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Os Porões da FIFA, a Genialidade de Maradona e o Jornalismo Bandido

29.02.2016
 
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Enquanto a FIFA realizará neste dia 26 de fevereiro Congresso extraordinário para eleger o sucessor de seu ex-presidente, o suíço Joseph Blatter, após investigações do FBI que levaram a Justiça dos Estados Unidos a imputar nove dirigentes de futebol por corrupção, vale recontar determinada fase da vida esportiva de Diego Armando Maradona, da escola futebolística que mais tem se desenvolvido nas últimas décadas.

Maradona, quem ousava desafiar os bilionários porões do poder do futebol, jogava muito mais que com genialidade: desfilava em campo com a peculiar alma argentina, marcante garra assim como vive até hoje e sempre viveu desde tempos de infância, nas favelas da cidade de Lanús (grande Buenos Aires). 

Exatamente pela mescla de genialidade com personalidade (virtude de poucos nos superficiais tempos atuais), em momento de suma importância à carreira do atleta e à equipe que enchia os olhos do mundo, Maradona e sua seleção acabaram brutalmente eliminados por uma máfia desavergonhada, exatamente a FIFA comandada então pelo brasileiro João Havelange e suas cartas marcadas, envolvidas em um sistema que, intencionalmente, faz com que o melhor nem sempre vença.

Agressiva quadrilha que intimida e cala o mundo esportivo, jornalístico e político em absolutamente todos os lugares do planeta. De quem o menino pobre que seria autor de um dos gols mais espetaculares da história do futebol (https://www.youtube.com/watch?v=-NrJuU0Kw2w) nunca teve medo, pelo contrário: sempre enfrentou e ainda hoje, na condição de comentarista, enfrenta de frente, expondo-a ao mundo todo - não sem ser ignorado e até ridicularizado inclusive no Brasil, que deveria separar rivalidade futebolística da razão, da ética e da justiça, quando o assunto é futebol e nos mais diversos segmentos da vida.

Vale muito a pena aproveitar este momento de transição na FIFA também para repensar e tentar entender o porquê do pateticamente folclórico "jornalismo" esportivo internacional, muito mais voltado ao entretenimento e à imbecilização das massas que ao seu verdadeiro ofício, tão ensinado nas faculdades quanto ignorado já ali mesmo: informar e gerar senso crítico baseado nos seguintes princípios jornalísticos: objetividade, imparcialidade, ética e transparência.

Recontando a Copa de 94: Tributo ao Gênio

O jornalista britânico Andrew Jennings declarou, no Senado brasileiro em 2015, que a máfia corrupta que toma conta da FIFA teve início na década de 1970, quando o brasileiro João Havelange presidia a entidade. Blatter sucedeu Havelange, e era o principal assessor do dirigente brasileiro quando este esteve à frente da FIFA.

Na premiação da Copa do Mundo de 1990 na Itália, Maradona subiu ao pódio chorando copiosamente a fim de receber a medalha de prata: havia perdido para a Alemanha, 0-1, que fizera gol através de pênalti apontado pelo árbitro nos últimos minutos da partida de maneira, no mínimo, muito duvidosa.

O eterno camisa 10 argentino estendeu a mão a todos os dirigentes naquele pódio, menos a Havelange, então presidente da maior entidade do futebol mundial, o qual ninguém ousava enfrentar mas o craque argentino, sim, já vinha denunciando há anos, afirmando que "a FIFA é a pior inimiga do futebol". Na solenidade final em Roma, na Copa do Mundo de 1990, Maradona deixara o dirigente máximo do futebol abanando a mão direita, em busca do aperto jamais dado pelo camisa 10 da alvi-celeste.

Quatro anos mais tarde, a "careta" desafiadora de Maradona(https://www.youtube.com/watch?v=is40zPl5Hzw), quase enfiando o rosto na câmera após marcar o terceiro gol da Argentina na vitória de 4-0 sobre a Grécia em sua primeira partida na Copa do Mundo de 1994 nos Estados Unidos, em jogada que mais se parecia com um fliperama conforme apaixonadamente narrado pelo jornalista argentino Victor Hugo, foi direcionada exatamente Havelange.

Mescla de obediência tática, inteligência, muita raça (com certo toque de fúria) e extrema fineza no toque de bola, características tipicamente argentinas. O público presente nos Estados Unidos e o próprio mundo em busca de futebol-arte naquele evento, estavam empolgados.

Era clara a mensagem de Maradona na comemoração que retratou, assim como a própria jogada magistral que havia culminado naquele golaço, o estado de espírito do jogador e de toda a equipe que brilhava sozinha em um mundial paupérrimo do ponto de vista técnico, era clara: "Estou vivo!". 

