Pravda.ru

Mundo

NSA/CIA: A disputa é entre empresas contratadas e o pessoal sob regime da administração direta

18.06.2019
 
NSA/CIA: A disputa é entre empresas contratadas e o pessoal sob regime da administração direta. 31195.jpeg

NSA/CIA: A disputa é entre empresas contratadas e o pessoal sob regime da administração direta

 

por Fernando Soares Campos (*)

 

O mundo indigna-se e discute a questão da invasão de privacidade e a sofisticação dos métodos empregados, assim como os vazamentos que revelam o que todo mundo sabe há muito tempo. Enquanto isso, nos EUA trava-se outro debate, talvez o que mais interessa ao povo estadunidense e do qual pode aflorar melhor entendimento sobre o desenrolar dos fatos. Trata-se da análise e contestações sobre a influência e os custos das empresas privadas nos sistemas de segurança nacional, as quais ficam com cerca de 70% dos US$ 52 bilhões do orçamento nacional destinado aos serviços secretos, deixando apenas 30% para cobrir as despesas dos efetivos da administração direta do Estado. A exagerada desproporção torna-se mais evidente quando se observa que o setor privado fornece apenas cerca de 30% do pessoal (os subcontratados, Snowden era um deles), enquanto 70% trabalham sob regime de administração direta, e estes são os que ficam com a fatia menor, os 30% das  bilionárias verbas.

Oficiais superiores das Forças Armadas dos EUA e civis que ocuparam cargos no primeiro escalão do governo daquele país são hoje diretores executivos de grandes empresas privadas de segurança, formam e realizam fortíssimos lobbies que influenciam congressistas, ministros e governantes, também exercem poder junto a empresas midiáticas (presstitutes, como hoje são camadas), de tal forma que são atendidos em quase tudo que propõem: criação de novas agências e legislações específicas (em alguns casos, inconstitucionais), determinam público alvo e inimigos em potencial, trabalham para a iniciativa privada (bancos, petroleiras, e corporações com interesses diversos) fazendo tráfico de influencia e usando todo o poder que detêm no âmbito do Estado, inclusive informações de inteligência ultrassecreta: "A marinha dos Estados Unidos escolheu, no mês passado [junho/2013], a mesma companhia como parte de um consórcio para trabalhar em outro projeto multimilionário para uma "nova geração de operações de inteligência, vigilância e combate". A Booz Allen obteve esses contratos de várias formas. Além de seus vínculos com o DNI (Diretor de Inteligência Nacional), se orgulha do fato de metade de seus 25 mil empregados estarem autorizados a acessar informação de inteligência ultrassecreta. Um terço dos 1,4 milhão de pessoas com essa autorização trabalha no setor privado."

 

Edward Snowden sempre foi contra investimentos públicos no Sistema de Segurança Social e ardoroso defensor do Sistema de Segurança Nacional. Portanto, se fosse um deputado ou senador brasileiro, votaria o novo "projeto" de desmonte da Previdência Pública e instituição da Previdência Privada, que ficaria por conta dos bancos.

Em janeiro de 2009, no site Ars Technica, usando o antigo nome de usuário, "TheTrueHOOHA", Snowden criticou The New York Times e as suas fontes anônimas por expor uma operação secreta da administração Bush para sabotar as capacidades nucleares iranianas. Tais violações, para ele irritantes, haviam ocorrido "uma e outra e outra vez", reclamou Snowden. The Times, disse ele, era "como Wikileaks" e merecia ir à falência; fontes que vazaram "merda classificada" para o Times deveriam tomar "um tiro nas bolas".

Quando um interlocutor em linha sugeriu que poderia ser "ético " denunciar "intriga do governo", Snowden respondeu enfaticamente: "Violar segurança nacional? Não".

Quanto à Segurança Social, ele disse coisas assim: "Quase todo mundo era antes de 1900 trabalhadores por conta própria".

Em outra troca de sala de bate-papo, Snowden debateu os problemas da Segurança Social fazendo afirmações como estas:

"Economizar dinheiro? Corta essa merda de segurança social."

"Yeah! Foda-se as pessoas de idade!"

"segurança social é uma treta"

"vamos atirar idosos na rua"

"cheiram engraçado"

"De alguma forma, a nossa sociedade conseguiu existir centenas de anos sem segurança social"

"Malditos retardados"

(Informação coletadas em "Será que você sentiria de forma diferente sobre Snowden, Greenwald e Assange se você soubesse o que eles realmente pensam?", em inglês)

 

O que podemos deduzir de tudo isso?

 

Que as celeumas criadas em torno da invasão de privacidade dos cidadãos comuns e dos vazamentos de Wikileaks, Intercept ou seja lá de onde vier, tornaram-se matérias mainstream, corrente em voga para desviar a atenção sobre a verdadeira questão: a desavença entre os que ficam de fora ou comem pelas beiras e os que abocanham as maiores fatias do bolo: os bilhões de dólares destinados ao Sistema de Segurança.

