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Para Obama, o mundo conta com a "liberação" agressiva dos EUA

04.02.2014
 
Para Obama, o mundo conta com a

Depois de um discurso forrado da arrogância hegemonista através da qual os Estados Unidos deixam a sua marca na história, no fim de 2013, na Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente Barack Obama, agora falando mais diretamente aos seus, proferiu nesta terça-feira (28), mais ou menos na mesma linha, o seu discurso anual sobre o "Estado da União".

Por Moara Crivelente, da Redação do Vermelho

ABC News

O presidente dos EUA, Barack Obama, retoma posição arrogante de afirmação imperialista estadunidense sobre a "libertação" do mundo, em seu discurso sobre o "Estado da União" em 2014.


William A. Galston, escrevendo para a Instituição Brookings acadêmica, conhecida pela promoção de uma política externa "incisiva" para os EUA, disse que a expectativa acerca do discurso de Obama centrava-se na palavra "ação".

Uma das preocupações, afirma o analista político, é a situação econômica e a tendência "populista" de Obama em lidar com a desigualdade social, dada ao empenho relativo em programas sociais na sua política nacional.


Mas o termo "ação" remete também à política externa dos EUA, que não sofreu qualquer mudança positiva - até pelo contrário - desde a gestão desastrosa para os povos do mundo e suas lutas pela libertação durante a presidência de George W. Bush. Obama não fez esforço para mudar o curso das coisas.

Não é à toa que o presidente introduziu o tema internacional de "segurança" e "defesa" com a menção ao Iraque e ao Afeganistão - apesar de ter mencionado a crise internacional no começo da sua fala.

Invasões estadunidenses "garantem a segurança"

"Nesta noite, por causa dos militares e civis extraordinários que arriscam e sacrificam suas vidas para nos manter livres, os Estados Unidos estão mais seguros. Quando assumi o cargo, cerca de 180 mil norte-americanos serviam no Iraque e no Afeganistão. Hoje, todos os nossos soldados estão fora do Iraque. Mais de 60 mil deles já vieram para casa, desde o Afeganistão," disse ele.

"Com as forças afegãs agora na liderança da sua própria segurança, nossas tropas passaram para um papel de apoio. Junto com nossos aliados, completaremos nossa missão até o fim deste ano, e a guerra mais longa da América terá finalmente acabado."

É claro que Obama não admite que o Afeganistão está em frangalhos, que a sua economia está arrasada e a sua população, profundamente traumatizada, imersa na violência após uma invasão estrangeira sobre todas as suas instituições e vivamente presente nas suas vidas.

Não são poucos os relatórios que analisam o aumento da insegurança no país, nestes quase 13 anos de presença militar estadunidense. Mas para Obama, o que importa é que os "americanos" tenham a sensação - alguns diriam, ilusão - de que estão eles "mais seguros". O mesmo vale para o Iraque, que passou por novas ondas de confrontos sectários em 2006, três anos depois da invasão dos EUA - e enquanto suas tropas ainda estavam no país -, e que se vê novamente distendido pela violência e pela instabilidade regional.

Ainda assim, Obama garante - embora o presidente Hamid Karzai não o tenha feito ainda - que um destacamento de soldados norte-americanos continuará no Afeganistão depois da retirada da missão internacional, até o fim do ano:

Depois de 2014, apoiaremos um Afeganistão unificado enquanto ele assume responsabilidades por seu próprio futuro. Se o governo afegão assinar um acordo securitário que nós negociamos, uma pequena força de norte-americanos poderá continuar no Afeganistão, com aliados da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] desempenhando duas missões limitadas: treinar e assistir as forças afegãs e [realizar] operações contraterroristas para perseguir quaisquer resquícios da Al-Qaeda. Porque, enquanto a nossa relação com o Afeganistão vai mudar, uma coisa não vai: nossa determinação de que os terroristas não lancem ataques contra o nosso país.
 
É assim que a presença estadunidense tem minado as negociações do governo afegão com o Talibã, tem mantido o país dependente econômica e militarmente do exterior e impedido o desenvolvimento político, social e econômico para que os afegãos, como disse ele, retoricamente, possam "assumir responsabilidade por seu próprio futuro."

Diplomacia é política de passagem

Em seu discurso, entre os tópicos principais, seguidos pelo Portal Vermelho, também estavam as sanções contra o Irã e as negociações sobre seu programa nuclear, assim como a projeção regional do país persa; o conflito na Síria e, novamente, a incitação à derrubada do presidente Bashar al-Assad; o terrorismo (contra os EUA), esta palavra, ou seus derivados, que aparece quase 10 vezes; o uso dos aviões não-tripulados (drones) e seus "limites prudentes"; a prisão ilegal de Guantânamo; e até sobre a atual crise na Ucrânia, entre outros temas que não mereceram mais do que duas linhas.

Um deles foi o próprioencerramento da prisão em Guantânamo, para o qual Obama só instou seus colegas no Congresso a facilitarem a "transferência" de prisioneiros, para que as mais de 150 pessoas detidas sem julgamento na instalação ilegal sejam enviadas para outros lugares - não necessariamente para seus próprios países. "Porque nós combatemos o terrorismo não apenas através dos [serviços de] inteligência e da ação militar, mas ao mantermo-nos honestos aos nossos ideais constitucionais, como um exemplo para o resto do mundo."

