproveite enquanto pode, mermão, que ocênão dura muito, aí, como el numero uno...".

E os EUA têm aliados nessa cruzada pirada, especialmente Israel e a Arábia Saudita. Os sauditas foram bem úteis recentemente, inundando o mercado com muito petróleo, para baixar os preços e esmagar a economia russa. (Na 6ª-feira, os preços Benchmark do cru caíram ao valor mínimo dos últimos 4 anos, com o Brent cru despencando para $69,11 o barril.) O governo Obama está usando o clássico saque & voleio: sanções econômicas e redução nos lucros do petróleo, para chantagear Moscou e tentar arrancar os russos da Crimeia, de modo que Washington possa instalar ali o seu arsenal nuclear, a distância de uma cuspida, de Moscou. Eis o que diz o Guardian, sobre o quadro geral:


"Pense sobre como o governo Obama vê o estado do mundo. Quer que Teerã ajoelhe-se na questão do seu programa nuclear. Quer que Vladimir Putin retroceda no leste da Ucrânia. Mas, depois das recentes experiências no Iraque e no Afeganistão, a Casa Branca não quer saber de pôr coturnos norte-americanos em solo nenhum. Em vez disso, com a ajuda de seu aliado saudita, Washington tenta derrubar os preços do petróleo, mediante o afogamento, em cru, de um mercado já fraco. Como os russos e os iranianos dependem pesadamente das exportações de petróleo, a ideia é que, assim 'amaciados', será mais fácil lidar com eles. 

John Kerry, secretário de Estado dos EUA, parece, teria fechado um acordo com o Rei Abdullah em setembro, pelo qual os sauditas passariam a vender seu cru a preços inferiores aos de mercado. Assim se pode começar a entender por que os preços só caem, num momento em que, dado os tumultos no Iraque e na Síria, causados pelo Estado Islâmico, seria de esperar que os preços subissem." (Stakes are high as US plays the oil card against Iran and Rússia, Larry Eliot, Guardian)


E em Salon há mais, em coluna de Patrick L. Smith:


"Há menos de uma semana depois de o Protocolo de Minsk ser assinado, Kerry fez viagenzinha discreta a Jeddah, para ver o Rei Abdullah em seu palácio de verão. Quando a visita afinal foi noticiada, foi apresentada como parte da campanha de Kerry para assegurar o apoio árabe na luta contra o Estado Islâmico.

Pode-se parar por aí. O que informam minhas fontes, altamente confiáveis, é bem diferente. A outra metade da visita teve a ver com o insopitável desejo de Washington, que só pensa em arruinar a economia da Rússia. Para conseguir isso, Kerry disse aos sauditas que (1) aumentassem a produção; e (2) baixassem o preço do cru deles. Mantenham em mente os seguintes importantes números: os sauditas produzem um barril de petróleo por menos de $30, sem agredir o orçamento nacional; os russos não podem vender por menos de $105.

Pouco depois da visita de Kerry, os sauditas começaram a aumentar a produção, sem dúvida alguma - para mais de 100 mil barris/dia durante o resto do mês de setembro, e ainda há mais por vir... 

Pensem bem. O inverno está chegando, há graves cortes na produção hoje no Iraque, Nigéria, Venezuela e Líbia, e outros membros da OPEP suplicam por algum alívio, e os sauditas obram para fazer cair ainda mais os preços já muito baixos? Façam suas próprias contas, considerando o roteiro não noticiado dos passos de Kerry, e, para ajudar nas contas, aí vai mais uma informação, de fonte muito bem posicionada nos mercados decommodities: "Há mãos grandes fazendo jorrar petróleo na oferta global nesse momento" - escreveu minha fonte por e-mail, dia desses." (What Really Happened in Beijing: Putin, Obama, Xi And The Back Story The Media Won't Tell You, Patrick L. Smith, Salon)


A gangue de Obama conseguiu persuadir nossos bons companheiros sauditas a inundar o mercado de petróleo e a jogar abaixo os preços para pôr a economia russa em queda livre. Ao mesmo tempo, os EUA intensificaram suas sanções, econômicas, fizeram de tudo para sabotar o projeto do gasoduto Ramo Sul da Gazprom [orig. Gazprom's South Stream pipeline] (que contornaria a Ucrânia, para entregar gás natural à Europa, por via pelo sul) e subornam o parlamento ucraniano para que corte 49% dos direitos de leasing e facilidades para armazenamento asseguradas a empresas privadas estrangeiras.

