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Assalto a um Santuário

11.05.2008
 
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Assalto a um Santuário

Alberto Souza

Século XVI. Chegavam os espanhóis ao mundo inca. Logo, procuravam apoderar-se da região. Buscavam ouro e prata. Queriam enriquecer-se ou ficar mais ricos. Mas, isso não se faz apenas com armas. Além da morte física imposta aos indígenas, que resistiam à ofensiva dos invasores, era usada também a ideologia como instrumento de dominação, praticando-se o genocídio cultural. Os espanhóis impunham, sem trégua, a religião cristã, a fé e os cânones de seu papa protetor e aliado, e passaram a declarar como demoníacos os deuses e mitos da sociedade indígena, como Inti, Tumi, Puma, Pacha Mama e outros, destruindo, assim, seus símbolos, seus templos e santuários, entendendo que, com isso, seu domínio sobre o mundo andino seria irreversível. Todas as huacas, todos os locais de rituais dos nativos, que já viviam em grande parte de um continente que passou a ser chamado América, efetivamente, foram excomungados por tais “civilizadores”, descobridores do que já tinha sido descoberto há milhares de anos por tribos que se adentraram nesta região através do Estreito de Bering.

O genocídio ideológico obedecia a uma lógica: desprovido de seus mitos, de suas crenças, de seus cultos, o habitante andino perderia sua capacidade de resistência ao dominador; acabaria por aceitar o que Deus teria determinado como dádiva a uma “gente superior”, cheia de razão divina; acabaria por se converter ao cristianismo, saindo de seu “diabolismo”, salvo por uma “divindade superior” às suas; acabaria por ser obediente a uma “civilização superior” à sua. E a conseqüência dessa guerra pela morte de almas não poderia ser outra: de um lado, o índio ou grupo de índios que se cristianizava e tendia a aceitar pacificamente a imposição dos enviados da Coroa da Espanha, dos espanhóis que, de uma forma ou de outra, o exploravam até à exaustão; de outro, o índio ou grupo de índios que resistia culturalmente, não abrindo mão de seus deuses, seus ritos, em geral, e lutava contra os que o escravizavam.

Passaram-se os anos e com eles o aumento da tristeza de incas e de todas as nações que integravam o espaço em que uma magistral arquitetura e o trabalho de milhões de seres humanos tornaram realidade templos e santuários que despertariam posteriormente o interesse de muita gente – principalmente de pesquisadores – de conhecer a capacidade criadora de uma civilização que o invasor europeu sequer considerava como parte da humanidade. Uma gente triste, porque se via, não somente sob a ameaça da morte corporal, mas também da morte espiritual. Era a tristeza de quem sentia na própria pele a lógica de quem domina e explora, que parte do princípio de que ver no dominado e explorado um igual, de sangue e almas idênticos aos seus, é um atentado ao próprio sentido da subordinação.

Vão-se os tempos. O colonizador é derrotado. Surge uma oligarquia nativa, crioula. Como seus ancestrais – do indígena, dos descendentes de Manco Cápac, Manco Inka, Atahualpa, dos collas, dos aimarás e outros – só lhe interessa o sangue, sangue vertido em moeda, em capital. Com o passar dos tempos, os novos exploradores mudariam de idéia em relação aos explorados? Reconheceriam que o povo, que heroicamente lutou pela independência de seu país, deseja ser livre, vivendo num mundo mais justo e humano? Não, muito pelo contrário, continuaram mantendo sua coerência de classe de sempre, discriminando o explorado, negro ou indígena, camponês ou operário, mulher e criança, vilipendiando-os física e culturalmente, considerando-se os novos “superiores”, achando-se herdeiros de “civilizadores”. E o sangue que era derramado ontem contra o dominador espanhol hoje é derramado em lutas contra seus herdeiros.

Os tempos mudam. Cresce o interesse pelo conhecimento do “maldito” de ontem. Agora, com a ajuda da ciência, com bons propósitos ou não, muitos pesquisadores avançam com seus estudos arqueológicos em várias partes do mundo. No caso do nosso continente, mormente do mundo andino, há tempo, não se cansam de sair à busca de criações de santuários e templos, antes “demonizados” pela chamada “civilização cristã’, regida pelo capitalismo mercantil da Europa espanhola. E as maravilhas da considerada “gente inferior” vem à tona. E agora, o que fazer com esses verdadeiros tesouros, produtos das possibilidades humanas de uma civilização (e civilizações) vista pelos enriquecidos de ontem apenas como imitação de humanos, sem alma de gente? Ora, existe nos Dez Mandamentos uma recomendação de Moisés considerada santa, a mais cristã das recomendações: “Não roubarás!”

Assim sendo, apoderar-se dos colossos da era inca, do produto da criação e trabalho de comunidades indígenas não seria um desrespeito ao “não roubarás!”?

Não tenhamos dúvidas: apropriar-se do que foi produzido por outrem é roubo. Contudo, uma saída para evitar esse grande pecado foi apresentada: O que perdura da criação inca e de outros indígenas fica com o Estado. Persistiu um problema, todavia: sequer se pediu uma simples opinião aos autores de tais maravilhas, como se eles não existissem, não fossem gente cujos milhões de antepassados construíram Ollantaytambo, Tihuanaco, Maccho Piccho e outras coisas extraordinárias, que têm merecido a admiração de pessoas de todo o Planeta. E o princípio da herança que juristas, sacerdotes da propriedade privada capitalista, têm defendido com unhas e dentes nos dias de hoje? Não deveriam, portanto, as nacionalidades indígenas andinas herdar as obras de seus ancestrais, dando destino ao que historicamente lhes pertence?

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