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EUA e China: Inimigos fraternais

07.11.2012
 
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Iraci del Nero da Costa *

O endividamento crescente dos EUA nos anos que precederam a crise ora em curso -com a geração de déficits de grande monta-, além de expressar o papel dominante e arriscado de sua enorme economia e sua correlata capacidade de emissão de "valores" puramente nominais (moeda de reserva), revelou-se funcional com o rápido crescimento econômico de muitas das economias asiáticas -sobretudo a da China-, as quais absorveram o papel moeda emitido pelos EUA e conheceram altíssimas taxas de crescimento industrial calcado, em larga medida, nas exportações dirigidas aos EUA.

Tal mecanismo garantiu, ademais, massivos investimentos do "mundo ocidental" naquelas economias e possibilitou que os governos orientais mantivessem taxas de juros das mais baixas.

Evidentemente, tal situação não poderia perdurar indefinidamente. Para evitar grandes perdas, quando se esgarçou o equilíbrio instável prevalecente naquele período, alguns dos governos asiáticos, entre os quais coube papel de primeira linha à China, procuraram encontrar formas para ativarem e mobilizarem seus mercados internos de sorte a fazê-los absorverem a atividade da capacidade produtiva empregada na produção de bens anteriormente vendidos, basicamente, para o exterior.

Como se vê, a "cordialidade" entre chineses e norte-americanos assenta-se em um formidável arranjo econômico benéfico para ambos os lados. Os norte-americanos parecem ser orientados pelo oportunismo, já os chineses estariam visando a construção e sedimentação de um caminho que os faça chegar a níveis superiores de emprego, renda, produção e domínio de sofisticadas técnicas produtivas.

Num futuro que não parece estar muito distante, conheceremos novos capítulos deste jogo pelo poder político e econômico. Jogo esse no qual veem-se envolvidos, entre outros, a rebelde Taiwan assim como o Japão, cujas atitudes belicosas -assumidas em um passado que já parecia dormitar na história-, são relembradas com respeito a uma China ávida de conquistar espaço político e econômico tanto no extremo oriente como no cenário maior da economia mundial globalizada. Como se observa, o Japão, o qual não soube assumir, no plano político, o papel de líder econômico oriental que desfrutou por alguns lustros do século passado, vê-se hoje desafiado e deslocado por uma China que não pretende passar despercebida, mas procura, ao contrário, a maior visibilidade possível ocupando espaços econômicos e políticos cada vez mais amplos sem nenhum prurido quanto ao papel de relevância que busca consciente e tenazmente.

Em face do exposto não parece descabida a conclusão de que, qualquer que seja o resultado das eleições presidenciais nos EUA bem como das mudanças a se darem brevemente na cúpula dirigente do governo chinês, as duas nações manterão entre si uma postura de cordialidade ditada por seus interesses econômicos.

 

* Iraci del Nero da Costa é professor livre-docente aposentado da USP.

 


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