Que tal? Que lhes parece? Assim os EUA lançaram guerra econômica total contra a Rússia - guerra sobre a qual não se lê sequer uma palavra nos veículos da imprensa-empresa ocidental. Alguém se surpreendeu?

Washington está decidida a bloquear qualquer avanço na integração Rússia-União Europeia, para levar ao colapso a economia russa e pôr o capital externo no controle de toda a distribuição regional de energia. É o tal 'pivô'. O pessoal do big money decidiu que os EUA têm de pivotear-se para a Ásia para sobreviver como grande player no próximo século. Todos os ataques que Washington tem feito contra Moscou são decorrência dessa 'estratégia' de doidos.

Mas o pessoa na União Europeia não ficará zangado quando não encontrar a energia de que precisam (aos preços que desejam) para tocar seus negócios e aquecer suas residências?

Washington acha que não. Washington entende que seus aliados no Oriente Médio podem facilmente suprir as necessidades de energia da União Europeia, sem dificuldade alguma. Vejam o que diz o analista F. William Engdahl:


"...emergem detalhes de um novo acordo secreto e estúpido, entre EUA e sauditas e o chamado Estado Islâmico. Envolve o controle de petróleo e gás em toda a região, para enfraquecer Rússia e Irã, com os sauditas afogando o mercado mundial com petróleo barato. (...)

Dia 11 de setembro, o secretário de Estado Kerry dos EUA reuniu-se com o rei saudita Abdullah em seu palácio no Mar Vermelho. O rei convocou para a reunião o ex-chefe da inteligência saudita, príncipe Bandar. E ali acertaram um negócio pelo qual o sauditas apoiariam os ataques aéreos sírios contra o ISIS, sob a condição de que Washington apoiaria os sauditas no golpe para derrubar Assad, firme aliado da Rússia e também, de facto, do Irã, e obstáculo aos planos sauditas e dos EAU para controlarem o emergente novo mercado de gás natural da União Europeia e destruírem o lucrativo comércio da Rússia com a União Europeia. Matéria no Wall Street Journal observava que "foram meses de trabalho por trás das coxias entre líderes árabes e dos EUA - os quais concordaram sobre a necessidade de trabalharem juntos contra o Estado Islâmico, mas não sobre como ou quando.

O processo deu aos sauditas condições de alavancagem para arrancar dos EUA novo compromisso de que treinarão rebeldes para lutar contra o presidente Assad, cuja derrubada do poder ainda é tema de alta prioridade para os sauditas" (The Secret Stupid Saudi-US Deal on Syria, F. William Engdahl, BFP)


Por tudo isso, as guerras na Ucrânia e na Síria não são, de modo algum, conflitos separados. As duas guerras são parte da mesma guerra global por recursos que os EUA perseguem sem parar ao longo da última década e meia. Os EUA têm planos de cortar o fluxo do gás russo e substituí-lo por gás do Qatar, que fluirá pela Síria e para o mercado da União Europeia, depois que Assad ser derrubado.

O que acontece é o seguinte: os problemas sírios começaram imediatamente depois de a Síria anunciar que passaria a integrar um "gasoduto islâmico", que transferiria gás natural do campo de gás Pars Sul no Irã, pelo Iraque e Síria, eventualmente conectando também a Grécia e o lucrativo mercado da União Europeia. Segundo Dmitri Minin:


"Um gasoduto do Irã, que seria altamente lucrativo para a Síria. A Europa também se beneficiaria, mas evidentemente alguém no ocidente não gostou da ideia. Os aliados fornecedores de gás ocidentais no Golfo Persa também não ficaram felizes, nem, tampouco, a Turquia, principal transportadora de gás, que ficaria fora do jogo" (The Geopolitics of Gas and the Syrian Crisis: Syrian "Opposition" Armed to Thwart Construction of Iran-Iraq-Syria Gas Pipeline, Dmitri Minin, Strategic Culture).


