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Colômbia: Sucumbíos dez anos depois

06.03.2018
 
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Colômbia: Sucumbíos dez anos depois

O comandante das FARC-EP, Raúl Reyes, em abril de 2005. Menos de três anos depois foi bombardeado seu acampamento, desta vez 1700 metros dentro do território equatoriano. Entre os 20 guerrilheiros mortos também morreram quatro mexicanos universitários que chegaram na noite anterior. FOTO: DICK EMANUELSSON.

Resumen Latinoamericano/ 27 de fevereiro 2018

O jornalista sueco Dick Emanuelsson vem cobrindo a Latinoamérica desde 1977. Conheceu a Colômbia em 1980. Desde 1988 tem feito reportagens em território sob controle da guerrilha das Farc. Esteve credenciado como jornalista em Colômbia desde o ano de 2000 e em abril de 2005 esteve uma semana no acampamento do chefe guerrilheiro Raúl Reyes. Aí entrevistou, entre vári@s guerrilheir@s, a combatente Susana Tellez, que sobreviveu ao bombardeio do 1º de março de 2008.

Pelas constantes ameaças de morte durante os anos 2004-2005 o repórter nórdico se viu obrigado a abandonar a Colômbia em dezembro de 2005. Desde esse momento vive e trabalha em Honduras, prova dessa perseguição é que em fevereiro de 2009 a promotoria colombiana fez uma devassa na sede do DAS, a polícia secreta sob ordens de Álvaro Uribe. Os agentes da Promotoria confiscaram o arquivo, no qual se encontrava uma pasta com 476 páginas de informes sobre o seguimento do trabalho e da vida do jornalista sueco em Colômbia.

O repórter sueco durante um giro no sul de Bolívar, centro da Colômbia.

Chegou a Caracas no final do mês de fevereiro de 2008 para cobrir os temas venezuelanos e daí voar ao Equador para participar no Congresso do Movimento Continental Bolivariano. Por diferentes razões de coordenação dos convocadores, não pôde viajar e assim, certamente, também salvou sua vida.

Este é seu depoimento que é um dos capítulos do livro que estreia hoje no México sobre como o presidente Álvaro Uribe e seu ministro de Defesa, Juan Manuel Santos, assassinaram uma vintena de guerrilheiros e quatro mexicanos, vários deles com tiro de misericórdia.

Por Dick Emanuelsson, Resumen Latinoamericano. 27 fevereiro 2018

TEGUCIGALPA / 1º/3/2018 / De Sucumbíos ao acampamento do comandante Raúl Reyes era uma viagem de aproximadamente duas horas pelo Rio San Miguel. Me lembro que o guerrilheiro era todo um capitão, levantando a hélice do motor quando não havia suficiente profundidade e com pau navegando entre as pedras.

Era o mês de abril do ano de 2005. Estava há cinco anos em Colômbia, credenciado pelo ex-diário do Partido Comunista Sueco, convertido em 1990 num semanário. Soa certamente insólito, porém me sentia mais seguro num acampamento guerrilheiro que ter os agentes do DAS-G3 na cola em Bogotá ou Medellín. As chamadas de ameaças de morte tinham começado por telefone no final de 2004. Sentia que o tempo em Colômbia, minha segunda pátria, começava a chegar a seu fim.

Comandante Raúl Reyes. FOTO: DICK E.

Na extensa entrevista que fiz com o comandante Reyes nesses dias e que intitulei de "Uma pequena minoria está impondo a guerra", citando-o, o fornido porém de baixa estatura chefe guerrilheiro resumia assim a guerra de cinco décadas em Colômbia. A oligarquia militarista sob as ordens do Pentágono havia levado o país sul-americano a um conflito social e armado com um saldo gigantesco em vidas humanas e saqueio de seus recursos naturais.

Nesse ano nos encontrávamos no Olho do Furacão, chamado "Plano Patriota", a operação mais dura e forte durante todo o conflito colombiano. O centro desse plano era o território do Bloco Sul das Farc no sul da Colômbia, nos estados de Caquetá, Putumayo e Nariño.

"Pastrana sacrificou os diálogos, frustrou uma vez mais ao povo colombiano de avançar mediante diálogos em direção da paz que todos os povos reclamam com vistas a apoiar ao candidato do paramilitarismo, Álvaro Uribe Vélez", concluiu Reyes, resumindo a ruptura do processo de paz no mês de fevereiro de 2002 e o bombardeio ao "Laboratório de paz", em San Vicente del Caguán.

