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Rússia, China, Irã: sincronia

20.04.2015
 
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O mito pré-fabricado de uma "bomba iraniana" impalpável jamais foi, ao longo de décadas, o problema real entre EUA e Irã; o problema aí sempre foi como submeter - ou "isolar" - uma nação poderosa e independente que se recusou a curvar-se ao mando excepcionalista.

Mas nem agora, quando a "reabilitação" do Irã - pelo menos para alguns excepcionalistas e seus criados - pode estar iminente, dependendo só de um acordo nuclear a ser sacramentado em junho, nem agora as várias facções em Washington conseguem agir coordenadamente.

O Pentágono só faz admitir que o sonho molhado perene de neoconservadores e da empresa-mídia continua sobre a mesa: a opção militar.

O Congresso dos EUA não poupa armas nem golpes para tentar fazer gorar o acordo. A Comissão de Relações Exteriores do Senado aprovou por unanimidade um projeto de lei que pode dar ao Congresso o direito de intervir em qualquer coisa relacionada ao fim das sanções.

O ministro de Relações Exteriores do Irã Mohammad Javad Zarif enfrenta batalha ainda mais feroz, agora que a "lista de temas a serem discutidos publicamente" [orig. "fact sheet"] que o governo Obama insistiu que teria de ser distribuída, para promover o acordo em Washington... tumultua completamente a aceitação do acordo no Irã. Para piorar, a tal "lista de temas a serem discutidos publicamente" de Obama não ajudou em nada, a promover o acordo em Washington.

E agora os suspeitos de sempre - do Departamento de Estado ao Congresso e olobby de Israel - também já estão completamente enlouquecidos por causa de uma narrativa alucinada circulante, segundo a qual "Putin está vendendo mísseis aos aiatolás".

Got "S", will sell [Tenho "S", vou vender"*]

O que o presidente Vladimir Putin da Rússia acaba de fazer é, simplesmente, voltar aos negócios, como sempre: já antes de as sanções serem levantadas, Putin assinou um decreto que põe fim à autoproibição, que Moscou impusera a ela mesma, e que impedia a entrega a Teerã do sistema terra-ar S-300, de mísseis antimísseis, depois de um contrato de $800 milhões assinado em 2010 não poder ser cumprido, por causa de obsessiva pressão dos EUA. Teerã espera receber o sistema S-300 até o final do ano.

A linha oficial de Moscou sempre foi que o embargo de armas contra o Irã teria de ser levantado tão logo se chegasse a um acordo nuclear final. O governo Obama insiste em que as sanções sejam removidas gradualmente. Teerã, do Supremo Líder Aiatolá Khamenei para baixo, não arreda pé da ideia de que as sanções têm de ter fim "no dia do acordo", palavras do próprio Aiatolá Khamenei.

Mas o Supremo Líder acrescentou uma nota conciliatória, comentando que "se o outro lado evitar ambiguidades nas conversações [nucleares], será experiência interessante mostrar que é possível negociar com eles sobre outras questões".Ainda é um "se" de proporções galácticas.

Entrementes, e em sincronia, Anatoly Isaykin, diretor-geral da maior empresa russa exportadora de armas, a Rosoborobexport, confirmou que a China acaba de comprar, da Rússia, sistemas de mísseis de defesa antimísseis tipo S-400. Pequim é a primeira, numa longa lista de espera, de compradores estrangeiros - porque a indústria russa de defesa é obrigada a garantir prioridade, na entrega dos S-400s, ao Ministério da Defesa da Rússia.

Cada S-400 é capaz de lançar simultaneamente até 72 mísseis contra 36 alvos, e blinda o território contra ataques aéreos, mísseis estratégicos, cruzadores, táticos e que operem mísseis balísticos táticos, e contra mísseis balísticos de médio alcance. O S-400 já é operacional desde 2007, substituindo os sistemas S-300 agora vendidos ao Irã.

A questão crucial é que os S-300s tornarão as defesas aéreas do Irã virtualmente invioláveis, contra virtualmente qualquer coisa que o Pentágono use contra elas, exceto os bombardeiros de 5ª geração de tecnologia stealth ['invisíveis']. E os dois sistemas - o S-300 e o S-400 - nem são o estado-da-arte na Rússia. Estado-da-arte será o sistema S-500, sobre o qual já escrevi, capaz de blindar definitivamente o território russo - e qualquer outro! - contra qualquer coisa que o Pentágono use.

