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Maior peregrinação que a humanidade conhece está em marcha

02.12.2014
 
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Não é o Hajj muçulmano, nem o Kumbh Mela indu. Conhecida como Arbaeen, é a maior reunião de seres humanos que o mundo conhece. E você provavelmente jamais ouviu falar dela. Não apenas o número de peregrinos excede em várias vezes (vezes cinco!) o número dos que se reúnem em Meca, e é mais significativa, como peregrinação que o Kumbh Mela , que só acontece de três em três anos. Em resumo, a peregrinação de Arbaeen é a maior que o planeta conhece e, anualmente, reúne até 20 milhões de peregrinos. É o equivalente a 60% da população total do Iraque; e aumenta ano após ano.

24/11/2014, Sayed Mahdi al-Modarresi, Huffington Post (Blog)
http://www.huffingtonpost.co.uk/sayed-mahdi-almodarresi/arbaeen-pilgrimage_b_6203756.html
O mais significativo é que a peregrinação do Arbaeen acontece no mais caótico e perigoso cenário geopolítico do mundo. O 'Estado Islâmico', também conhecido como Daesh, definiu os xiitas como seu inimigo de morte. Portanto, nada enfurece mais o grupo terrorista que a visão de milhões de peregrinos xiitas em marcha para apresentar ao mundo o seu impressionante show de fé.

A peregrinação de Arbaeen  tem outro traço específico. É ação religiosa-espiritual dos xiitas, mas sunitas, cristãos, iazidis, zoroastrianos e sabianos também se incorporam à peregrinação como se fossem devotos xiitas. É característica impressionante, dada a natureza sempre exclusiva dos rituais religiosos, e só pode ser interpretada de um modo: as pessoas, independente de cor ou credo, veem o Imã Hussein como símbolo universal, transfronteiras e metarreligioso de liberdade e de compaixão.

A causa pela qual você provavelmente nunca ouviu falar dessa peregrinação gigante, tem a ver com o fato de que a imprensa-empresa ocidental é comandada, hoje, por tabloides sensacionalistas, e toda a 'grande' imprensa só faz 'repercutir' noticiário construído para criar imagem negativa, degradada do Islã.

Se alguns manifestantes anti-imigração circulam em pequenos grupos pelas ruas de Londres, o 'evento' logo chega às manchetes. O mesmo tempo de divulgação merece também qualquer marcha pró-democracia em Hong Kong ou contra-Putin na Rússia.

Mas 20 milhões de seres humanos que se põem em macha, em aberto desafio contra o terror e a injustiça, isso não é notícia e não aparece nas telas de televisão no ocidente. Alguma espécie de embargo não oficial sobre o noticiário cobre completamente a peregrinação do Arbaeen , apesar de a história dos que a peregrinação rememora ter todos os ingredientes para atrair qualquer 'público' televisivo; os números espantosos, a significação política, a mensagem revolucionária, o contexto de tensões e, até, a originalidade... Mas quando, afinal, uma história como aquela consegue chegar às mesas de editores dos grandes jornais e redes, sim, ela gera ondas de impacto e toca todos os povos, em todos os cantos do mundo.

Dentre os incontáveis indivíduos que foram inspirados pela peregrinação do Arbaeen  está um jovem australiano que conheci há muitos anos, convertido ao islamismo. Evidentemente, ninguém toma decisão dessa natureza sem longo caminho de aproximação e de reflexão. Então, depois de perguntar, ouvi dele que, com ele, o caminho começara em 2003. Uma noite, ele assistia pela televisão o noticiário, e viu filas infindáveis, de milhões de peregrinos, que andavam em direção a uma cidade sagrada chamada Carbala, cantando um nome de homem que ele nunca havia ouvido: "Hussein". Pela primeira vez em décadas, num evento televisionado, o mundo estava tendo uma primeira visão do fervor religioso no Iraque.

