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A Flauta Mágica... Para Bons Entendedores

20.01.2018
 
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A Flauta Mágica... Para Bons Entendedores

Vem o presente discurso, como reacção à noticia de primeira página intitulada "Todos contra os ratos" seguindo-se em reportagem também com titulo "Governo, câmaras, juntas de freguesia, privados e população arrancam em Março com o combate aos ratos em São Miguel".

Não fosse o ataque dos simpáticos roedores a uma escola da nossa cidade de Ponta Delgada e continuaríamos a apreciar tais bichinhos a deambular por tudo o que é sitio à procura da sua subsistência através de assaltos não só nocturnos, mas também à luz do dia. Há muito que se ouve, se lê e se vê a denuncia da invasão de tais criaturas em várias circunstâncias, (no domínio público, nos pastos, nos estabelecimentos comerciais, em redor dos contentores do lixo, nos edifícios abandonados onde partilham o espaço com o vicio da droga ou com a desgraça da fome que também atinge seres humanos).

Quando criança, habituaram-me e bem, à oferta de livros de "estórias" quer pelo Natal quer pelos aniversários. Entre aqueles que recordo, havia um muito interessante sob o título de "A Flauta Mágica".

Penso que da minha geração ainda muitos tem a recordação dessa estória, mas, não resisto para os que a desconheçam fazer um resumo da mesma que talvez leve a atender o "Para bons entendedores..." Aí vai:

- Há muitíssimo tempo, numa próspera cidade algures, aconteceu que uma manhã, quando seus habitantes saíram de suas casas, encontraram as ruas invadidas por milhares de ratos que iam devorando, insaciavelmente, o que bem guardado tinham grãos nos seus celeiros e imaginai, a comida de suas bem providas despensas. Ninguém conseguia imaginar a causa de tal invasão. e, ainda pior, não havia um iluminado que soubesse o que fazer para acabar com tal praga. Até os gatos fugiam. Ante a grave situação, os importantes da cidade, assistindo ao emagrecimento dos seus pertences pela voraz acção dos ratos, convocaram o "conselho" que deliberou compensar com 100 moedas de ouro, quem os livrasse de tal peste.

Perante tal recompensa logo se apresentou ao "conselho" um desconhecido taciturno, alto e desengonçado flautista, que afirmou ser sua a recompensa pois naquela mesma noite não haveria um só rato na cidade. Dito e feito, começou a andar pelas ruas tocando a sua flauta da qual se ouvia uma maravilhosa melodia. Encantados os ratos, iam saindo de seus esconderijos seguindo hipnotizados, o flautista que não deixando de tocar, levou-os para longe e para junto de um rio caudaloso onde todos os ratos ao tentarem seguir o perito flautista, morreram afogados.

Os habitantes da tal cidade em algures, , respirando aliviados de tão  horrível prova, tranquilos e satisfeitos, voltaram aos seus prósperos negócios e despreocupada vida organizando para o efeito uma grande festa para celebrar o extermínio do bando de "ratazanas" que lhe tinham evadido a sua cidade. Dançaram e, saborearam excelente manjar, atá altas horas da madrugada. Ainda inebriados, pelos vapores da festança, apresentou-se-lhes o flautista a reclamar aos importantes da cidade, as cem moedas de ouro prometidas como recompensa pela "desratização" efectuada. Porém livres do seu problema e cegos pelar sua avareza, sua superior prepotência, recusaram-lhe a recompensa argumentando que por tão pouca coisa como tocar uma flauta lhe pagariam tanto ouro. 

E, dito isso, os ditos honrados homens do Conselho da cidade, viraram-lhe as costas rindo-se do que por interesse de recompensa ou não, lhes tinha ajudado na dificuldade de governança.

Desiludido ou quiçá furioso, ao ver a avareza e a ingratidão daquela "gentinha", o flautista repetindo o que fizera no dia anterior, pegou na sua flauta tirando da mesma uma doce e vibrante melodia tocou uma doce melodia em tudo superior à anterior. Para pasmo das cidadãs e dos cidadãos (como agora, é hábito se dizer), em vez de ratos, seguiam-no as crianças da cidade que, arrebatadas pelo som maravilhoso da flauta do desconhecido taciturno, alto e desengonçado flautista, o seguiam alegremente, surdas aos pedidos e gritos de seus pais que, em vão, entre soluços de desespero, tentavam impedir que seguissem o flautista.

De nada lhes serviram o clamor dirigido à sua descendência que seguia o som da Flauta Mágica levando-os para longe, tão longe que ninguém poderia supor onde, as crianças, como os ratos, nunca mais voltaram. Na cidade só ficaram a seus opulentos habitantes com seus bem repletos celeiros e bem cheias despensas, protegidas por suas sólidas muralhas e um imenso manto de silêncio e tristeza.

Naquela cidade "algures" e mais que se procure, nunca se encontra nem um rato, nem uma criança.

"A pessoa simples acredita em tudo, mas quem é prudente está sempre prevenido" e, por tal, "para bom entendedor meia palavra basta" são muitos os intervenientes no nosso "todos contra os ratos.

 "O Estado é essa grande ficção pela qual todos tentam viver às custas de todos os demais." - Frédéric Bastiat (1801-1850)

PS. Episódios reais (pragas de ratos, a "Cruzada das Crianças") podem ter servido de origem para a lenda, mas sua longevidade se deve sem dúvida a sua lição moral nítida (castigo pelo não-pagamento de um acordo) - Braulio Tavares -  Blogger e escritor brasileiro 

 

José F. N. Ventura

Ribeira Seca - RGR, 2018-01-15

Por opção pessoal, o autor não 

escreve segundo o acordo ortográfico

Foto: Por José Luís Ávila Silveira/Pedro Noronha e Costa - Obra do próprio, Domínio público, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=3243241

 


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