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Portugal: A terciarização da gestão política

08.04.2011
 

Portugal finalmente sucumbiu à pressão interna e externa para pedir ajuda ao FMI, isto basicamente, significa que o país é incapaz de cuidar dos seus próprios assuntos. A questão é: por que é que Portugal não terciarizou a sua gestão política e económica há anos a pessoas competentes, honestas e sérias que sabem o que é trabalhar para a comunidade?


Acredito que neste artigo eu exprimo a frustração total e espelho a raiva e a repulsa sentida pela imensa maioria da população de Portugal pelo país ter chegado ao fim da linha, raspando o fundo do poço apesar dos nossos duros esforços, apesar do facto de que colectivamente, termos feito tudo o que nos foi pedido. Aqui refiro-me ao cidadão comum, não aquela sujeira que tem desperdiçado o nosso dinheiro e comprometido o futuro dos nossos filhos.


Pois há precisamente 30 anos que tenho trabalhado desde o amanhecer até o anoitecer, a partir das oito horas todas as manhãs, terminando o meu trabalho às oito horas da noite, e trabalhado no segundo posto de trabalho até meia-noite ou uma da manhã do dia seguinte, incluindo fins-de-semana, feriados e férias, de modo a ter dinheiro para comprar uma casa e dar aos meus três filhos uma educação decente.

Agora, justamente quando, pela primeira vez na minha vida, o meu filho mais novo tendo concluído a sua formatura, pela primeira vez em três décadas, tenho um salário inteiro só para mim, o que acontece? Não só acordo com a notícia de que o país está a aceitar um "bail-out", com as consequentes medidas de austeridade fazendo os PEC parecerem fadas-madrinhas, mas também a notícia de que as taxas de juros irão definitivamente subir, o que significa que a minha hipoteca vai aumentar exponencialmente. O segundo factor não é culpa do governo Português, o primeiro certamente é, e não só o governo de José Sócrates, mas de toda a classe governante desde há décadas.

Dos meus três filhos portugueses, dois já estão morando no exterior e dizem que não vão voltar, e o terceiro está-se preparando para ir. Depois de 30 anos e depois de ter contribuído pessoalmente, eu calculo, pelo menos um milhão de euros para a economia de Portugal, e fazendo diversos trabalhos, tanto no sector profissional como na qualidade de voluntário, eu tenho uma carta de agradecimento para escrever.

Para todos aqueles sanguessugas inqualificáveis e nojentos traidores que ganharam milhões e tiveram o descaramento de não pagar os seus impostos por todos esses anos, obrigado. Paguei eu. Para todos os envolvidos no governo desde o mais alto nível até ao nível local, que desperdiçaram os futuros e as oportunidades dos meus filhos no país deles - ou seja Portugal, obrigado.


Obrigado porque, apesar de fazer o meu melhor, desempenhando um papel na sociedade (educação) e no meu jornal (jornalismo), em que as minhas habilidades pessoais e conhecimentos foram necessários - de modo que ninguém mais pudesse ter desempenhado as tarefas nos meus postos de trabalho - eu não tenho opção, senão ficar aqui, preso com a conta que herdei (ainda mais sacrifícios, depois de ter pago todos os impostos que devia pagar e optando por não descontar uma série de coisas que tenho a certeza poderia ter deduzido), privado da companhia dos meus filhos e forçado, provavelmente, a viver com uma pensão miserável, se realmente a terei pois não haverá dinheiro para isso.

Agora digam-me se eu estava certo ou errado, o ter-me tornado entusiasticamente um dos primeiros alunos da língua e cultura portuguesa no meu país de nascimento, um estudante de uma língua e cultura à qual de bom grado e alegremente me dediquei, na medida em que ganhei duas bolsas para a Universidade de Lisboa na década de 1970 e optei por vir para Portugal e tornar-me parte do processo de construção da nação deste país impar com pessoas maravilhosas durante todos esses anos. Fui convidado a fazer sacrifícios, e eu fiz, de forma desinteressada.