Derrubado o regime sunita do partido Ba'ath, os telespectadores ocidentais afinal queriam saber como os iraquianos responderiam a novos tempos, livres da perseguição religiosa. A "República do Medo" fora derrubada, e o gênio escapara da garrafa, para sempre. "Onde fica Carbala, e por que tanta gente está na estrada, caminhando para lá?" - contou ele, que se perguntava insistentemente. - "Quem é esse Hussein que inspira tanta gente a desafiar tantos perigos para homenageá-lo, 14 séculos depois de morto?"

As cenas daquela matéria de 60 segundos pareceram-lhe especialmente emocionantes, porque eram diferentes de tudo que ele jamais vira. Uma conexão viva e calorosa reunia as pessoas num enxame, atraindo sempre mais e mais peregrinos para o que só se pode descrever como o irresistível campo magnético de Hussein. "Quem queira ver uma religião viva, que respira e caminha, que vá a Carbala" - disse ele.

Como pode um homem que foi morto há 1.396 anos manter-se de tal modo vivo, com presença tão palpável que ainda hoje arrasta milhões para sua causa, gente que assume aquele suplício, como seu próprio suplício? Ninguém se deixa arrastar para disputa alguma (menos ainda para disputa que começou em tempos remotos), a menos que tenha interesse pessoal direto na questão. Por outro lado, se você sente que alguém abraçou a luta pelo seu direito à liberdade, pelo direito que é seu, de ser tratado com justiça, pelo direito seu a viver com dignidade, qualquer ser humano sente que há aí interesse comum, e não é raro que a solidariedade de interesses e desejos alcance o ponto de conversão à fé daquele herói defensor de direitos.

A tragédia final

Hussein, neto do Profeta Maomé, é reverenciado pelos muçulmanos como o "Príncipe dos Mártires". Foi assassinado em Carbala no dia que passou a ser chamado de Ashura, décimo diz do mês islâmico do Muharram, porque se recusou a jurar fidelidade a Yazid, califa corrupto e tirânico.

Ele e sua família e companheiros foram cercados no deserto por um exército de 30 mil homens, passaram fome e sede, depois foram degolados, narrativa de violência e horror que é recontada dos púlpitos todos os anos, desde o dia do massacre. Os cadáveres foram mutilados. Nas palavras do historiador inglês Edward Gibbon: "Em tempos e climas distantes, a cena da morte trágica de Hussein sempre despertará a simpatia do leitor mais frio."

Os muçulmanos xiitas rememoram a morte de Hussein, especialmente nos dias de Ashura; e depois, 40 dias adiante, no Arbaeen . 40 dias é a duração tradicional do luto em várias tradições muçulmanas. Em 2014, o Arba'een cai na 6ª-feira, 12 de dezembro.

A longa trilha

Viajei a Carbala, cidade dos meus ancestrais, para ver por mim mesmo por que a cidade é tão impressionante. O que vi ali me provou que até a lente de maior abertura do arsenal tecnológico contemporâneo é ainda estreita demais para capturar o espírito dessa reunião agitada, mas pacífica.

Uma avalanche de homens, mulheres e crianças, mas as mulheres cobertas com véus negros são as que mais se destacam, enche o horizonte de um extremo a outro, até onde a vista alcança. As multidões eram tão imensas que havia bloqueios de centenas de quilômetros.

A distância de quase 690km entre a cidade portuária de Basra, ao sul, e  Carbala torna longa a viagem, mesmo de carro; mas é inimaginavelmente árdua, a pé. Os peregrinos caminham durante duas semanas. Gente de todas as idades, ao sol escaldante durante o dia, e sob frio terrível à noite. Caminham por terreno acidentado, coberto de pedras soltas, estradas esburacadas, território vigiado por terroristas, bosques e mangues perigosos. Sem nenhum dos confortos mais básicos, ou equipamento de viagem, os peregrinos carregam pouco, além do amor pelo seu "Mestre Hussein". Carregam flâmulas e bandeiras com o nome Dele, para fazer lembrar aos próprios peregrinos e ao mundo, o objetivo da peregrinação:


"Sem egoísmo! Comparado a Hussein, ninguém vale coisa alguma.
Vida e morte, para mim, são uma e a mesma coisa,
E que seja, se me chamarem de louco!"


