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A Cuba que eu vi

21.02.2008
 
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A Cuba que eu vi

Há tempos o arquipélago de Cuba deixou de ser apenas mais uma ilha na geopolítica mundial. Tudo o que se diz sobre a ilha parece ter um tom polêmico, parece ter entrelinhas, parece exaltar os nervos à flor da pele: a favor ou contra.

Palco de uma revolução histórica, que rompeu com os laços que faziam da ilha quase uma extensão dos Estados Unidos e inteiramente subordinada aos interesses estadunidenses, Cuba é hoje uma república socialista.

Os críticos do atual governo cubano o qualificam de ditadura; seus partidários o consideram uma democracia popular.

Logo na chegada ao Aeroporto Internacional José Martí, começo a ter certeza de que realmente essa não é apenas mais uma ilha no Caribe. Fui a Cuba quando ainda era governada por Fidel, com um grupo de intercambio da Associação de Amizade Brasil/Cuba do Ceará – Casa José Martí. Passamos quinze dias participando de palestras e reuniões com associações e partidos de Cuba. Na saída do aeroporto um autdoor chama atenção, anunciando: “Esta noite, milhares de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana.”.

Com o fim da União Soviética, em 1991, Cuba obrigou-se a abrir as portas para o turismo, na forma de grandes hotéis, resorts e uma série de comodidades apenas para estrangeiros.

A queda da URSS representou para Cuba a perda de seu principal aliado estratégico. O governo cubano viu-se na árdua tarefa de adaptar-se às leis internacionais de livre-mercado e ao mesmo tempo tentar preservar o programa político do país.

Cuba viu-se numa crise sem precedentes: falta de alimentos, combustível, energia e medicamentos. Em 1990, Fidel Castro declarou o Período especial em tempos de paz, termo que designava o sacrifício massivo que se aproximava. Isso implicava para a população reduzir drasticamente seu consumo, como se o país se encontrasse em estado de guerra.

O brasileiro José Alves morou em Cuba durante esse período e foi voluntariamente tradutor do Granma Internacional para o Brasil. Em entrevista concedida a nossa equipe ele recorda: “Vi muita gente criando coelho e porco em suas casas porque a situação estava realmente difícil. Mesmo assim, continuava assegurado a cada família a libreta – uma cota familiar para 15 dias.”

Segundo José Alves, para entender Cuba é necessário perceber as limitações e as peculiaridades desse país. E destaca os meios de comunicação, que lá é voltado para outros valores. “É muito fácil dizer que há liberdade em outros países. Mas você pode trocar os canais de notícias da televisão colocando em CNN, FOX, ou outro qualquer que as notícias são exatamente as mesmas.” Destaca.

Na época de período especial o bloqueio americano é agressivo. Em 12 de março de 1996, o Presidente dos Estados Unidos William J. Clinton assinou e pôs em vigor a chamada lei Helms-Burton.

A lei impede que empresas e cidadãos de outros países, que mantenham negócios com Cuba operem nos Estados Unidos ou vendam para o seu mercado. Segundo a Embaixada de Cuba no Brasil: “O imperialismo norte-americano afronta o direito internacional, pretendendo que uma lei interna seja cumprida por cidadãos e empresas de outras nações. A Lei Helms-Burton viola flagrantemente as leis e os direitos humanos do povo cubano.”

Como única solução para a entrada de capitais, o governo viu-se obrigado a abrir a economia, o que se deu principalmente através da criação de joint-ventures com empresas estrangeiras e do desenvolvimento do turismo.

Até hoje o turismo serve como uma das alternativas ao bloqueio econômico de mais quarenta anos por parte dos Estados Unidos. O país enfrenta desde a revolução o bloqueio econômico, social e financeiro imposto pelos EUA.

Pisando em solo cubano, a sensação é de que a contradição permanece. No que diz respeito aos cubanos; as opiniões dividem-se também em dois extremos que igualmente exaltam os nervos. Contra ou a favor.

Encontro muitas pessoas apaixonadas pelo atual sistema e ardorosos defensores da Revolução. Neste grupo estão principalmente os que viveram a realidade de antes da Revolução. Entre os mais jovens, muitos criticam o sistema sob a alegação de ausência de liberdades individuais e a incapacidade de prover bens de consumo.

Alfredo Rodriguez, um cubano de seus vinte e poucos anos me diz em tom de revolta: “Está vendo esta camisa? É nova, coloquei para ir ao aniversário de minha prima. Tive que trabalhar um ano para que pudesse comprar uma camisa nova. Isso é um absurdo, de que vale eu ter acesso aos estudos para viver assim?”. Perguntei-me se por acaso Alfredo sabia da realidade da maioria dos latino-americanos.

Exemplos como esse de Alfredo colocam o futuro dos cubanos em xeque. A juventude começa a questionar se faz sentido passar tantos anos na universidade para depois receber um salário baixo.

“Enquanto a burguesia pode dar-se ao luxo de gastar muito dinheiro com coisas banais milhares de seres humanos morrem de fome. A própria ONU divulga que a cada três segundo uma criança morre de fome. No Brasil milhares de seres humanos vivem em favelas cujas condições de vida são as mais desumanas possíveis; não há saneamento básico, escolas e tampouco serviço de saúde.” relata Antonio Ibiapino, um dos integrantes do intercâmbio em Cuba e diretor de eventos da Associação de Amizade Brasil/Cuba do ceará – Casa José Martí.

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