Na Sociedade de Serviços e Estado Policial em que se tornaram os Estados Unidos da América, a terceirização e subcontratação dos postos de trabalho, tanto nos setores privados quanto no setor público, geraram a criação de milhares de micro, pequenas, médias e grandes empresas fornecedoras de mão de obra e serviços. Num ambiente desses, os tubarões se fartam, e os peixes pequenos ou lhes servem de alimento ou sobrevivem em orgia simbiótica.

Colocar Snowden, Assange e Greenwald no mesmo saco de todos os acusados de vazamento de "ciberdocumentos" e denúncias contra o governo e empresas dos Estados Unidos e seus parceiros mais graduados é fazer o jogo do "todos são iguais" ou que "todos têm a mesma intenção".

Por que a CIA e a NSA não divulgam (deixam vazar) informações detalhadas sobre as atuações de Snowden no período em que colaborou para eles? Certamente isso o desqualificaria da condição de herói. Mas, nesse caso, sobraria para ele a desconfiança geral de que fora obrigado (chantageado) a fazer os tais "vazamentos", a fim de beneficiar algum grupo em detrimento de outro. Sejam grupos dentro da própria esfera privada (empresa contra empresa) ou entre o setor privado e os quadros da administração direta do Estado.

A única atuação de Snowden como "espião em campo" ocorreu no período como "olheiro" numa universidade. Em vista do silêncio em torno de suas atividades, não sabemos das consequências desse seu "estágio" entre os estudantes: se alguém foi preso, interrogado, perseguido, torturado, desaparecido ou executado. Quaisquer que tenham sido suas tarefas, elas são inconfessáveis. Mesmo assim, virou herói "sem passado".

 

E existe quem defenda essa condição:

 

"Snowden, um administrador de sistemas do Centro de Operações de Ameaças da NSA no Havaí, trabalhou para a CIA e para a companhia de serviços de informática Dell antes de se unir à Booz Allen. Mas o papel obscuro que pode ter desempenhado fica branco [!] ao lado do que outros tiveram. (Pratap Chatterjee, da IPS/Envolverdeem "Como a segurança dos EUA ficou a cargo de uma empresa privada." Fórum).

 

Isso rende muito mais o que pensar do que simplesmente discutir a questão da megaescala de invasão de privacidade ou os vazamentos sobre aquilo que todos sabemos, mas que são divulgados como novidades. 

 

Jeremy Hammond, o jovem que mexeu no dinheiro dos home e está em cana

  

Por que não existe um movimento popular internacional pela libertação de Jeremy Hammond?

  

Hammond foi condenado em 15 de novembro de 2013 ao máximo de dez anos de prisão, seguido de três anos de liberdade supervisionada. Ele está atualmente cumprindo sua sentença na FCI Manchester em Manchester, Kentucky. A instituição correcional federal, Manchester (FCI Manchester) é uma prisão federal dos Estados Unidos de segurança média para presos do sexo masculino em Kentucky. É operado pelo Federal Bureau of Prisons, uma divisão do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. (Wikipédia)

  

Declaração de Jeremy Hammond ao Tribunal de New York em 16/11/2013

 

Minha iniciação política aconteceu quando George W. Bush roubou uma eleição presidencial em 2000 e, na sequência tirou vantagem das ondas de racismo e patriotismo depois do 11/9, para lançar guerras imperialistas, não provocadas, contra o Iraque e o Afeganistão. Saí às ruas para protestar, acreditando, ingenuamente, que nossas vozes seriam ouvidas em Washington e que conseguiríamos parar a guerra. Em vez disso, fomos rotulados como traidores, espancados e presos.

Fui preso por numerosos atos de desobediência civil nas ruas de Chicago, mas só em 2005 comecei a usar minhas habilidades com computadores para quebrar a lei, em ação de protesto político. Fui preso pelo FBI por invadir os computadores de um grupo de direita, pró-guerra, chamado "Protest Warrior" - organização que vendia camisetas racistas em sua página Internet e agredia grupos antiguerra. Fui acusado, nos termos da Lei de Fraudes e Abusos por Computadores, e o "dano visado" no meu caso foi arbitrariamente calculado, multiplicando por US$500, os 5.000 cartões de crédito com os quais operava a base de dados de "Protest Warrior", o que resultou num total de $2,5 milhões.

Minha sentença foi calculada a partir desse "dano", embora nenhum cartão de crédito tenha sido usado ou algum dado tenha sido divulgado - por mim ou por qualquer outra pessoa. Fui condenado a dois anos de cadeia.

Na prisão, vi com meus próprios olhos a feia realidade de como o sistema de justiça criminal destrói a vida de milhões de pessoas mantidas em prisões fechadas. A experiência reforçou minha oposição contra as formas repressivas de poder e a favor de agir na defesa daquilo em que cada um acredite.

Quando fui solto, estava ansioso para retomar meu envolvimento nas lutas por mudanças sociais. Não queria voltar à prisão. Então, me dediquei ao trabalho de organizar comunidades, trabalho de superfície. Mas, com o tempo, frustrei-me com as limitações das manifestações pacíficas, que me parecem reformistas e inefetivas. O governo Obama continuou as guerras no Iraque e no Afeganistão, aumentou o uso de drones e não fechou a prisão da Baía de Guantánamo.