No segundo jogo, mais uma bela apresentação em que a seleção argentina venceu a fortíssima Nigéria por 2-1, Maradona acabou "sorteado" para o exame anti-dopping. Curiosamente, a biomédica responsável pela coleta de material para tal exame foi até o meio do campo logo após o término da partida, e buscou o craque portenho levando-o pela mão para fora dali. Maradona apenas sorria e comemorava mais um grande jogo: a Argentina estava virtualmente classificada paras as oitavas-de-final, e não parecia haver, naquele momento, rival á sua altura - mesmo o apático Brasil com grandes nomes (Raí, Bebeto, Romário, Taffarel), e baixíssimo rendimento técnico.

Em entrevista coletiva (https://www.youtube.com/watch?v=VPp0MRzy23c) após resultado positivo, Maradona jurou pelas filhas diversas vezes não ter feito uso de efedrina. "Não preciso, como nunca precisei de estimulante". À época, parecia sintomático o estranhíssimo cenário na saída do campo, mais ainda se levando em conta o resultado do exame; hoje, é praticamente impossível acreditar que a FIFA de Havelange não havia arquitetado a eliminação de Maradona do Mundial, e que a biomédica fora movida por mera "tietagem" em relação ao astro argentino para romper o protocolo daquela maneira ridícula (ao que tudo indica, uma espécie de provocação a fim de gerar reação de Maradona frente às câmeras, e adiantar sua "culpa" a todo o mundo).

Já o Brasil, que se tornaria campeão, em sua partida mais difícil naquele mundial, contra a Holanda nas quartas-de-final (3-2), fora gritantemente beneficiado na marcação da falta que, no final da partida que caminhava à prorrogação (com o adversário com moral superior, só crescendo), deu origem ao gol de falta do lateral-esquerdo Branco. 

Nos anos de Havelange, não se conta história da seleção brasileira prejudicada por "erros" de arbitragem, ao contrário: apenas para ficar nos fatos mais marcantes, a "seleção-canarinho" foi beneficiada contra a dificílima União Soviética na primeira fase da Copa do Mundo da Espanha, em 1982, na estreia da Copa do México em 1986 através de evidente gol da Espanha anulado. 

Antes e principalmente depois de Havelange, com a ascensão de seu principal assessor Blatter, a história pende a favor do Brasil, politicamente muito forte nos bastidores da "cartolagem" mundial.

No mundial de 1962 no Chile, quando o inglês Stanley Rous presidia a FIFA, o pênalti não marcado para a forte Espanha que poderia ter tirado o Brasil (já sem Pelé) daquele mundial, é outro "erro" gritante. 

Blatter "garantiu" a presença do Brasil na Copa de Mundo de 2002, quando a seleção nacional viveu uma de suas maiores crises devido aos escândalos envolvendo seu então diretor técnico, Vanderei Luxembrurgo. Em 2001, Eliminatórias para a Copa do ano seguinte, quando até se chegou a duvidar da classificação da seleção brasileira, o apito sempre pendeu para o lado brasileiro em diversos detalhes (inversão de faltas, na aplicação sem critério dos cartões amarelo e vermelho, na anulação e marcação de gols duvidosos).

No mundial de 2002 realizado simultaneamente no Japão e na Coreia do Sul, o Brasil, apático durante quase todo o torneio, acabou "levado" à final contra a Alemanha: favorecido tão indiscutível quanto decisivamente contra a Bélgica nas oitavas-de-final (2-0), e nas semifinais contra a Turquia (1-0).

A Copa do Mundo realizada no Brasil em 2014 foi um festival de "erros" em favor do Brasil, ofuscados pelo horror derradeiro envolvendo a seleção brasileira que, nos "baratos" 1-7 contra a Alemanha que "tirou o pé" no segundo tempo, esbanjou as fortes características da sociedade nacional: desorganização, apatia, impossibilidade de reação diante das adversidades.

Logo na estreia, contra a forte Croácia, e na última partida da primeira fase contra o duro México, o apito soou vergonhosamente contra o Brasil, o que, alegado tanto foraquanto dentro do país (embora neste caso não tão intensamente), seguiu-se nas oitavas-de-final contra o Chile (vencido apenas na prorrogação por 3-2, em duríssima partida que, no tempo normal, havia terminado em 1-1), e clamorosamente contra a Colômbia nas quartas (2-1). Até chegar à Alemanha, que anulou qualquer pretensão da "cartolagem" de fazer do Brasil o hexacampeão do mundo, conforme denunciado havia anos pelo jornalista Jorge Kajuru, de credibilidade inquestionável.