Mas afirmou, ao ressaltar a tentativa de enviar menos "coturnos" pelo mundo, que "mesmo que nós persigamos agressivamente as redes terroristas - através de esforços mais direcionados e da construção de capacidades para os nossos parceiros estrangeiros - a América precisa afastar-se de um pé de guerra permanente".

Teria sido mais coerente o seu discurso se tivesse introduzido aí a frase em que reafirma o apoio que os EUA dão à "oposição" na Síria, apoio que, por muito tempo, traduziu-se no envio de armas e de suporte logístico, mas cuja mudança para uma expressão de assistência mais "política" não pode ser menosprezada. Desta forma, a julgar pelos três anos de guerra devastadora em que a Síria mergulhou, realmente, não é tão necessária a presença militar norte-americana.

Apesar da disposição do governo sírio às negociações com a oposição no país e à destruição já em andamento do seu arsenal químico, Obama afirma claramente que estas medidas só foram possíveis por causa da "disposição" dos EUA à diplomacia, "sustentada pela ameaça de uso da força", ou seja, pelas ameaças intensas que seu governo fez de lançar uma intervenção militar contra a Síria, com o objetivo de derrubar o presidente Bashar al-Assad.

No caso do Irã, Obama reafirma o objetivo da diplomacia e da suspensão das sanções contra o país é impedi-lo de "obter armas nucleares". Apesar de instar seus colegas congressistas a evitarem a aprovação de mais sanções "pelo bem das negociações" com o Irã, ele diz acreditar que elas "podem não ser frutíferas" e, neste caso, não hesitará em apoiar pessoalmente a volta das medidas coercitivas contra o país.

Além disso, o presidente colocou o Irã novamente no patamar do que se chama de "Estados párias", com o seu apoio a "organizações terroristas como o Hezbolá [movimento de resistência islâmica libanês], que ameaçam os nossos aliados", leia-se, Israel. O Hezbolá é um partido político que possui forças armadas para a proteção da fronteira libanesa contra as frequentes violações das tropas israelenses, mas para Obama, as "invasões" e as "violações" são perfeitamente justificáveis, como já se afirmou.

Sobre Israel, o presidente pincelou o assunto das negociações com a Autoridade Palestina, em "conversações difíceis, mas necessárias, para acabar com o conflito lá; para alcançar a dignidade e um Estado independente para os palestinos, assim como uma paz duradoura e a segurança para o Estado de Israel, um Estado judeu que sabe que a América vai sempre estar do seu lado".

Só nas últimas palavras deste trecho, Obama colocou os EUA na posição mais do que evidente, mas nunca afirmada categoricamente: na de parte envolvida no "conflito", e não na de um mediador, como se apresentam. Que "a América vai sempre estar ao lado" de Israel já ficou claro, devido à sistemática negligência estadunidense  em relação às violações e a expansão da ocupação sobre os territórios palestinos, assim como com o rechaço total do governo israelense ao compromisso com os acordos que já chegou a assinar, para não falar do próprio direito internacional.

Além disso, Obama dá nome à principal barreira atualmente colocada pelo governo israelense a qualquer progresso das negociações, cuja rodada atual chega ao fim em abril: o reconhecimento de Israel como "Estado judeu", algo que até inúmeros israelenses já refutaram e já chegaram a ridicularizar como empreitada racista e opressiva - o que acontecerá com os habitantes palestinos deste país? - colocada no topo da agenda pelo atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu.

Depois de tudo, os EUA continuam "libertando"

Em suas considerações finais, e para não causar muito estranhamento, para garantir que os Estados Unidos não pretendem retirar-se do cenário militarista global, Obama, que parece acreditar em uma vocação genuína do seu país para "fazer o bem" e "liberar os povos".

Obama fala da "liderança" exercida "pelos norte-americanos" no mundo, "para forjar maior cooperação, expandir novos mercados e para liberar os povos do temor e das necessidades [de consumo]," incutidas pelo capitalismo enraizado como a verdade absoluta da "liberdade". E continua: "ninguém está melhor posicionado para aproveitar essas oportunidades do que a América."

"Meus compatriotas norte-americanos, nenhum outro país faz o que nós fazemos. Em todas as questões, o mundo se volta para nós, não apenas por causa do tamanho da nossa economia ou pela potência militar, mas por causa dos ideais que defendemos, e os fardos que carregamos para promovê-los. Ninguém sabe disso melhor do que aqueles que servem em uniformes."

Pois é assim que os Estados Unidos devem liderar o mundo em direção à liberdade, através da ameaça militar, das invasões devastadoras e da imposição, parecem acreditar estes governos - e Obama citou figuras proeminentes nesta tendência, como o ex-presidente Ronald Reagan em sua disputa com a União Soviética, com o apoio disseminado a movimentos anticomunistas por todo o mundo e a intensificação da corrida armamentista.


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