 

"Uribe era e é um cão de guerra", diziam os sindicalistas de Bogotá. "Com ele, jamais teremos paz".

Reyes acrescentou, rechaçando a decisão do Departamento de Estado de qualificar as Farc como organização terrorista:

"Os primeiros terroristas são eles, o terrorismo de Estado que assassinou a União Patriótica! Que segue assassinando dirigentes sindicais, dirigentes estudantis, que segue impondo o modelo neoliberal em Colômbia. Para isso necessitam da guerra e por isso necessitam de um governo fascista como o de Álvaro Uribe Vélez."

ALGUNS MESES ANTES, no início do mês de janeiro de 2005, havia ingressado ao Bloco Sul das Farc, desde o território equatoriano, Lucero Palmera, acompanhada de sua filha, então só tinha doze anos. O companheiro de vida de Lucero era 'Simón Trinidad'. A Simón, Uribe o havia extraditado para os Estados Unidos apenas quatro meses antes, após chantageá-lo; se colaborava com Uribe e a CIA para dedurar a cúpula das Farc-EP, lhe dariam uma nova identidade nos EUA. A resposta de Simón foi se vestir com a camiseta de Simón Bolívar e levantar o punho em alto contra os representantes do Imperialismo e do Terrorismo de Estado colombiano.

Simón Trinidad, Ricardo Palmera, con sua filha.

 

Lucero, Simón e sua filha, com apenas doze anos de idade, tinham sido detidos na capital equatoriana, Quito, durante uma missão que tinha como tarefa buscar a James Lemoyne, a mão direita de Kofi Annan, secretário-geral da ONU, para encontrar uma saída ao tema dos prisioneiros de guerra. O fantoche dos gringos, o coronel equatoriano e eleito presidente Lucio Gutiérrez, colaborou com a CIA e a inteligência militar colombiana para entregar a Simón e Lucero. Como não havia ordem de captura para Lucero, ela e a filha se moveram rapidamente para o norte do Equador, cruzaram o Rio San Miguel para se unirem com os combatentes do Bloco Sul. Simón Trinidad foi extraditado do Equador para Colômbia onde Uribe o recebeu como um troféu de guerra. 

 

Lucero Palmera em abril 2005.
FOTO: DICK EMANUELSSON

 

Lucero ficou encarregada da emissora "Voz da Resistência" do Bloco Sul e foi internada na selva profunda com um cordão de uns 20 guerrilheiros onde armaram um acampamento especial para a função da rádio. Aí fiz a extensa entrevista com essa impressionante e alegre mulher em abril de 2005 e a citei: "Nem Uribe, nem o imperialismo poderão deter esta organização que todos os dias se fortalece!" [em YouTube]

 

Na emissora "Voz da Resistência do Bloco Sul das FARC-EP".
FOTO: DICK EMANUELSSON.

 

Em setembro de 2010 morreu ao lado de sua filha, que havia chegado, desde Quito, quando a aviação colombiana bombardeou parte do acampamento da Frente 48. Morreram uma trintena de guerrilheiros. Agentes do DAS, operando em território equatoriano, tinham colocado um chip na jaqueta da filha que então tinha 18 anos e o chip era as coordenadas da aviação, que, com a tecnologia de ponta "Made in USA", atiraram sua carga mortal, como tinham feito a 1º de março às 00:30 da noite em 2008.

Era o mesmo duo, Uribe&Santos, "os Cães de Guerra", como diziam os sindicalistas, que eram os responsáveis por terem assassinado outra vez civis, desta vez uma mulher civil, sabendo inclusive que era civil, já que ela levou o chip em sua roupa. Assim faziam os gringos no Vietnã, os covardes, lançando todo um "tapete" de bombas primeiro para depois enviar as tropas de infantaria para ver se havia sobreviventes.

 

 

O GUERRILHEIRO ARNOBIS, con sua metralhadora Ponto 60.
FOTO: DICK EMANUELSSON.

 

NO BOMBARDEIO NESSA NOITE FATAL de 2008, se encontrava um combatente fornido e forte que levava a metralhadora do acampamento, sempre situado no centro para poder fazer fogo para todos os flancos no caso de serem atacados. Arnóbis era um negro muito humilde, filho de campesinos. Seis primos dele tinham sido assassinados pelo Exército Nacional num massacre no estado de Putumayo. Posava orgulhosamente com sua arma para a minha câmera e de ser guerrilheiro das Farc [Entrevista].