Enfim, a lista de "erros" cuja balança pende para um lado só é vasta.

Não se trata, aqui, de acirrar rivalidades e nem de se realizar um campeonato aritmético de erros históricos, retirar título de uns e consagrar novos campeões de tempos passados levando a questão a uma rasa discussão de boteco incentivada pela baixa prática jornalística, brasileira e internacional. Já dizia em vida o brilhante escritor uruguaio, Eduardo Galeano: "Há ditaduras visíveis e invisíveis. A estrutura de poder do futebol no mundo é monárquica. É a monarquia mais secreta do mundo: ninguém sabe dos segredos da FIFA, fechados a sete chaves. Os dirigentes vivem em um castelo muito bem resguardado".

Melhor do Mundo? Saindo brevemente do campo político para entrar efetivamente no gramado onde a bola é jogada, a realidade é que dentro do Brasil precisa-se perceber que o país deixou, há muito, de ser o melhor futebol do mundo conforme gritado constante e ufanisticamente por "comunicadores" e políticos que tentam anestesiar a nação com falsas alegrias e muita demagogia. Se o futebol brasileiro quiser se reencontrar, deve encarar mais essa dura realidade.

Este autor brincou de bola na equipe juvenil do São Paulo Futebol Clube campeã paulista, posteriormente no extinto Paulistano da cidade paulista e brasileira de Jundiaí, para depois ter passagem rápida pelo Club Nacional da 1ª divisão do Paraguai, até ser levado por dois empresários (inescrupulosos), os ex-jogadores argentinos Carlos Alberto Abal Gómez (Club Lanús) e Orlando Jimenez (Lanús e Barcelona da Espanha) ao Atlético Ituzaingó, equipe das divisões inferiores da Argentina, na grande Buenos Aires, e pode atestar sem titubear: desde cedo, nas quadras de futebol da Argentina entre crianças de 8, 9, 10, 11 anos, o toque de bola, a inteligência, disciplina e obediência tática dos meninos argentinos está a luz de distância dos brasileiros.

Esta triste realidade para os brasileiros mais fanáticos, porém, não se resume à vizinha e "odiada" Argentina. Os tombos esportivos tupiniquins que "chocam" a nação do futebol e do Carnaval, têm sido mais impactantes justamente por não se enxergar isso, mas preferir assistir aos fracassos no cômodo camarote da ilusão à ilusão, também quando o assunto é futebol.

No Brasil, o debate é sempre paupérrimo seja qual for o assunto (política, economia, qualidade de ensino, etc). Mais ainda quando entram em campo os 200 milhões de jogadores da apaixonada Pátria de Chuteiras e seus representantes, os "especialistas" em bola no mato, que o jogo é de campeonato: faz-se proibido pensar enquanto, no sentido contrário, os "comunicadores" e políticos em geral jamais ousam "forçar a barra" mais evidente dos neurônios e da memória nacional. 

Desta parte, contudo, acredita-se valer a pena tentar desafiar o status-quo...

O Jornalismo Esportivo e a Arte de Emburrecer as Pessoas

Você já percebeu que o jornalismo esportivo internacional, especialmente futebolístico entrevista e "debate" dias e dias discutindo o nada, não chegando à conclusão nenhuma, que ele vive de especulações e palpites enquanto você fica horas frente à TV sem ser acrescentado do ponto de vista cultural e crítico?

Mas por que o jornalismo esportivo é tão alienador, adotando métodos em que há ausência praticamente total de utilidade pública servindo quase que única e exclusivamente ao entretenimento, em detrimento do jornalismo sério? É o que discutiremos brevemente nas linhas a seguir.

Baixo Nível Intelectual em Dois Pontos. O jornalismo esportivo internacional possui baixo nível intelectual por um motivo bem claro, e outro mais profundo:

1.) O jornalismo esportivo possui baixo nível intelectual porque seus profissionais possuem, em geral, baixo nível intelectual. Triste redundância. Simples assim. Não há mistério nisso, tanto quanto não havia dúvidas sobre qual seria a resposta dos torcedores espanhois à pergunta de entrada de Bustos. 

Mas existe algo que vai muito além disso no que diz respeito à escassez de conteúdo nessa área do jornalismo, da qual a matéria de Bustos é uma sintética evidência que nos leva ao segundo ponto, e responde tudo.