Aquele sorriso foi apagado no meu rosto, não foi? Em três décadas tenho levado tareia após tareia após tareia após tareia após tareia, mas respondi com trabalho duro, paguei todas as minhas dívidas e fiz tudo o que o sistema me pediu para fazer, criando os meus três filhos portugueses e tentando dar-lhes um futuro. Se eu fiz a minha parte, então por quê vocês não fizeram a vossa, com o nosso dinheiro? E por quê é que eu, e outros como eu, somos obrigados a pagar a factura, mais uma vez? Ao contrário dos meus filhos, na minha idade eu já não tenho opção, ou o luxo de escolher onde moro. Por quê é que esses (desculpem-me a expressão) filhos da p..., repito, esses filhos da p.... que receberam fundos comunitários e os usaram para benefício próprio - e não foram punidos - por quê não pagam eles a crise? Atrevo-me a dizer que eles agora nem irão pagar um centavo.

Após 30 anos de vida em Portugal, tenho visto muitas coisas que mudaram - a maioria para melhor - e outras permanecem igual. Durante estas três décadas, os serviços públicos melhoraram exponencialmente - o atendimento ao público é muito mais profissional, os sistemas são mais organizados e nos dias de hoje aqueles que dão atendimento ao público tendem a saber o que está envolvido em começar e terminar um processo. As infra-estruturas melhoraram, as ruas são limpas, as cidades são modernas, abertas, bonitas. O transporte público, embora as pessoas reclamem, é excelente, sobretudo no respeitante a comboios e metro.

As cidades continuam a ser relativamente seguras, os hotéis, cafés e restaurantes oferecem um bom serviço a preços relativamente baixos, significando que o português médio não tem que pensar duas vezes antes de tomar um café ou comer uma refeição simples fora de casa regularmente. O tempo ajuda, a gastronomia também e em termos gerais, as pessoas são agradáveis - os Portugueses são na sua maioria educados. É difícil imaginar um lugar melhor para passar férias. Ao lado das praias, há campos de golfe e (escondidos) tesouros culturais e arquitectónicos em cada lugar e em cada cidade. Escondidos, pois...a palavra "marketing" não existe em português.

O que não mudou, como eu já disse muitas vezes em artigos semelhantes, é a governação abominável por um bando de incompetentes, no melhor dos casos, e corruptos, na pior das hipóteses, traidores que eu pessoalmente aponto como responsáveis por destruir as oportunidades dos meus filhos e da juventude do país e ter tirado a sua liberdade de desfrutar de um futuro no seu próprio país, o que significa que se eu quiser ver os meus netos, vou ter que comprar um bilhete de avião para o fazer, apesar de ter cumprido em pleno todas as minhas obrigações como contribuinte, trabalhador e cidadão.

Permitam-me exprimir a voz da opinião da grande maioria dos portugueses - com esta camarilha ainda no poder, juntamente com suas frotas de BMW topo de gama, as suas equipas de assessores com as contas pagas, despesas de representação e regalias especiais, os contratos assinados com "empresas de pesquisa de mercado", de propriedade de irmãos e irmãs, sogros e primos e só Cristo sabe quem mais, os quais fazem estudo após estudo após estudo, que se guardam numa gaveta recolhendo a poeira, ou então são sumariamente destruídos ou jogados fora sem sequer serem lidos em alguns casos, isto depois de milhares dos nossos euros desperdiçados, esta camarilha que tão habilmente geriu a economia durante os últimos 37 anos e que agora estão de chapéu na mão na Europa e perante FMI, admitindo assim que são ardilosos falhados, esta camarilha começando pelo presidente (será que alguém viu o carro que ele tem e quanto custa? Quem foi primeiro-ministro durante a década após a adesão de Portugal à CE?) e percorrendo os partidos políticos, no governo municipal (quantos conselheiros tem os vereadores?) até o nível de base na administração local (juntas de freguesia) ... com esta trupe de (em certos casos) desajustados, canalhas e parasitas, que em muitos casos parecem viver endemicamente acima da lei - será que alguém realmente tem alguma esperança de mudança num futuro próximo?

Se este bando, geralmente falando - há excepções, de inúteis, arrogantes, presunçosos e barrigudos criminosos e ladrões delapidaram o futuro dos nossos filhos - traindo o futuro deles e o nosso - não faz qualquer sentido acreditar que eles vão mudar, não é? Como então está o PSD à frente nas sondagens?

Ou é tempo de as pessoas começaram em conjunto a formar uma plataforma cívica para certificar-se de que os envolvidos sejam responsabilizados pelas suas acções? Será que não é tempo das pessoas começarem a gritar Mudança! exigir uma Mudança e acreditar na mudança?