A mensagem faz lembrar o épico recitado por Abbas, meio-irmão de Hussein e seu homem de confiança, que também foi morto na Batalha de Carbala em 680 dC, quando tentava encontrar água para as crianças sitiadas que morriam de sede. Com a segurança em tal estado que faz do Iraque a principal manchete em todos os jornais e televisões do mundo, não há dúvidas de que esses versos ainda são genuínos, em todos os sentidos.

Almoço grátis... jantar e café da manhã

Um aspecto dessa peregrinação que deixa perplexos os visitantes é a visão de milhares de cozinhas improvisadas, que os moradores de cada região preparam pelos campos, estradas e ruas pelos quais passam os peregrinos. Essas tendas (chamadas 'mawkeb') são pontos nos quais os peregrinos obtêm praticamente tudo de que necessitem. De refeições recém preparadas para comer, a espaço para descansar; telefones para ligações gratuitas para tranquilizar familiares; fraldas para bebês; praticamente tudo de que alguém possa precisar, tudo grátis. De fato, os peregrinos podem viajar sem levar absolutamente coisa alguma para a viagem de mais de 600km, além da roupa do corpo.

Ainda mais curioso é o modo como os peregrinos são convidados para comer e beber. Os organizadores das Mawkeb interceptam o caminho dos peregrinos e suplicam que aceitem suas oferendas, as quais, não raro, incluem pacote completo de serviço digno de reis: massagens nos pés, uma deliciosa refeição quente, um leito para você repousar enquanto suas roupas são lavadas e passadas e devolvidas quando você acorda. Grátis, tudo grátis, é claro.

Para ter algum termo de comparação, considere o seguinte: logo depois do terremoto no Haiti, todo o mundo mobilizado para ajudar, o Programa Mundial de Alimentos da ONU anunciou que entregara 500 mil refeições, no auge do esforço de ajuda.  Os militares norte-americanos lançaram sua Operação Resposta Unificada, que reuniu os esforços de todas as agências e anunciou que, durante os cinco meses da catástrofe humanitária no Haiti haviam sido entregues 4,9 refeições aos haitianos.

Na peregrinação do Arbaeen estamos falando de garantir mais de 50 milhões de refeições por dia, o que dá um total de 700 milhões de refeições até o final da peregrinação, nada financiado por nenhuma ONU     ou por organizações de caridade internacional, mas por trabalhadores e agricultores pobres, que passam fome, se preciso for, para que os peregrinos sejam bem atendidos, e economizam durante o ano inteiro, para que os visitantes tenham satisfeitas todas as suas necessidades. Tudo, inclusive a segurança, é feita por combatentes voluntários, que têm um olho no ISIL e outro olho no serviço de garantir a segurança dos peregrinos.

"Para saber o que o Islã ensina" - diz um coordenador de Mawkeb, "não olhem para o que fazem poucas centenas de terroristas bárbaros, mas o autossacrifício de que são capazes os milhões e milhões de peregrinos do Arbaeen."

Verdade é que a peregrinação deveria ser incluída no Livro Guinness dos Recordes, em várias categorias: maior reunião anual, mais longa mesa de jantar ininterrupta, maior número de bocas alimentadas gratuitamente, maior grupo de voluntários mobilizados num só evento - e tudo isso feito sob ameaça iminente de suicidas-bomba.

Devoção insuperável

A simples visão das multidões já deixa qualquer um boquiaberto. O que torna o espetáculo ainda mais extraordinário é que, dadas as condições de insegurança sempre crescente, aumenta ainda mais o número de pessoas que se reúnem para marchar e marchar em aberto desafio consciente contra as ameaças terroristas. A peregrinação, portanto, não é mero exercício religioso, mas uma firme declaração de resistência.

Circularam vídeos pela internet mostrando um suicida-bomba que se autoexplode no meio da multidão de peregrinos. Na sequência, a multidão aumentou, cantando:


Se nos cortarem pernas e mãos,
Rastejaremos para as Terras Santas!


