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Ora agora governo-me, eu. Ora agora governas-te, tu…

02.01.2008
 
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Ora agora governo-me, eu. Ora agora governas-te, tu…

Se dúvidas ainda houvessem, os factos recentes, sobre a dança de cargos administrativos no BCP e na CGD, dissipam-nas por completo. Tais acontecimentos demonstram à exaustão a pouca vergonha que se instalou, qual praga, no sistema político partidário português. Nesse sentido, a crise de liderança no Banco Comercial Português, o maior banco privado do mercado doméstico, está paradoxalmente a ter um efeito positivo.

Põe em evidência a promiscuidade há muito existente entre o sector bancário, e não só, e o chamado Bloco Central (PS e PSD ), que alguns opinion makers da nossa praça a dão como uma “normalidade” em Democracia.

A crise de liderança no BCP estala quando Paulo Teixeira Pinto, Presidente Executivo, resolve “destronar” o velho líder e seu Padrinho, Jorge Jardim Gonçalves, fundador do banco e Presidente do Conselho Geral, apoiado por um grupo de accionistas descontentes com a liderança de Jardim, em que se destaca o empresário madeirense Joe Berardo . Do nosso ponto de vista porém, a razão fundamental da contestação deveu-se à falta de resultados expectáveis e consequentemente, à perda de confiança na direcção do banco.

Vieram depois as denúncias de ilegalidades: perdão de dívidas e a compra de acções próprias via off-shore , que corroboram a acusação de uma gestão ruinosa. Em consequência, os responsáveis estão demissionários e sob a alçada de investigação da CMVM , Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, e do Banco de Portugal, tendo este último determinado que nenhum dos administradores do BCP , desde 1999, pode voltar a exercer funções de gestão no banco.

A crise do BCP , que se arrasta há meses, está a orientar-se para uma solução política de sentido partidário, o que, do nosso ponto de vista, não se encaixa no conceito clássico de um banco privado. Todavia todos os arranjos são hoje possíveis, numa época em que a honra e os princípios éticos pertencem à arqueologia… Há contudo quem aponte uma orientação supra-partidária conotada com a disputa tradicional entre a Opus Dei e a Maçonaria, acusando esta de estar prestes a substituir a primeira no comando do banco. Será?

Já se sabia dos “tachos administrativos” que o Partido Socialista e o Partido Social-Democrata dividem entre si e entre os seus apaniguados mais sonantes, uma clientela partidária que, em grande parte, deve a carreira “profissional” à política. Não se tinha porém um conhecimento público tão descarado, como agora, quando o líder social-democrata, Luís Filipe Menezes, reclamou para o seu partido, desabridamente na Comunicação Social, um “poleiro administrativo” na Caixa Geral de Depósitos, o Banco do Estado.

Alegou a favor da sua reivindicação que no tempo em que o actual Presidente da República, Cavaco Silva, foi 1º. Ministro, o cargo máximo daquele banco foi entregue a uma destacada figura do PS. De facto “mais vale sê-lo, do que parecê-lo”… Deixou ainda no ar a ideia de que só desta forma está garantida a isenção partidária do Governo. Agora percebemos o conceito do Estado mínimo… Um Estado que serve apenas os interesses de meia dúzia…

A crítica de Luís Filipe Menezes, longe de ser uma sincera confissão política, exprime a promiscuidade em que navega uma certa classe política, que de tão desavergonhada já nem se resguarda da fama e da imagem que tem junto do povo: “eles querem é tacho!”. E assim parece de facto.

“Quem não chora, não mama”, diz com propriedade o dito popular. Bastou o líder do PSD “choramingar” pelo “tacho” para um dos seus pares e logo o Ministro das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos, não se fazer rogado, apesar de o negar… Nomeou para Presidente da CGD outro Fernando: Faria de Oliveira, militante do PSD e ex-ministro de Cavaco Silva. Evidentemente que tal escolha não é um acaso. Trata-se de uma indisfarçável partilha de “tachos” no quadro de um “pacto de regime” há muito firmado entre os dois maiores partidos.

Entretanto migra para a administração do BCP , a direcção da CGD: Carlos Santos Ferreira e Armando Vara, ambos da área do Partido Socialista, sendo este último, um homem de mão do incansável 1º. Ministro José Sócrates. De uma cajadada… o actual Governo mantém um pé na CGD e coloca o outro no BCP , garantindo, segundo alguns especialistas, o “tráfico de influências” em praticamente toda a banca. Estão pois assegurados os “tachos” actuais e os futuros… além, claro, dos bons negócios sob o beneplácito do Estado.

Por outro lado, ao contrário do que se podia esperar, os principais accionistas do BCP , habitualmente alérgicos a qualquer influência tutelar do Estado, não estão preocupados com a presença de duas figuras conotadas com o PS no Conselho de Administração. Naturalmente contam com a “indiscrição técnica e profissional” daqueles ex-administradores da CGD. Trata-se de um importante concorrente que importa reduzir a sua influência no mercado, pelo que com propriedade alguém já chamou a esta operação de uma “OPA sobre os segredos da CGD”.

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