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Nuvens cinzentas sobre Pequim

21.04.2008
 
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Nuvens cinzentas sobre Pequim

Por Luiz Machado

“Mens sana in corpore sano.”
Juvenal


Em novembro do ano passado estive presente à palestra O Ano do Galo, proferida pelo francês Guy Sorman, por ocasião do lançamento do livro com o mesmo título. Realizada na FAAP, a palestra despertou grande interesse prévio e provocou, quando de seu encerramento, o aparecimento de umas tantas caras amarradas, em função do tom crítico com que o palestrante referiu-se à China, país no qual permaneceu por tempo considerável.

Na oportunidade, Guy Sorman chamou a atenção para o fato de que o expressivo crescimento econômico da China não era acompanhado por nenhum movimento no sentido de afrouxar o autoritarismo predominante na seara política.

Como muitos dos presentes à palestra estavam encantados com o elevado crescimento econômico e a crescente participação chinesa no comércio mundial, não foi difícil perceber alguns olhares desconfiados ao final do evento. Essa sensação não era apenas de alunos, mas também de muitos professores e executivos ali presentes.

No final de janeiro, o mesmo Guy Sorman teve um artigo de sua autoria publicado pelo Diário do Comércio. Intitulado Os jogos da repressão, chamava a atenção para o risco de termos, nas Olimpíadas de Pequim, uma reprodução do que já ocorrera em outras edições da competição, como se vê a seguir:

A Olimpíada de Pequim em agosto será um torneio político. Desde a sua reinvenção por Pierre de Coubertin, os jogos olímpicos sempre têm sido politizados. Os primeiros ocorreram em 1896 em Atenas para constranger os turcos que ainda ocupavam o Norte da Grécia. A Olimpíada de Berlim, em 1936, celebrou o triunfo da ideologia nazista. Os Jogos de Seul, em 1988, abriram as portas da democratização da Coréia. Pequim vai se parecer com Seul ou com Berlim? Será a apoteose de um regime autoritário ou o início de seu fim? Muitos observadores otimistas, geralmente moderados pela relação próxima com o regime comunista, apostam numa transição leve do despotismo para uma sociedade chinesa aberta. Mas fatos recentes não confirmam essa interpretação positiva da estratégia do Partido Comunista.

As recentes cenas de violência verificadas no Tibet e os ainda mais recentes episódios envolvendo a viagem da tocha olímpica, com sucessivas manifestações de protesto contra a repressão chinesa às ações pela independência do Tibet vieram apenas confirmar as expectativas de Guy Sorman, tornando mais carregadas as nuvens que cobrem os céus – já bastante poluídos, diga-se de passagem – da capital chinesa, a apenas quatro meses do início das competições.

Ao que tudo indica, os membros do Comitê Olímpico Internacional, também empolgados com o desempenho econômico da China e cegos pela perspectiva de um grande êxito comercial e financeiro, fizeram a escolha da sede dos Jogos de 2008 sem pensar nas possíveis repercussões negativas que tal escolha poderia provocar, esquecendo que qualquer evento com a dimensão de uma Olimpíada, acaba sendo alvo de grandes manifestações de massa, como têm acontecido recorrentemente em reuniões de entidades multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC) ou o World Economic Forum.

Para aqueles que estão direta ou indiretamente envolvidos com o esporte, a situação é extremamente preocupante, em função do clima negativo criado por essa sucessão de manifestações.

Os debates e as discussões a respeito do assunto já extrapolaram a seara esportiva, chegando ao plano político em muitos países e, até mesmo, em organismos multilaterais, como o Parlamento Europeu, que, na semana passada, pediu formalmente aos chefes de governo que não compareçam à cerimônia de abertura se, até lá, a China não iniciar negociações com o Dalai Lama sobre a situação do Tibet.

No mundo globalizado, que tem na fantástica expansão dos meios de comunicação uma de suas características mais marcantes, o impacto econômico das Olimpíadas é extraordinário. Cada nova edição dos Jogos Olímpicos se constitui num evento muito especial, aguardado com enorme ansiedade de quatro em quatro anos. Atletas, treinadores, patrocinadores e a própria mídia programam suas atividades com grande antecedência, num processo de preparação que envolve muito esforço e muito dinheiro. Torcedores mais fanáticos, por sua vez, acompanham atentamente todos esses preparativos, na expectativa de duas semanas recheadas de competições de alto nível, que põem frente a frente os maiores esportistas do planeta.

Por enquanto, as especulações têm se limitado a retaliações diplomáticas e, apenas remotamente, consideram a possibilidade de repetição dos boicotes verificados nas Olimpíadas da década de 80, quando houve acentuado esvaziamento das competições em Moscou (1980), Los Angeles (1984) e Seul (1988).

A simples hipótese dessa possibilidade, porém, já é suficiente para deixar assustados os verdadeiros amantes do esporte, que ficam extremamente frustrados ante a perspectiva de perderem a rara oportunidade de assistir aos incríveis duelos dos grandes nomes do esporte mundial. Aliás, a imagem de diversas modalidades esportivas já vem sofrendo profundos arranhões nos últimos tempos, graças às recorrentes notícias do uso cada vez mais disseminado de doping por consagrados campeões.

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