2.) No Brasil, exceto à ESPN e a alguns profissionais tais como Jorge Kajuru, Juca Kfouri, Juarez Soares, Nilson César, José Silvério, Rogério Assis, Cláudio Zaidan, Armando Nogueira, José Trajano e outros poucos, não se discute o esporte a fundo nem o coloca, como muitas vezes deve ser, no contexto social, econômico e político tanto quanto a maioria dos jornalistas "especializados" em esporte nunca atuou em outras áreas jornalísticas. 

Tudo isso por causa do ponto-chave, explicação de todo esse "nada" que "enche a linguiça" do noticiário esportivo, principalmente futebolístico que, conforme argumentamos mais acima, vai além do nível intelectual dos jornalistas da área: a ausência de pensamento e de questionamento é o que sustenta a grande corrupção que só cresce dentro do esporte, mais ainda do futebol, modalidade que movimenta bilhões e bilhões de dólares anualmente impregnada de sujeira generalizada da qual participa dirigentes, jornalistas, políticos, empresas (a Nike é o exemplo mais gritante), empresários de atletas e, claro, atletas cúmplices.

Por Trás das Cortinas das Copas de 90 e 98. Um jogador que disputou a Copa do Mundo de 1990 na Itália pela seleção brasileira de futebol, confidenciou-nos três anos mais tarde que, naquela competição, se repetira o que, segundo ele, frequentemente ocorre em convocações da seleção nas mais diversas épocas: o então técnico Sebastião Lazaroni havia convocado alguns jogadores em troca de comissão em dinheiro de seus respectivos empresários - este autor, à época adolescente que tentava a sorte no futebol, denunciou isso logo em seguida à rádio Jovem Pan AM de São Paulo, mais especificamente aos jornalistas esportivos Flávio Prado e Milton Neves, os quais imediatamente levaram tal denúncia ao ar, em cadeia nacional. 

No Mundial da França em 1998, o caso Ronaldo Nazário na partida final do Brasil com a seleção local chocou o mundo pelo fato de o atacante ter entrado em campo poucas horas após sofrer convulsão no hotel onde estava a equipe estava concentrada, assunto que até hoje gera controvérsia nos quatro cantos do globo devido à desencontrada versão oficial dos fatos (milhões de pessoas, entre inúmeras especulações, acreditam que a seleção brasileira "vendeu" a derrota por 3 x 0 à França, devido à patética evidência de que "algo" estava errado naquela tarde em Paris com a seleção, então, tetracampeã do mundo).

Naquele mesmo ano, um integrante da comissão técnica da seleção afirmou a este autor, pessoalmente, que cerca de 40 minutos antes de a equipe entrar em campo, com Edmundo escalado pelo técnico Mário Jorge Lobo Zagallo para o comando do ataque, eis que, para surpresa de toda a delegação, aparecera no vestiário Ronaldo direto do hospital ao lado de seus empresários pedindo para jogar, contrariando as recomendações médicas e o mínimo bom-senso dos leigos - sua patrocinadora Nike não poderia permitir que a marca humana mais importante da megaempresa transnacional ficasse de fora daquela final, e realmente não permitira ainda que o atleta não possuísse nenhuma condição física nem psicológica para jogar, enquanto Zagallo, segundo nossa fonte ocular, "não teve peito para barrar aquilo". 

Quando Ronaldo chegara ao vestiário, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira (genro de Havelange e coronel do futebol brasileiro, por longos 23 anos), estava nas tribunas do Stade de France (Estádio da França) e, avisado por seus assessores da chegada do jogador, desceu imediatamente ao local: tampouco tomou alguma atitude contrária aos interesses comerciais de então.

Ronaldo foi um fiasco naquela partida, tinha o semblante estranho o que o mundo notou logo de sua entrada em campo, andava com dificuldade gerando em toda a equipe brasileira e até na adversária preocupação, do início ao fim do jogo. 


Quando, ainda em 1998, Edmundo foi contundentemente perguntado por Jô Soares em seu programa da TV Globo por que ficara de fora da final da Copa contra a França, dando lugar a quem não tinha a menor condição de jogar, o atacante limitou-se a responder, "algum dia, todos saberão da verdade". 

Porém, o caso desmanchou-se no ar e, conforme observamos mais acima, a vaga versão oficial de que a escalação de Ronaldo, que mantém milionário contrato vitalício com a Nike, fora uma decisão técnica, divide espaço com as mais diversas especulações públicas - vácuo jamais preenchido pelos jornalistas.

Paixão Bandida

Em meio a todo esse tremedal generalizado, qualquer um com mínima vivência no esporte sabe que muitos narradores e jornalistas formam parte direta na corrupção esportiva, e das mais diversas maneiras. A mais utilizada é supervalorizar atletas nos comentários para receber, nas futuras negociações dos seus esportistas de estimação, o famoso jabá, isto é, uma porcentagem financeira.