Por essa época, eu acompanhava o trabalho de grupos como WikiLeaks e Anonymous. Era inspirador e estimulante ver as ideias do hack-ativismo afinal dando resultados. Fiquei particularmente motivado pela ação heroica de Chelsea Manning [condenada a 35 anos de prisão, após sete anos na prisão, a ícone transexual Chelsea Manning, ex-analista militar dos EUA, foi solta por um indulto dado pelo ex-presidente Barack Obama], que revelou ao mundo as atrocidades cometidas pelos militares norte-americanos no Iraque e no Afeganistão. Ela assumiu enorme risco pessoal para vazar essa informação - porque acredita que a opinião pública tem o direito de saber, e por esperar que suas revelações seriam passo positivo para pôr fim àqueles abusos. Fica-se com o coração apertado, só de ouvir contar sobre o tratamento cruel que ela recebeu numa prisão militar.

Refleti profunda e longamente sobre escolher outra vez esse caminho. Tive de perguntar a mim mesmo: se Chelsea Manning mergulhou no pesadelo abismal da prisão, porque lutava pela verdade, como poderia eu, de boa consciência, fazer menos que ela, já que eu era capaz? Concluí que o melhor modo de demonstrar solidariedade era dar continuidade ao trabalho de expor fatos e enfrentar a corrupção.

Aproximei-me dos Anonymous, porque acredito em ação direta, descentralizada e anônima. Naquele momento, os Anonymous estavam envolvidos em operações de apoio aos levantes da Primavera Árabe, contra a censura, e em defesa de WikiLeaks. Eu tinha muito a oferecer como contribuição, incluindo competências técnicas, e podia articular melhor ideias e objetivos. Foram tempos entusiasmantes - o nascimento de um movimento digital de resistência, quando os conceitos e as competências do hack-ativismo estavam ganhando forma.

Interessava-me especialmente o trabalho dos hackers de LulzSec, que estavam quebrando alguns alvos importantes e iam-se tornando cada vez mais políticos. Por essa época, falei pela primeira vez com Sabu, que era muito aberto sobre as ações de hacking que ele dizia ter cometido, e estimulava os hackers a unir-se para atacar sistemas de computadores de grandes unidades do governo e de megaempresas, sob a bandeira do movimento "Anti Security". Mas logo no início do meu envolvimento, os outros hackers de Lulzsec foram presos; restei eu, para quebrar sistemas e escrever press releases.

Adiante, eu descobriria que Sabu foi o primeiro a ser preso, e que, durante todo o tempo em que eu falava com ele, ele já era informante do FBI.

Os Anonymous também se envolveram nos estágios iniciais de Occupy Wall Street. Participei regularmente nas ruas, como militante de Occupy Chicago, e entusiasmei-me ao ver um movimento mundial de massa contra as injustiças do capitalismo e do racismo. Ao final de uns poucos meses, as "Occupations" chegaram ao fim, destruídas por ataques da Polícia e prisões em massa de manifestantes, arrancados de suas próprias praças públicas.

A repressão contra os Anonymous e o Movimento Occupy deu o tom da ação dos Antisec nos meses seguintes - a maior parte de nossas ações de hacking contra alvos da Polícia foram retaliações contra as prisões de nossos camaradas.

Eu, pessoalmente, tomei por alvo os sistemas policiais, por causa do racismo e da desigualdade com que se aplica a lei criminal. Tomei por alvo as indústrias e distribuidores de equipamentos militares e policiais, que lucram com a fabricação e a venda das armas que os EUA usam para impor seus interesses políticos e econômicos por todo o mundo, e para reprimir cidadãos norte-americanos aqui mesmo. Tomei por alvo empresas privadas de segurança da informação, porque trabalham secretamente para proteger interesses do governo e de empresas privadas, à custa de atacarem direitos civis individuais, minando e desacreditando ativistas, jornalistas e outros que trabalham para conhecer e divulgar a verdade; e porque vivem de disseminar a desinformação.

Nunca tinha ouvido falar de Stratfor, até que Sabu falou sobre eles. Sabu estava encorajando pessoas a invadir sistemas, e ajudando a facilitar e dar organização estratégica aos ataques. Chegou a fornecer-me pontos vulneráveis dos alvos, passados a ele por outros hackers. Por isso, foi grande surpresa quando soube que, durante todo o tempo, Sabu trabalhava com o FBI.

 

Por que o mundo exige a libertação de Julian Assange, mas não existe um movimento popular internacional pela libertação de Jeremy Hammond?

 

Sobre Jeremy Hammond, leia mais em:

redecastorphoto

Não deixem a paranoia e o medoafastá-los do ativismo. Trabalhem anônimos!

11/11/2013, [*] Chris HedgesTruthdig

"The Revolutionaries in Our Midst"

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

 

(*) Fernando Soares Campos é escritor, autor de "Fronteiras da Realidade ─ contos para meditar e rir... ou chorar", Chiado Editora, Portugal, 2018.   

 


Fotos popular