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Moçambicanos: habitantes ou cidadãos?

19.09.2008
 
Pages: 123
Moçambicanos: habitantes ou cidadãos?

Em meio ao debate moçambicano, vítima da nudez intelectual e preconceito político-ideológico, posso parecer herético e reaccionário-oposicionista, ao afirmar que, no nosso país, superabundam habitantes que cidadãos. Meu argumento básico surge da supernotável diferença comportamental entre habitantes e cidadãos. Moçambique tem um pouco mais de 20 milhões de habitantes. Isso não pressupõe que tenha, em essência, igual número de cidadãos, porém. Este texto tenta falar dos comportamentos vegetacionais dos habitantes moçambicanos, descaminhados do agir ético de cidadãos.

Exemplo: O voto inescrúspulo que as “bases” da FRELIMO, em Maputo, ofereceram a David Simango, em detrimento de Eneas Comiche e o afastamento político-selvático de Davis Simango a candidato da RENAMO, na Beira, para as autárquicas de Novembro próximo, prova o quão habitantes são as “bases” partidárias e os políticos moçambicanos. Assim, com superabundância de habitantes, Moçambique é antónimo de liberdade...


Primeira descida
Desçamos, com calma! Até hoje, ainda que não recorra à frescura dos mantos da divinizada academia secular, nada torna proibitivo afirmar que habitante tem, em princípio, ligação intrínseca com um dado biológico: nasce, cresce, alimenta-se, reproduz e morre. E, não fica por aí. Acumula, igualmente, comportamentos vegetacionais: vegeta, maquina pensamentos depravados e, por consequência, executa-os, inescrupulosamente.


Contudo, cidadão, para além dos atributos biológicos de habitante (menos, regra geral, o de vegetar e o de maquinar pensamentos depravados e, por consequência, executá-los inescrupulosamente), tem consciência de seus direitos e deveres, participando racionalmente, numa base ética, das decisões e do desenvolvimento de seu meio familiar, interpessoal, comunitário, nacional e internacional.


Embora perceba e reconheça a existência de “classes cívico-biológicas”, que intermediam habitantes e cidadãos, não farei o tratamento devido, nestes parágrafos. Fica, possivelmente, a minha dívida, para liquidá-la em próximas maquinações intelecto-cidadãs. Apenas, quero, aqui e agora, tratar dos dois extremos: habitantes e cidadãos.


Posto isto e a título exemplificativo-indagatório, um deputado toscanejador e bocejador, em plena sessão parlamentar, que até chega a esquecer o seu círculo eleitoral, é deputado-habitante ou deputado-cidadão? Tripulantes que, propositadamente, deixam a música ao som alto, causando problemas ao sistema nervoso dos passageiros, são tripulantes-habitantes ou tripulantes-cidadãos? As atitudes de dilapidação do Estado, praticadas pela maioria dos governantes de Moçambique, desde o ano da Independência Nacional, até aos dias que correm, mostram que eram ou são governantes-habitantes ou governantes-cidadãos? Justiça e Juizes que, em plena sessão de julgamentos, julgam os réus, numa base preconceituosa e injustiçam os pobres e fracos, são juizes-habitantes ou juizes-cidadãos?

 Presidente da República que, para deslocar-se, em missão de trabalho, até 75 quilómetros de sua residência oficial, aluga helicópteros (já é conhecido o défice orçamental de Moçambique), é presidente-habitante ou presidente-cidadão? Um casal de namorados que, sempre e sempre, em fins-de-semana ou tempo de passeio, encontra-se para estar em um restaurante ou lanchonete para comer, alcoolizar-se ou tomar bebidas suculentas, e nunca vai, em nome da cidadania intelectual e cultural, a uma exposição artística, museu, publicação de um livro ou nunca lê é casal de namorados-habitantes ou namorados-cidadãos? Continuo a apelar à calma!


Por que são habitantes?
Há, no parágrafo supramencionado, seis perguntas, inevitavelmente. A cada pergunta aplica-se a mesma resposta: não são cidadãos. O deputado, os tripulantes, os governantes, os juizes, o presidente da República e os namorados são habitantes, certamente, por não reunirem os requisitos atitudinais e comportamentais de um cidadão (para se ser cidadão não basta ter nascido e ter uma casa de alvenaria, viaturas, perfumes, gravatas, nível superior, escritório, cadeira giratória e mais; é preciso, no mínimo, ter valores espirituais e éticos, respeitar o semelhante na mesma proporção que desejamos ser respeitados; respeitar os bens colectivos e as leis republicanas, defendendo sempre o bem-estar de todos e tudo que pauta pela ética; investir no conhecimento e na leitura de fenómenos, visitar as casas artísticas, musaicas, livreiras e espirituais). Abaixo, estende-se alguma fala sobre comportamentos vegetacionais de habitantes.


Detenha-se nas definições “habitante” e “cidadão” e compare seus comportamentos, no dia-a-dia. Ao fazer isso, é muito fácil concluir que aquelas seis categorias exemplificativas são encostáveis à figura de habitantes e não de cidadãos (regra geral, países que congregam mais habitantes que cidadãos são mais pobres ou empobrecidos do que os que congregam cidadãos. Os habitantes, sempre que ensaiam pensar, pensam curto. Coloco abaixo cinco exemplos:


Exemplo 1: Vejam os Planos de Acção para a Redução da Pobreza Absoluta, em Moçambique, que são desenhados para um quinquénio, apenas. O que mudam, realisticamente?

Exemplo 2: Vejam a miserabilidade e nudez cívica, patriótica e intelectual da maioria deputados “eleitos” pelos seus partidos – no parlamento moçambicano só vegetam, bocejando e toscanejando.

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