 

"Mirando as razões que ocorrem no país, a pessoa melhor toma esta vida guerrilheira. E é por razões sociais, econômicas, pobreza, miséria, abandono, tudo o que tem a ver com a parte criminal de um sistema egoísta".

Essas foram as palavras e a resposta do guerrilheiro fornido e moreno. Lhe tinha perguntado Por que envolver-se na guerrilha sabendo do perigo que significa? Porém Arnóbis, colocando sua boina camuflada, ria e dizia que ser humano e civil em Colômbia significar correr o risco de ser vítima pelo terrorismo de Estado se alguém realmente quer transformar o país. Por isso estava onde estava.

 

 

ERA UM DE MILHARES DE JOVENS colombianos que tinham ingressado nas fileiras guerrilheiras. Porque bateram em milhares de portas para conseguirem uma vaga na universidade, ou um posto de trabalho em alguma empresa, terem feito filas como milhares de seus compatriotas por dezenas de quadras para solicitarem uma bolsa de estudos ou trabalho no exterior. Porém, em cada parte aos Filhos do Povo são negados o direito humano a um trabalho, à praça de estudo e são objetos, se o conseguem, de uma exploração de escravidão moderna, ao estilo dos empresários neoliberais.

 

Ou por ser familiar de um lutador popular, são assassinados e na guerrilha veem uma porta e um futuro para salvar a vida, sabendo que o Estado e seus paramilitares te buscam. Assim pensou Arnóbis e assim me explicou este guerrilheiro que sabia também, como Lucero, que o guerrilheiro morre geralmente na guerra, jovem ou com os anos. Porém não se preocupava.

 

Durante o processo de paz em Havana, a Delegação de Paz das Farc solicitou aos governos de Colômbia e Equador e à Cruz Vermelha Internacional a repatriação dos restos de Arnóbis e da vintena de guerrilheiros que ficaram nas terras de Sucumbiós, 1700 metros do rio fronteiriço com a Colômbia, lugar onde estava situado o acampamento transitório de Reyes. Também quatro universitários mexicanos, que tinham chegado na noite anterior, morreram no bombardeio. Em seu comunicado a delegação insurgente comunicava:

 

"As FARC-EP solicitaram a intervenção do Comitê Internacional da Cruz Vermelha [CICV] para que colabore no processo de tal repatriação, com seus respectivos exames forenses que permitam a identificação e posterior entrega a seus familiares a fim de que se lhes dê sepultura digna, e pediram que a dita Organização humanitária coadjuve com o esclarecimento do fim último que tiveram os restos do comandante Raúl Reyes, o qual contribuirá enorme e eficientemente para ir abrindo o sendeiro da paz que a Colômbia tanto necessita".

 

 

Uma guerrilheira com os tiros de misericórdia nas costas, o que ilustra que vários dos guerrilheiros e talvez também os mexicanos estavam com vida quando os militares colombianos invadiram. É, ademais, o depoimento das guerrilheiras Diana e Susana que sobreviveram ao bombardeio. Diana conseguiu se esconder dos soldados colombianos.

 

ARNOBIS E SEUS CAMARADAS DERAM sua vida para a Nova Colômbia. Os depoimentos humildes que consegui captar de uma parte da história da Colômbia refletem os sentimentos, pensamentos e as razões pelas quais persiste o conflito social e armado no país sul-americano; longe de serem terroristas, são seres humanos que um dia tomaram uma decisão drástica de ingressarem nas fileiras guerrilheiras. Arnóbis foi um exemplo.

 

A guerrilheira Susana Tellez foi uma das sobreviventes, junto com a guerrilheira Diana e a universitária mexicana Lucia Morett. Em 2005, conversamos e entrevistei a Susana. Na tela do canal Telesul a vi novamente num evento público desde Manágua, Nicarágua, junto com Diana e Lucia. Voltamos a nos ver em 2011 em Manágua e posteriormente em dezembro de 2015; depois que tinham recebido "luz verde" por parte de Iván Márquez, nos permitiram entrevistá-lasem Manágua. Nos contaram como foi a noite e as duas guerrilheiras analisaram durante quase oito anos por que ocorreu o bombardeio?

 

- Havia muitos movimentos de desconhecidos nos arredores do acampamento, diz Diana.

 

- Estamos certas de que tínhamos infiltração de guerrilheiros recém-chegados, acrescenta Susana.

 

 
 

A guerrilheira Susana recebe primeiros socorros. Junto com Diana e a universitária Lucia Morett, também sobrevivente, foi recebida pelo comandante sandinista e presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, poucas semanas depois do bombardeio e outorga-las asilo político na Pátria de Sandino.