Ninguém está a pedir ou incitar uma Revolução. No entanto, o povo português tem demonstrado vezes sem conta que é capaz de enfrentar o desafio sempre que queira, capaz de pensar em termos largos, pensar vertical e lateralmente e  capaz de superar grandes obstáculos, muitas vezes, apesar dos seus "líderes"e não por causa deles. E já que os "líderes" são tão obviamente incapazes, ineptos, demasiado incompetentes ou interessados em assuntos ligados ao seu bem-estar e aquele dos seus amigos para poderem pensar estrategicamente, então porquê é que o povo português (começando pelos jovens), não exige que alguém o faz?


Este é um processo que pode tomar forma nos próximos meses, dentro da Pravda.Ru ou em torno dele ou fora dele, como quiserem, formando uma plataforma cívica que pode (ou não), eventualmente, evoluir para um partido político de competentes, patriotas trabalhadores cujo objectivo é transformar Portugal numa economia média europeia, na metade superior da tabela - onde pertence e deve estar, pessoas que percebam que Portugal é um país de tamanho médio, com uma enorme Zona Económica Exclusiva, e que a economia deve reflectir isso e não o espírito do pobre (Coitadinho), com uma cultura endémica de receber esmolas dos países ricos europeus, como se fosse um mendigo nojento agarrando-se às vestes dos ricos, rastejando-se no esgoto no cu da Europa... e já agora para onde foi todo esse dinheiro que nós pagámos ao longo dos anos?


Esta plataforma cívica não precisa se inclinar para a esquerda ou direita, o que é necessário e fazê-la chegar a uma posição onde ela possa influenciar a vida pública portuguesa, fornecendo informações, para começar, e através da monitorização daqueles que estão usando o nosso dinheiro. Qual é a situação real do país? Quanto dinheiro provem de impostos? Quando compramos um bolo e 25% vai para o Estado em IVA, o que acontece com esse dinheiro? Exactamente quanto é que necessita o Ministério da Educação? Quanto se paga para a OTAN? Para quê? Quem decide? Quanto é que um Instituto gasta numa festa? Quem tomou a decisão? Com que dinheiro?

Quem são os membros das equipas nos Institutos? O que é que eles fazem? Eles são competentes? Quais são os seus currículos? Por quê é que este vereador tem uma equipe de 12 assessores? Por quê alguns deles são membros da sua própria família? Quanto do nosso dinheiro é que gastam? Em quê?

Duas palavras: Responsabilidade, transparência. Será que as pessoas nas posições que ocupam têm competência para tal? Por quê é que as pessoas ficam no trabalho até às 19,30 se o seu contrato diz que eles terminam às 17h00? Como é que aqueles falhados sem vida própria que aplicam pressão sobre os trabalhadores para ficarem no lugar além do horário terminar, fazendo-os sentir-se desconfortáveis se não o fizerem, não são despromovidos ou punidos? Por quê é que as empresas portuguesas têm descrições de cargo/posto de trabalho vagas, se é que as têm? Como é que então as pessoas podem ser responsabilizadas pelo que fazem ou não?

Porque é que o sistema de justiça não funciona de forma rápida e com o mesmo conjunto de pesos e medidas para todos?

Estas são algumas das questões que devem ser abordadas e explicadas e corrigidas. Uma nova plataforma de patriotas e especialistas reunidos para partilhar conhecimentos e fazer de Portugal um lugar melhor - e se nos esforçarmos, podemos fazê-lo num curto período de tempo. Basta ter um plano inteligente, basta implementá-lo e basta segui-lo para garantir que está a funcionar e não fica em águas de bacalhau.

Podem contar com o Pravda.Ru para este processo como um parceiro de média, e contar o autor como um colaborador que vai trabalhar de graça e com prazer para ajudar a formar a rede/plataforma, pelo menos, fazer deste país um lugar onde os seus netos possam crescer, se na verdade, eles virem alguma vez para cá.

Exijo apenas uma coisa - que quem começar com essa estupidez xenófoba sobre os estrangeiros que não têm direito à sua opinião, então que essas lorpas me reembolsem os milhões de euros investidos na economia portuguesa com o meu trabalho duro nos últimos 30 anos.

Timothy Bancroft-Hinchey
Pravda.Ru
Director and Chief Editor
Portuguese version

 

jornalpravda@gmail.com

Tradução J. D. Leão

 

 


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