Estrategicamente em sincronia 

A venda simultânea dos sistemas S-300s e S-400s ao Irã e à China é mais uma mostra muito clara da parceria estratégica que reúne as três nações da Eurásia que ativamente contestam a hegemonia da hiperpotência. Não há dúvida de que estão em sincronia.

Paralelamente, discretamente, Moscou já começou, na prática, um negócio de troca de petróleo por produtos, de $20 bilhões, com Teerã. Trocará grãos, equipamentos e materiais para construção, por 500 mil barris do cru iraniano por dia. Segundo o vice-ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov, "o atual regime de sanções não proíbe esse tipo de negócio."

Ryabkov só fez reafirmar o óbvio: "Para dançar o tango, tem de haver dois. Estamos prontos para fornecer nossos serviços e tenho certeza de que serão muito vantajosos, na comparação com outros países (...) Jamais abandonamos o Irã,  em situação difícil..." 

Teerã respondeu em sincronia, pelo presidente da Comissão de Política Exterior e Segurança Nacional da Assembleia Consultiva Islâmica do Irã, Alaeddin Boroujerdi; o Irã está pronto a expandir a cooperação com a Rússia em todas as esferas no mais alto nível. E completou, importante: "essa é também a opinião de nosso Supremo Líder religioso, o Aiatolá Ali Khamenei, sobre o desenvolvimento das relações com a Rússia."

Os suspeitos de sempre, como sempre, têm-se agarrado a qualquer argumento que "prove" que a cooperação Rússia-Irã dará em nada. Por exemplo, que o Irã "reabilitado" destruirá a indústria russa de energia, por causa do "sério impacto"sobre o mercado de petróleo, do excesso de oferta do Irã e da concorrência com a exportadora russa Gazprom.

Ryabkov foi direto ao ponto em questão: "Acho que o lado iraniano ainda não está preparado para fornecer gás natural de seus grandes campos, rapidamente e em grandes quantidades, à Europa. Para isso é preciso infraestrutura difícil de construir."

Essa atualização da infraestrutura é cara e exigirá anos; pode acontecer, mas com a ajuda - mais uma vez, de russos e chineses. A Rússia estará de volta ao setor de energia iraniano, com toda a força, pela Gazprom Neft, braço do petróleo russo, e a Lukoil teve de suspender vários projetos por causa das sanções. E a Rosatom, por sua vez, ainda assinará outros contratos na usina nuclear de Bushehr.

A União Europeia - e especialmente os EUA - está apostando na "reabilitação" do Irã, como numa bonança econômica/política; a primeira vantagem real seria Teerã tornar-se fornecedora de mais outro difícil gambito no Oleogasodutostão, a saber o gasoduto Trans-Anatolian (TAP), que talvez esteja, ou talvez não esteja, pronto em 2018. O gasoduto TAP levará gás até a Europa cruzando a Turquia, mas ainda não há certeza sobre quanto gás os fornecedores potenciais - Azerbaijão ou Irã - poderão disponibilizar.

O gasoduto TAP em operação, não significa que as exportações da Gazprom para a União Europeia tenham de ser diminuídas. De fato, o que funcionários russos e iranianos vêm discutindo já há algum tempo é o quão lucrativo pode vir a ser para os dois países exportar para a União Europeia. Além do mais, a Rússia ainda tem, para jogar, mais uma carta chave no Oleogasodutostão - o Ramo Turco [orig.Turkish Stream], que canalizará gás russo para Turquia e Grécia.

E, sim, a Gazprom apronta-se para ser fornecedora chave, ao mesmo tempo, de dois mercados essenciais. Eis o que disse ao canal Rossiya-24, o presidente da Gazprom, Alexei Miller: "O recurso base da Sibéria Ocidental é recurso usado para exportar gás para a Europa. Em outras palavras, nesse momento estamos no momento perfeito, quando começará verdadeira concorrência, pelos nossos recursos entre dois megamercados: o mercado asiático e o mercado europeu."

