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Uma nova forma universal de engodo político

14.11.2016
 
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Várias alterações políticas decorreram de quatro processos recentes: a derrocada do "socialismo real", que se mostrou uma ditadura sangrenta e corrupta; a incorporação pela ditadura chinesa à sua vida econômica de aspectos centrais do capitalismo; o processo de globalização marcado por novos modelos de integração econômica entre as nações e, por fim, os avanços tecnológicos os quais chegaram a afetar a oferta de emprego para as pessoas menos escolarizadas. 

Iraci del Nero da Costa *

Embora essas mudanças não tenham se dado, estritamente, no mesmo período de tempo, contribuíram como fatores primordiais - associados a outros elementos de menor porte e igualmente de ordem econômica, política e ideológica - para a emergência de uma nova forma de relacionamento político-ideológico entre vários quadros dirigentes de alguns partidos políticos ou simples aspirantes à vida política e a grande massa da população de distintas áreas e nações, massa populacional esta pertencente aos mais diversos níveis de rendimentos econômicos e ocupando posições culturais e de formação acadêmica e profissional de quase todo universo socioeconômico coberto por tais categorias. Ademais, tal forma abrange políticos que esposam as mais diversas posturas ditas ideológicas: da extrema direita aos que se entendem de esquerda. Os únicos agentes a escapar de tal espectro são as pessoas efetivamente de esquerda, vale dizer, as que postulam a superação do capitalismo enquanto modo de produção e não fazem nenhuma concessão a qualquer tipo de engodo, deslize político ou corrupção, assumam estes desvios qualquer molde possível. Na verdade, tais pessoas esperam, para um futuro ainda não divisável, a referida superação do aludido modo de produção. (Sobre este tema leia-se: Motta, J. & Costa, I. Reflexões sobre o futuro da sociabilidade humana. Disponível em: http://usp-br.academia.edu/IraciCosta).

A esta nova forma de entrosamento pode-se chamar de "neopopulismo engodador", embora não tenha ela nenhum parentesco com o velho populismo do século passado. Não obstante o termo "neopopulismo engodador" não me pareça o mais adequado confesso não ter encontrado uma denominação mais original para o relacionamento político que tomo como novo e com respeito ao qual pretendo apresentar, neste texto, uma descrição ainda que não inteiramente acabada e pormenorizada. Na verdade, o mero termo "neopopulismo", adotado por vários analistas, me parece fraco demais para caracterizar as situações com as quais nos defrontamos nos últimos lustros.  Impõe-se, pois, a caracterização deste novel relacionamento político que também pode ser apodado de "engodo eleitoral". Vejamos alguns exemplos e atentemos para a variedade de maneiras de sujeição que estão atreladas ao assim chamado neopopulismo engodador ou engodo eleitoral.

Na Venezuela, com o "chavismo" - o qual prometeu distribuição de benefícios e luta contra o capitalismo - promoveu-se a perpetuação no poder dos governantes com base na sua recondução mediante a admissão de continuadas reeleições. Aqui ficam patentes algumas características do modo de agir dos engodadores: "estrito respeito à democracia" baseado em reeleições continuadas dos governantes; apoio às camadas econômica e socialmente desprivilegiadas e "combate" ao capitalismo. Correlatamente, são perseguidos, e por vezes presos, os políticos que se colocam na oposição; igualmente atingidos são os meios de comunicação nos quais são denunciados os erros, desmandos, corrupção das maiores e práticas antidemocráticas desencadeadas pelos governantes os quais aliaram-se fortemente às forças armadas. A prática de reeleições continuadas não ficou limitada à Venezuela e assumiu uma forma paralela qual seja a de eleição de apaniguados os quais, depois de ocuparem o cargo de chefia da nação, dão vez à volta do "chefe" quando das novas eleições, para este caso preparava-se o ex-presidente petista brasileiro.

No Brasil, depois da eleição do candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) para a presidência da República adotou-se a ampliação do apoio às famílias de baixa renda chegando-se a um verdadeiro Coronelismo Governamental (sobre "Coronelismo Governamental" veja-se:  Costa, I. O episódio do "mensalão" como marco histórico. Disponível em: http://port.pravda.ru/cplp/brasil/04-08-2012/33462-mensalao_brasil-0/). Além disso, o chefe da Nação aliou-se rapidamente aos desmoralizados dirigentes e partidos políticos da velha oligarquia e buscou o apoio de membros do poder legislativo e de partidos dispostos a venderem-se; a corrupção alargou-se imensamente, as empresas estatais foram dilapidadas e aparelhou-se o Estado com base na nomeação alargada de correligionários da presidência; a compra de votos de deputados e senadores definiu-se como prática generalizada visando-se a continuidade no poder do PT. Tais práticas aliadas aos erros da presidente da República eleita por ter sido indicada por Luiz Inácio da Silva, como sabido, levaram altos dirigentes do PT para a prisão e ao impeachment da sucessora do primeiro petista que chegou à chefia da nação. Tanto no Brasil como na Venezuela a economia veio abaixo e milhões de trabalhadores viram-se altamente prejudicados em face do elevadíssimo desemprego.

Já nos Estados Unidos o neopopulismo engodador acaba de assumir um perfil aparentemente inovador. O presidente recém-eleito baseou sua campanha na promessa de fazer o país voltar a ser a grande potência hegemônica do meado do século passado. Igualmente presente esteve o combate aos imigrantes ilegais e à fuga das empresas para áreas nas quais o custo da mão de obra mostra-se mais baixo. Enfim, há um comprometimento com a recuperação de empregos da camada populacional relativamente mais despossuída a qual beneficiar-se-á da existência de um menor número de imigrantes e da aplicação de elevados impostos aos bens importados de nações como a China que passaram a concorrer com a indústria norte-americana. Como se observa, propõe-se aos menos preparados a retomada ou a garantia de empregos e aos mais cultos a volta da sonhada nação dominadora do planeta.

É preciso ter claro que o apoio emprestado aos menos privilegiados, embora necessário, é pequeno quando comparado com as benesses oferecidas aos donos do capital e visa, basicamente, a conquistar o apoio eleitoral das camadas de despossuídos ou dos que estão a enfrentar o desemprego, daí o seu caráter de um mero engodo político incapaz de resolver efetivamente as necessidades econômicas e sociais dos segmentos menos abonados.

Este apoio eleitoral define-se, assim, como garantidor da continuidade no poder dos neopopulistas engodadores os quais estão sempre prontos a estabelecer acordos com as tradicionais elites sociais economicamente dominantes fato este que empresta ao neopopulismo engodador uma posição claramente de direita a qual na maioria dos casos contraria o discurso progressista e/ou pretensamente de esquerda proferido por parte dos líderes neopopulistas engodadores, alguns dos quais, não têm pejo de dizer-se abertamente de direita.

Tal perfil de direita é que torna possível congregarmos num todo neopopulista engodador as posturas dos chavistas, dos petistas e aquelas postuladas por um político como Donald Trump.

Como visto, nos casos da Venezuela e do Brasil os políticos que se diziam esquerdistas autênticos nada mais eram do que grupos de ladravazes os quais, ocupado o poder central, passaram a dilapidar suas nações de maneira semelhante à utilizada pelas velhas oligarquias direitistas. Resta-nos, agora, esperar as resoluções a serem empreendidas pelo novo presidente dos EUA cujo raio de ação vê-se muito limitado pela existência de uma vida do Congresso norte-americano relativamente restritiva e de um poder Judiciário igualmente ativo.

 

* Professor Universitário aposentado.

 


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