Os horrendos ataques a bomba que acontecem sempre, durante todo o ano, quase sempre contra peregrinos xiitas e que fazem número incontável de vítimas, ilustram bem os perigos que os xiitas que vivem no Iraque enfrentam; e a insegurança não diminui. Pois nem a ameaça iminente detém os peregrinos - jovens e velhos, iraquianos e estrangeiros, que fazem, ano a ano, a perigosa jornada até a cidade santa.

Não é fácil para alguém de fora compreender o que inspira os peregrinos. Veem-se mulheres com bebês de colo, velhos em cadeiras de roda, pessoas em muletas, velhos cegos guiados só pelo próprio bastão. Encontrei um pai que andara todo o caminho a partir de Basra com o filho doente de paralisia cerebral, que não andava. Durante boa parte do percurso, o pai punha o filho à sua frente, segurado pela cintura e apoiado sobre seus próprios pés e os dois andavam. Dessa matéria prima fazem-se os filmes da 'noite do Oscar', mas Hollywood vive mais interessada em heróis ridículos que em heróis de carne e osso, cujos superpoderes são comprometimento e coragem.

Os que visitam o santuário de Hussein e de seu irmão Abbas não são movidos só por emoção. Cada vez que denunciam a natureza atroz da morte deles, reafirmam o comprometimento com aqueles mesmos ideais.

A primeira coisa que os peregrinos fazem quando chegam ao santuário é recitar o Ziyara, texto sagrado que resume o status de Hussein. No começo, Hussein é chamado "herdeiro de Adão, Noé, Abraão, Moisés e Jesus". É proclamação muito profunda. Mostra que a mensagem de Hussein, de verdade, justiça e amor pelos oprimidos, é reconhecida como extensão presente e inseparável de todos os profetas enviados por Deus.

As pessoas vão a Carbala não para se deslumbrar com a paisagem - de tamareiras carregadas, ou para admirar a beleza cenográfica do mausoléu, ou para comprar, viajar, conhecer antigos sítios históricos. As pessoas vão a Carbala para chorar. Para elaborarem um luto antigo e aproximar-se da aura divina que cerca Hussein. Entram chorando no santuário sagrado, lamentando sempre o maior de todos os massacres, o maior ato de sacrifício jamais visto.

É como se cada fiel tivesse firmado um laço pessoal com o homem que nunca viram. Falam com ele e chamam seu nome; abraçam o monumento funerário; beijam o chão que leva ao santuário; tocam as paredes e as portas como se toca o rosto de um amigo perdido há muito tempo. É uma visão de proporções épicas. O que motiva essas pessoas é algo que tem de ser compreendido do caráter e do status do Imã Hussein e do relacionamento espiritual que os que o conheceram desenvolveram com sua lenda viva.

Se o mundo compreendesse Hussein, sua mensagem e seu sacrifício, começaria a compreender as raízes ancestrais do ISIL e de seu credo de morte e destruição.

Há séculos passados, em Carbala, a humanidade testemunhou a gênese de monstruosidades impensáveis, sem sentido, cuja culminação apareceu personificada nos assassinos de Hussein. Foi a escuridão maisperegrinação, Arbaeen,l Iraque impenetrável, versus a Luz Brilhante mais luminosa, uma exibição de vício, versus um festival de virtude. Daí vem a potência do espectro de Hussein hoje.

A presença dele está primordialmente entretecida em todas as facetas da vida dos peregrinos. A lenda de Houssein encoraja, dá inspiração, os guerreiros de Houssein são transmutados e convertem-se em homens melhores. Não há obscurantismo ou escuridão programados pela imprensa-empresa que consigam extinguir sua luz.

"Quem é esse Hussein"? Para centenas de milhões de seus seguidores, uma pergunta assim tão profunda, capaz de arrastar para cá pessoas de outras religiões, só pode ser respondida depois de você ter marchado a pé até o santuário de Hussein. *****

 


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