Negócios rápidos-SWIFT 

Pequim, enquanto isso, está também na ofensiva. Como grande fornecedor de energia - de petróleo e de gás -, o Irã é questão de segurança nacional para a China. Assim sendo, mesmo com sanções sobre sanções, o governo dos EUA sempre por forçado a renovar autorizações e mais autorizações para a China, com Pequim sempre importando energia à vontade, do Irã.

O Irã é nó absolutamente chave da(s) Nova(s) Rota(s) da Seda comandada pelos chineses - seja como parte da rota por terra, seja como parte da Rota Marítima da Seda, que tocará o porto de Chabahar. E a parceria China-Irã não se expande só em laços mais estreitos na energia e no comércio/trocas: ela também inclui avançada tecnologia de defesa chinesa, e a contribuição dos chineses no programa de mísseis balísticos do Irã.

A China criou um sistema paralelo ao da já existente Sociedade para Telecomunicações Financeiras Interbancárias Globais [ing. SWIFT], para pagar pela energia que compra do Irã; depois do acordo nuclear, Teerã terá livre acesso àqueles fundos, em yuan. Executivos iranianos da energia já estiveram em Pequim para discutir os investimentos chineses na indústria iraniana de energia. As chinesas Sinopec e CNPC serão importantes para desenvolver projetos nos campos de gás de Pars Sul - o maior do planeta - e nos campos-gigantes de Yadavaran e Azadegan Norte, de petróleo.

Para o Irã, tudo isso acontecerá paralelamente, enquanto as gigantes europeias de energia investem no desenvolvimento e na tecnologia de gás natural liquefeito [ing.liquefied natural gás (LNG).

Investindo em várias frentes, a China também contribuirá para finalmente ajudar a completar o muito complicado oleogasoduto Irã-Paquistão (IP), que no futuro poderá incluir até uma extensão até Xinjiang.

Xi faz Teerã

A cobertura desse imenso bolo de energia é o quanto ambas, Rússia e China estão profundamente dedicadas a integrar o Irã em sua visão eurasiana. O Irã pode finalmente ser admitido como membro pleno da Organização de Cooperação de Xangai [orig. Shanghai Cooperation Organization (SCO)], já na próxima assembleia de verão, na Rússia. Implica ampla e crescente parceria política/comercial/de segurança reunindo Rússia, China, Irã e a maioria dos '-stões' da Ásia Central.

O Irã já é membro fundador do Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII) [orig. Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB)]; significa financiamento para muitos projetos relacionados à(s) Nova(s) Rota(s) da Seda que certamente beneficiarão a economia iraniana. Os fundos que o BAII proverá com certeza se fundirão com empréstimos e outras contribuições para o desenvolvimento da infraestrutura relacionadas ao Fundo Rota da Seda, criado pelos chineses.

E por fim, mas não menos importante, a parceria estratégica China-Irã será discutida detalhadamente durante a visita que o presidente Xi Jinping da China fará a Teerã, no próximo mês.

É fácil recordar o quanto o Irã foi menosprezado, tratado como "isolado" pela camarilha excepcionalista há bem poucos meses. A verdade é que o Irã jamais esteve isolado; todo o tempo trabalhou empenhada, incansavelmente, construindo blocos para a integração da Eurásia.

Empresas europeias, é claro, estão ansiosíssimas para deslanchar uma avalanche de investimentos no mercado iraniano pós-sanções, e a maioria das gigantes de energia sonham com reduzir a dependência da UE à Gazprom. Mas enfrentarão concorrência formidável, porque já há muito tempo Moscou e Pequim identificaram de que lado soprava ao vento: a favor da inevitável (re)emergência do Irã como potência eurasiana crucialmente decisiva. *****

 

* A tradução é tentativa. Impossível saber com certeza, mas a expressão parece ser um reaproveitamento metafórico de "Have Gun. Will Travel" [aproximadamente, talvez, "Tenho arma. Vou viajar"], título de um seriado norte-americano (1957-1963), do gênero western [NTs].

 

16/4/2015, Pepe Escobar, RT
http://rt.com/op-edge/250241-russia-china-iran-nuclear-deal/

 


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