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Carta de Simón Trinidad, extraditado aos EUA

06.11.2006
 
Carta de Simón Trinidad, extraditado aos EUA

“Se esse é o preço que há que pagar por nossos ideais e os princípios que nos impulsionam à luta e que dão razão de ser de nossa existência, que se vai fazer, bem-vinda seja a prisão”

Da audiência devo ressaltar que agora os fiscais dizem ter várias testemunhas que assegurarão no julgamento que eu estive reunido com os três estadunidenses em 2003. Tanta mentira, tanta adulteração da verdade, tanto falso testemunho, só indica que as autoridades gringas num julgamento justo não teriam como me condenar e que, detrás de tudo, só há um ânimo retaliativo contra a Organização.

Algo novidadeiro na audiência foi a proposta dos fiscais ao juiz para que este determine manter em segredo a identidade dos doze jurados com o argumento de que a organização atentaria contra sua vida e segurança. Com isto, o que buscam os fiscais é ter, desde um começo, um jurado prevenido contra mim, aproveitando-se do estado de prevenção que criaram no povo estadunidense contra tudo o que o Governo chame terrorismo.

A propósito de audiências, a juíza de Valledupar segue empenhada em adiantar o julgamento no caso de Consuelo Araújo..., apesar da carta que lhe dirigi fazendo-lhe ver que se me foi negado o direito de falar com meu advogado e de conhecer um expediente, os dois elementos básicos para poder exercer minha defesa.

Assim que, tanto nos julgamento de lá como nos daqui, o que se me aplica é a “suprema lei”, a famosa, a respeitada, a intocável “lei da trapaça”, segundo o poema de Neruda. Desde o 8 de fevereiro do ano passado, a pouco mais de um mês de minha extradição, o Departamento de Estado determinou manter-me sob o sistema de “medidas administrativas especiais” (SAM, em inglês), e por isso é que numa área de segurança máxima deste cárcere, encerrado na cela as 24 horas, sem direito a chamar por telefone, a enviar ou receber correspondência, sem visitas e só posso reunir-me com os advogados norte-americanos.

E, nos últimos 6 meses, estas condições se endureceram ao ponto de que, em começos do ano, me passaram para uma cela mais acuada, onde não vejo a ninguém diferente dos policiais que me vigiam de dia e de noite; de dois meses para cá, quando vêm meus advogados, já os policiais não me liberam a mão direita das algemas e cadeias pelo que fico impedido de tomar notas ou para manipular os documentos que analisamos, ou que entrego ou recebo de meus advogados. E as idas à Corte agora estão mais asseguradas até o extremo que a caravana de patrulhas agora vai escoltada pelo helicóptero tanto nas manhãs como nas tardes, quando retorno à penitenciária.

Outro exemplo: A 12 de maio fui ao médico por um incômodo num ouvido e este determinou remeter-me a um hospital para que me fizessem um exame mais rigoroso. Pois, ao meio-dia, vieram os marschalls para levar-me a um centro médico distante meia hora do cárcere (não foi esta a primeira vez que o fazem) e montaram estes tipos um operativo tão grande que as pessoas nas ruas e o pessoal médico do hospital se viam surpreendidos e atemorizados pelas medidas espetaculares, a quantidade de agentes que participaram – mais de 30 -, o tipo de armamento e equipe técnica que utilizaram, as guardas que colocaram, o sobrevôo durante todo o tempo do helicóptero sobre o hospital, o isolamento do edifício, o bloqueio da entrada principal com as radiopatrulhas e o bloqueio de circulação de veículos.

Tanta imbecilidade e alvoroço por um pouco de algodão que introduzi em meu ouvido numa qualquer dessas noites em que o tapei para atenuar o barulho de presos e policiais.

Pois bem, no Estado de Colorado, em todo o centro do país, há uma prisão de supermáxima segurança onde estão os condenados mais perigosos, e, nessa mesma prisão, numas circunstâncias especiais e afastadas, estão os condenados pelos delitos mais graves como traição à pátria e terrorismo.

Estes presos permanecem em celas individuais, sem nenhum contato visual ou físico com outros presos, recebem uma hora de sol diária, comem os alimentos na cela, são vigiados as 24 horas por meio de circuitos fechados de televisão e filmadas todas suas atividades de maneira permanente e recebem os serviços religiosos e alguns educativos por meio de um televisor em preto e branco. Quer dizer, estes condenados estão sob as “medidas administrativas especiais” (SAM) e só seus advogados têm contato com este tipo de presos e isso se seu caso está por definir-se numa instância superior de justiça.

Bem, e todo este longo inventário para concluir que, para esse cárcere e nessas condições, irei quando terminem meus dois julgamentos. Porém, já estou preparado psicologicamente para isso. Se esse é o preço que há que pagar por nossos ideais e pelos princípios que nos impulsionam à luta e que dão razão de ser de nossa existência, que se vai fazer, bem-vindo seja o cárcere. Outros farão uso de sua liberdade física para concluir nossos sonhos de um mundo sem exploradores nem explorados, e sem propriedade privada sobre os meios de produção.

Simón Trinidad

 Dignidade dos povos

Carta de Simón Trinidad, extraditado a los EE.UU


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