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De cabeça para baixo

18.12.2015
 
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Segundo especialistas, acredita-se que com 200 milhões de dólares (menos de vinte vezes a quantia que se gasta ao ano com sorvetes apenas na Europa, ou ainda o que as forças armadas dos três países mais ricos gastam em apenas três horas de "disparos" mundo afora) poderiam "exterminar" (para usar um termo bem comum aos países bélicos) doenças como difteria, coqueluche, tétano, sarampo e poliomielite que, juntas, matam quatro milhões de crianças por ano no mundo. Repito: são quatro milhões de crianças que morrem todos os anos.

Marcus Eduardo de Oliveira

Isso é apenas uma pequena amostra do quadro de desigualdade socioeconômica que, em escala mundial, é cada vez mais assustadora, afinal, um em cada dois seres humanos vive com menos de dois dólares diários; um em cada três não têm acesso à eletricidade; um em cada cinco não têm acesso à água potável; um em cada seis é analfabeto.

Num mundo ocupado por 7,2 bilhões de pessoas, um adulto em cada sete e uma criança em cada três sofre de desnutrição crônica. A cada cinco segundos uma criança morre de fome; embora haja terras férteis para o cultivo dos alimentos, pois, apenas como exemplo, vale apontar que o plantio destinado para produzir alimentos para o gado nos Estados Unidos da América é de 64% da quantidade de terras próprias, enquanto que a produção de frutas e alimentos ocupa apenas 2%.

No desenrolar desses fatos e na somatória dos números apresentados, resulta então que uma pessoa a cada sete padece de fome.

Olhando bem de perto esses dados, chega-se à conclusão de que o mundo, definitivamente, está de cabeça para baixo - The world turned upside down, como diz a letra da música do Coldplay, e como também foi intitulado um relatório sobre as desigualdades sociais e econômicas publicado em 2012 pela prestigiosa revista inglesa The Economist.

Essas e tantas outras desigualdades socioeconômicas permeiam com muita facilidade todos os setores da economia. Enquanto o consumo de alimentos cresce apenas para uma pequena parte da população mundial, a outra se vê alijada do banquete gastronômico.

Estamos apontando que vinte por cento da população mundial, ou uma em cada cinco pessoas (residente nos países mais pobres e atrasados), está excluída da participação no consumo de alimentos.

Simplesmente, 450 milhões de pessoas no mundo têm uma expectativa de vida inferior a 60 anos; em parte, decorrente da má alimentação, além de patologias adquiridas pela carência de alimentos e nutrientes.

Os números que corroboram a desigualdade socioeconômica mundial continuam assombrando: 35% da população mundial (2,52 bilhões de habitantes) não têm energia e proteínas suficientes em sua dieta. Há dois bilhões de pessoas anêmicas, incluindo 5,5 milhões que habitam os países do capitalismo avançado.

No entanto, enquanto as sequelas da fome continuam matando considerável parte da população, do outro lado dessa história a opulência dá um colorido todo especial a alguns "privilegiados", enfatizando assim um quadro de completa desigualdade.

Essa desigualdade ganha contornos de aberração quando nos damos conta que 80% da riqueza mundial (de toda a produção econômica) está nas mãos de apenas 15% (1,08 bilhão de pessoas) de "privilegiados". Essa é a "turminha" dos muito afortunados que se esbaldam no consumo suntuoso.

Exemplos disso: o consumo anual de cigarros apenas na Europa, em termos de cifras, atinge a marca de 70 bilhões de dólares. Os gastos com diversas bebidas alcoólicas, também na Europa, superam os 110 bilhões de dólares ao ano. Somente nos EUA, o gasto anual em cosméticos chega a 9 bilhões de dólares.

De acordo com o International Institute for Strategic Studies, a quantia de dinheiro que os países ricos - especialmente os EUA - destinam aos gastos militares durante onze dias daria para alimentar e curar todas as crianças famintas e enfermas do planeta, incluindo as quatro milhões de crianças que citamos no início deste artigo que falecerão antes mesmo de completar 5 anos de idade.

Repetindo: o que se gasta com armamento bélico em apenas 11 dias seria suficiente para eliminar a fome - e, consequentemente a morte - de inocentes crianças pelo mundo afora. Por fim, fica a pergunta: até quando suportaremos um mundo de cabeça para baixo (world turned upside down) do jeito que está?

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental.

prof.marcuseduardo@bol.com.br

 


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