Enfim, a corrupção é o motivo do ópio que, lamentavelmente, tornou-se o esporte, há muito uma sutil e apaixonada maneira de alienar as pessoas, anestesiando-as da realidade do mundo e da realidade do próprio esporte. 

Para a sustentação desse sistema podre, o futebol e o esporte em geral não podem ser levados muito a sério, nem podem fazer as pessoas pensar e questionar sob o risco de se findar a farra da cartolagem encoberta por um bando de jornalistas aloprados, o dia inteirinho palrando sobre futebol sem chegar à conclusão nenhuma, sem levar a lugar nenhum.

É esse o único motivo por que não se adota a tecnologia para impedir os infinitos e vergonhosos erros da arbitragem no futebol, sob o pífio e manjado argumento de que a modalidade "é apaixonante justamente pela polêmica dos equívocos de arbitragem, gerando calorosos debates nos botequins de todo o mundo". 

Esse é o argumento dos cartolas, mas não, lords do bem-dizer que nunca chutaram uma bola na vida: o futebol é apaixonante pelas jogadas bonitas, e torna-se mais empolgante ainda quando aquele que se preparou melhor técnica, física, tática e psicologicamente traduz todo esse valor em vitória dentro de campo, de cujo preparo as federações e confederações de futebol, representadas pela dona FIFA, são as maiores adversárias muitas vezes.

Uma fonte muito próxima a nós que trabalhou no Departamento de Arbitragem da Federação Paulista de Futebol nos negros anos do presidente Eduardo José Farah (1988-2003) - quem renunciou ao cargo para não ser cassado pela Justiça -, pediu para não ter o nome revelado ao nos confidenciar que o critério para a escalação de árbitros baseou-se na "troca de favores" na administração Farah. Quem acha que alguma coisa mudou, de lá para cá?

Em meio a tudo isso, note-se que a questão do uso da tecnologia para auxiliar a arbitragem está totalmente afastada também dos "debates" e das pautas de reportagem do jornalismo esportivo internacional em geral. Pois é...

Mas é claro, se algum dia se retirar do árbitro o maléfico peso de estar acima do bem e do mal em suas decisões e usar-se a tecnologia para tornar o futebol uma modalidade justa em seus resultados, e para preservar inclusive o trabalho e a própria figura humana do árbitro, não mais passível das torrentes de erros irredutíveis (mesmo aqueles mais gritantes que até o Zé da Fiel, lá de cima da arquibancada constatou com toda a certeza e indignação), as manipulações de resultado tornar-se-ão inviáveis e o futebol não viverá mais refém dessa gente, não será mais vítima dos interesses da cúpula engravatada que rege o esporte. 

Pois a sucessão de "erros" Copa à Copa, campeonato em campeonato do começo ao fim, é mais um triste exemplo de que, no futebol, o melhor na minoria das vezes vence, exemplo de resultado produzido pela arbitragem fantoche, como sempre foi.

Tal paixão bandida movida pela polêmica dos erros é a linha de raciocínio que leva à rasa pauta do jornalismo, e à sua arte de emburrecer as pessoas que acaba, por sua vez, desaguando na máfia dos resultados e nas diversas outras formas de roubalheira indiscriminada. 

Esse amor dos cartolas pelo erro e pela ausência de senso crítico nada mais é que a pedra angular da manipulação que impera no esporte - este sim, inteligente, simples e vítima do Pão e Circo que também se enquadra no oportuno livro Showrnalismo - A Notícia como Espetáculo, do jornalista José Arbex Júnior.

O jornalismo em geral tem se distanciado, a passos desenfreados, de sua função essencial: a construção social da realidade - e o futebol é, evidentemente, indissociável desse sombrio cenário global.

Portanto, futebol - negócio globalmente bilionário que talvez só perca para o narcotráfico - também se discute e é um assunto igualmente político, social e econômico, ao contrário da alienante ideia vendida pelos usurpadores do poder brasileiro, plenamente aceita pela sociedade local.

Edu Montesanti é professor de idiomas, autor de Mentiras e Crimes da "Guerra ao Terror" (Editora Scortecci, 2012), escreve para o Diário Liberdade (Galiza), para Truth Out (Estados Unidos), tradutor do sítio na Internet das Abuelas de Plaza de Mayo (Argentina), da ativista pelos direitos humanos, escritora e ex-parlamentar afegã, Malalaï Joya, e ex-articulista semanal do Observatório da Imprensa(Brasil). 

 


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