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25 de Abril, 33 anos de liberdade

24.04.2007
 
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25 de Abril, 33 anos de liberdade

Há precisamente 33 anos, na noite de 24 de Abril de 1974, as preparativas para o movimento que teria vastas consequências em Portugal e nos seus territórios no Ultramar estavam em marcha. Quem acordou já no dia 25 de Abril, ligando o rádio, sabia já que algo estava a acontecer.

Apresentamos breves trechos de entrevistas para ilustrar a nossa peça neste 25 de Abril, que dedicamos a todos os portugueses, esse povo que soube fazer uma Revolução quase sem sangue e colocar seu país na senda de democracia, um país vivo num universo de ideias novas naquela altura, cheio de esperança de que a política seria mais participativa, mais inclusiva, mais horizontal e mais democrática.

Quatro entrevistas

“Já no dia 23 de Abril, estava a fechar um negócio com a seguradora A Social, disseram-me para sair do país, porque algo iria acontecer. Eu perguntei o quê, mas disseram que iria haver um movimento armado nos próximos dias e que seria melhor adiantar a viagem de volta à Inglaterra. Por isso não entendo como as pessoas lá em Portugal dizem que foi um segredo, pois eu sabia 48 horas antes, e tenho ainda os documentos a comprová-lo”

John Raston, 71, Inglaterra

“Acordei às sete e liguei o rádio. Me lembro que só tocava músicas revolucionárias, do Sérgio Godinho e outras músicas de intervenção na altura, que eram proibidas pelo regime. Davam dicas também para as pessoas ficarem em casa e assim foi. Só à tarde é que muitas pessoas foram à rua participar naquilo que acabou por ser uma grande festa à portuguesa. Vinho a correr, alegria, abraços e sorrisos, cravos nas armas em vez de balas. Lindo dia!”

Amélia Guerra, 58, Lisboa

“Sentimo-nos alegres, sentindo que finalmente estávamos livres, que teríamos um futuro mais participativo. Principalmente, aquilo terminou com aquela guerra que não era nossa. O mundo estava contra nós, e as famílias portuguesas choravam os seus filhos. Ninguém acreditava na guerra colonial, nem mesmo os militares. Graças a Deus conseguimos fazer algo deste rectângulo de terra à beira-mar, já na União Europeia. Salazar tinha medo que Portugal sozinho nunca conseguiria aguentar-se, mas ele era já ultrapassado. Na política é assim: quem fica inerte, tem de dar o lugar”.

Martim Ferreira, 65, Coimbra

“Nasci no dia 25 de Abril de 1974. Meus pais disseram-me que antigamente, as mulheres não podiam votar e só os homens que foram escolhidos tinham o direito do voto. Acho que tudo era controlado por famílias poderosas, tipo 100 famílias, que tinham direito a tudo e o povo não tinha direito a nada. Sei que Marcelo Caetano tentou mudar algumas coisas, tipo abrir caixas para as domésticas, mas dizem-me que o cerne da questão eram os militares. Havia problemas na carreira entre militares profissionais e os milicianos, que tinham facilidades de promoção e de qualquer forma, quem quer morrer por terras alheias? Acho que era mais um golpe militar do que revolução, mas depois o Partido Comunista tomou as rédeas, estava muito bem organizado, e tentou fazer algo revolucionário. Mas o que eu vejo agora é que a ditadura de um pequeno número de famílias foi substituído por outro pequeno número de políticos profissionais, eternamente rondando os lugares de destaque e um sem fim de figuras cinzentas mas poderosas que mandam nisso. Sim, temos o voto, e as mulheres não precisam da autorização do marido para viajarem ou terem um isqueiro. Mas pouco mais”.

Alex Mestre, 33, Oeiras

Quatro pontos de vista, quatro experiências, escolhidas aqui porque representam o que muitas pessoas dizem. Da história da Revolução em Portugal, já foram escritas muitas páginas. E não é de menosprezar os efeitos da Revolução em Portugal, por várias razões.

Primeiro, colocou fim a 50 anos de um estado paternalista, no mínimo e no pior, fascista, em que as pessoas, se não tinham o direito de votar livremente, não eram livres. Que Salazar era um Hitler, não foi mas a PIDE existia e pessoas foram reprimidas simplesmente porque não concordavam com as ideias do clique no poder. Esse clique entendeu que os territórios no Ultramar eram território português e recusaram-se a seguir o exemplo de outras potências coloniais, entregando o poder a entidades locais devidamente preparadas. Acabou no isolamento de Portugal e em termos diplomáticos, é uma posição perdedora.

No caso de Portugal, fez pouco demais e demasiado tarde, deixando as colónias africanas (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe) e Timor Leste muito mal preparadas para a independência, regra geral, com a excepção talvez de Cabo Verde, e seguiram-se as guerras civis por procuração.

Mas a Revolução de 25 de Abril pelo menos lançou o processo, a senda longa e dolorosa, um caminho perturbado que viu as democracias implantarem-se paulatinamente nestes país e hoje, passados 33 anos, temos os PALOPs em paz e a crescerem com confiança e um Timor Leste já independente. Temos o irmão Brasil a desenvolver laços económicos, comerciais, financeiros, culturais, políticos e diplomáticos com todos estes países e temos a CPLP, a Comunidade de Países de Língua Portuguesa, a encontrar a sua entidade. Poderia fazer muito mais, mas pelo menos já caminha.

Basicamente, o 25 de Abril colocou fim a uma situação absurda em que não só Portugal, mas todo o espaço português, era o feudo de alguns, que excluíam os direitos da maioria. Isso no mundo moderno não poderia continuar.

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