Dois meses depois de Assad ter assinado esse acordo com Iraque e Irã, eclodiu o movimento 'democrático' na Síria. Coincidência, não é mesmo? Engraçada é a altíssima frequência com que ocorrem essas coisas, quando governos eleitos pelo mundo não marcham conforme o tambor de Washington.


Mais um pouco, do mesmo Dmitri Minin:


"Qatar está fazendo tudo que pode para impedir a construção do gasoduto, inclusive armando grupos da oposição na Síria, muitos dos quais vêm da Arábia Saudita, Paquistão e Líbia." 

O jornal em árabe Al-Akhbar cita informação segundo a qual há um plano aprovado pelo governo dos EUA para criar um novo gasoduto para transporte de gás do Qatar para a Europa, envolvendo Turquia e Israel.

Esse novo gasoduto deve começar no Qatar, atravessar território saudita e entrar em território da Jordânia, contornando assim o Iraque xiita, e chegar à Síria. Perto de Homs, o gasoduto deve-se dividir em três braços: para Latakia, Trípoli, no norte do Líbano e Turquia. Em Homs, onde também há massivas reservas de hidrocarbonos, é o principal entroncamento do projeto; e não é surpresa (...) que aí se travem os combates mais ferozes. Ali se disputa o destino da Síria. 

As partes do território sírio onde operam destacamentos de rebeldes com apoio de EUA, Qatar e Turquia, isso é, o norte, Homs e os arredores de Damasco, coincidem com o traçado que o gasoduto deve seguir até a Turquia e Trípoli, no Líbano. Se se comparam os mapas (i) das hostilidades armadas e (ii) do traçado do gasoduto do Qatar, vê-se claramente a conexão entre as atividades armadas e o desejo de controlar esses territórios sírios. Os aliados do Qatar tentam alcançar três objetivos: quebrar o monopólio do gás russo na Europa; livrar a Turquia da dependência do gás iraniano; e dar a Israel a chance de exportar seu gás para a Europa, por terra, por custo menor."


E que tal lhe parece mais essa coincidência?! "Os combates mais ferozes (na Síria) acontecem" onde "também há massivas reservas de hidrocarbonos" e ao longo do traçado planejado para o gasoduto.

É o mesmo que dizer que o conflito na Síria nada, de fato, tem a ver com terrorismo. O único assunto ali é gás natural, competição entre gasodutos e acesso aos mercados na União Europeia. A questão ali é dinheiro e poder. Toda a conversa sobre o tal "Estado Islâmico"/ISIL é cortina de fumaça para esconder o que realmente se passa ali: guerra global por recursos, como sempre, os povos dão o sangue, e 'eles' ficam com o petróleo e o gás.

Mas como os EUA beneficiam-se disso tudo, afinal, se os lucros do gás vão para o Qatar e para os países de trânsito, não para os EUA?

Sim, é verdade. Mas o gás será denominado em dólares, o que fará aumentar a demanda por dólares norte-americanos, e perpetuará o sistema de reciclagem que cria um vasto mercado para dívidas em dólares, o que ajuda a manter ações e papeis dos EUA suspensos em altitudes vertiginosas. E é disso que se trata: preservar a supremacia do dólar, obrigando as nações a manter reservas excessivas em dólares norte-americanos para pagar transações de energia e atender às respectivas dívidas denominadas em dólares.

Enquanto Washington conseguir controlar a oferta de energia mundial e forçar o mundo a comerciar em dólares, pode gastar muito além do que de fato produz e ninguém lhe pedirá satisfações. É como ter um cartão de crédito que você nunca tem de quitar.

Esse é nicho que o Tio Sam defenderá com todas as forças, bombas atômicas inclusive. ******

 Guerra da Ucrânia foi movida pelo eixo gás-dólar 2/12/2014, Mike Whitney, Counterpunch
http://www.counterpunch.org/2014/12/01/defending-dollar-imperialism/#.VH4gB-ZBI7Y.email

 


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