 
 

MUITAS VEZES RELEMBREI as sequências do mês de abril de 2005 e a noite de 1º de março de 2008. Estive no aeroporto de Maiquetía nas cercanias de Caracas, esperando minha mala que vinha com o avião de Maracaibo onde tinha coberto o congresso fundacional do partido governante, PSUV. Quando recebí uma chamada de Juan Carlos Tanus, diretor de "Colombianos em Venezuela".

 

"Acabo de receber a notícia de que bombarderam o acampamento de Raúl Reyes".

 

- Está confirmado?, lhe perguntei.

 

"Sim e está confirmado que ele está morto e uns vinte guerrilheiros mais", contou o amigo.

Eram as 15:00 horas desse sábado. A tristeza se me inundava, recordando a cara de Arnóbis, Susana, a jovem enfermeira Marcela, o desajeitado porém disciplinado e mando médio Jairo e a veterana guerrilheira e sobrevivente do genocídio político da União Patriótica, Catherine Miller [que nesse momento estava numa outra missão, nos encontramos com ela em julho de 2012 no Bloco Caribe].

Menos pensei que também eu poderia estar entre os mortos. Resulta que os convocadores ao congresso em Quito estavam organizando passagens muito baratas desde Caracas-Quito. A cada dia intentei falar por telefone e afinal me resignei. Ademais tinha muitos temas a cobrir em Venezuela e deixei assim pra lá.

O que nunca pude imaginar era o fato de que vários dos participantes no congresso do Movimento Bolivariano Continental, MBC, entre eles os cinco jovens mexicanos, viajaram ao norte do Equador e aí, entrando na densa selva equatoriana, chegaram tarde nessa sexta-feira para encontrar a morte na noite. Se me tivessem oferecido ir onde [estava o] comandante Raúl, não teria titubeado. O repórter não pensa duas vezes quando sabe que o tema é "quente".

"O Duo de Cães de Guerra", Uribe&Santos, cometeram crimes de guerra em forma flagrante. Os gringos baixaram a voz e mantiveram um perfil baixo ante o fato da invasão militar colombiana ao território equatoriano. No ano seguinte, o digno presidente equatoriano Rafael Correa expulsou os marines e o comando Sul desde a base de La Manta, dois minutos de voo à fronteira colombo-equatoriana e da guerra dos gringos através do Plano Colômbia e Plano Patriota.

 

Os quatro jovens mexicanos mortos pelo bombaderio e Lucía Morrett [no centro] que sobreviveu. Uma manifestação nas cercanias da embaixada da Colômbia na Cidade do México.

 

Los cuatro jovenes mexicanos muertos por el bombardeo y Lucía Morrett (en centro) que sobrevivió. Una manifestación en las afueras de la embajada de Colombia en Ciudad de México

 

Na direita o veterano nas lutas campesinas do estado de Guerrero, Oscar Guzmán Yaguarete, um dos promotores da solidariedade com os familiares com os pais. Na foto mãe e pai de Juan Castillo e a mãe de Veronica Velásquez. FOTO: MIRIAM EMANUELSSON.

 

DE CERTA FORMA SE ENCERROU o ciclo da fatal e trágica noite quando Miriam e eu chegamos ao México no mês de maio de 2015. Fomos recebidos por vários dos familiares dos quatro jovens mexicanos. Foi um encontro lindo, pleno de sentimentos, sobretudo a visita ao Museu de Direitos Humanos na Cidade do México, onde há um pavilhão especial sobre como o Terrorismo de Estado belicista da oligarquia apagou a vida de quatro universitários mexicanos, cujo desejo era só saber mais da vida e da América Latina, neste caso a Colômbia.

O legendário poeta e revolucionário soviético Vladimir Maiakovski resumia em três frases o conteúdo do fascismo:

"O fascismo é fome, o fascismo é terror, o fascismo é guerra".

Assim se exprtessou o fascismo nessa noite cinza de 1º de março de 2008.

 

Veja o vídeo&reportagem do Museu da Memória Indômita contra o Terrorismo de Estado no México e a entrevista com os pais:

 

Uribe&Santos assassinaram a quatro universitários mexicanos no Equador:

https://youtu.be/VhB0m9vbUQ8?list=PLrKXSXO-RwT3IcRub6nHn6zBI05ZnKhr

 

tradução > Joaquim Lisboa Neto

 


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