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Movimento pela igualdade

11.06.2009
 
Movimento pela igualdade

Decidi apoiar o Movimento pela Igualdade no acesso ao casamento civil para casais do mesmo sexo e entendi ser útil dar aqui testemunho dos meus pontos de vista. Encorajo os leitores desta crónica a utilizar o meu e-mail abaixo transcrito para expressarem as suas opiniões. Com a apresentação pública do Movimento, ocorrida no passado Domingo, surge a possibilidade de debatermos o tema em liberdade, com respeito pelas diversos pontos de vista.

Eu apoio este Movimento por duas razões:

1) A primeira relaciona-se com o significado do casamento na sociedade actual. Muitas pessoas pensaram casar, muitas casaram, algumas não. Outras separaram-se e voltaram a casar. Se são de sexo diferente, foram livres de tomar essas decisões, inscritas nas suas biografias e nas suas circunstâncias. Seja como for, o casamento resiste às mudanças e continua a ser um projecto de muitos. Porquê? Já não se casa para juntar fortunas, contentar as famílias ou esperar que o nascimento dos filhos forneça mais braços para o trabalho familiar.

O casamento por amor foi uma das grandes conquistas do século XX. Casa-se na tentativa de conseguir uma nova visão do mundo, desta vez a de duas pessoas. Casar é assim um movimento a dois, uma construção conquistada, uma esperança que se quer partilhar. Quando se casa, unimo-nos à família do outro, num projecto conjunto que se deseja que resista ao tempo e à rotina. Não casamos com todas as pessoas que amámos ao longo da vida, se tivermos tido a sorte de ter podido conhecer esse amor. Escolhemos uma pessoa (duas? três?) a quem propomos a saída da casa de família e a quem oferecemos um novo modo de olhar. Quando nos casamos, queremos anunciar esse projecto e pretendemos tornar conhecida a nossa escolha. Deixamos de ser meninos e ritualizamos a nossa passagem a adultos. Desejamos então que as duas famílias partilhem o novo projecto. Podemos enfim consagrar a nossa escolha e tornar público o nosso amor.

Porque acredito no casamento civil, não posso aceitar que ele seja restrito a pessoas de sexo diferente. Porque acredito no casamento por amor e não por interesse, rejeito que duas pessoas do mesmo sexo não o possam concretizar e não encontro nenhum argumento que me convença do contrário. Se se amam e querem ligar-se entre si e socialmente através do compromisso público da sua relação, por que razões não o poderão fazer?

2) Apoio este movimento porque é chegada a hora da sociedade portuguesa se juntar à luta contra a discriminação de que são alvo as pessoas homossexuais. Na infância, porque são às vezes diferentes e não se ajustam aos estereótipos educativos que preenchem com ideias feitas as cabeças de pais e educadores. Na adolescência, porque escondem as dúvidas sobre a sua orientação sexual para não serem vítimas de humilhação, como acontece com aqueles que ousam mostrar-se. Na idade adulta porque perdem direitos todos os dias, como o acesso ao casamento civil de que hoje falo. Na velhice, porque sentem já ser tarde para poder afirmar o que sempre foram obrigados a esconder.

Dizem-me que o casamento entre um homem e uma mulher é um dos pilares da civilização: mas pode uma civilização que se quer digna basear-se no estigma, na humilhação e na desigualdade? Afirmam que a causa é fracturante. Como psiquiatra com cerca de trinta anos de experiência clínica, conheço a “fractura”: está na interiorização das mensagens negativas sobre a homossexualidade, divulgadas por uma sociedade que rejeita o que há mais de 50 anos Kinsey demonstrou--- as diversas manifestações do comportamento sexual humano.

Por estas duas razões estou com este Movimento. Sei que a igualdade no acesso ao casamento entre pessoas do mesmo sexo é um passo importante na luta---que se quer permanente--- contra a discriminação.

In Pública

2009/06/07

Daniel SAMPAIO

Prof. Catedrático de Psiquiatria e Saúde Mental da Fac. Medicina de Lisboa

d.sampaio@netcabo.pt


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