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Brasil: Uma explicação necessária

31.03.2016
 
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No Brasil não há grupos ou partidos de direita organizados e operando de maneira coordenada, esta é uma propaganda falaciosa desencadeada pela presidente da República e amplamente difundida pelo Partido dos Trabalhadores (PT) visando a caracterizar a repulsa pelo atual governo federal como ação de golpistas de extrema direita.

Iraci del Nero da Costa *

Já os partidos de oposição ao governo central, que não é de esquerda diga-se desde logo, estão divididos internamente e não conseguem elaborar um programa capaz de mobilizar o povo e os políticos em torno de uma plataforma política apta a resolver os problemas defrontados pela nação.

O governo federal foi empolgado por elementos do PT que abandonaram seus antigos postulados de esquerda e não aplicaram um projeto consistente de mudanças estruturais com as quais haviam se comprometido quando da formulação de suas propostas iniciais. O primeiro mandato presidencial de Luiz Inácio da Silva saiu-se relativamente bem impulsionado pelas exportações de bens primários, sobretudo para a China. Calcado em tal comportamento, que se mostrou efêmero, o presidente da República proporcionou, efetivamente, a melhora das condições de vida da população mais pobre, mas não dedicou atenção ao necessário processo de interação industrial com o restante do mundo; em face disso, já no governo de Luiz Inácio da Silva, a indústria brasileira passou a retrair-se.

O governo da presidente Dilma Rousseff tentou enfrentar a queda das exportações  efetuadas pelo Brasil com base no financiamento fácil, chamando o povo a endividar-se sem qualquer atenção para nosso desenvolvimento sustentado; a indústria retraiu-se ainda mais e as exportações, afetadas pelo declínio das compras chinesas e pela queda dos preços dos bens primários, também passou a comportar-se de maneira a não propiciar os ganhos fiscais necessários à continuidade da política assistencialista de seu antecessor. O desemprego acelerou-se e agora já atinge o setor de serviços; enfim, nenhum plano de recuperação econômica e ampliação industrial viu-se implementado. O governo federal pretendeu aumentar impostos impopulares, mas, como não conseguiu convencer os deputados federais e senadores, sua única ação foi a de distribuir cargos e empregos para tentar manter uma maioria parlamentar que não lhe é de todo favorável e não aprovou o desejado aumento de impostos. A parcela da população menos privilegiada que havia sido beneficiada pelo governo de Luiz Inácio da Silva passou a perder ganhos e empregos.

Por outro lado, o governo federal, desde o primeiro período de governança do PT, distribuiu cargos para seus militantes e permitiu que a corrupção aumentasse em grau alarmante. O episódio conhecido como "mensalão" levou à prisão expressivo número de dirigentes petistas; a Petrobras - uma das maiores companhias petrolíferas do mundo - foi apoucada e ali instalou-se um núcleo de corruptos que a fizeram perder bilhões de reais. Enfim, não há governo nem oposição de qualidade. A presidente choca-se com seu próprio partido (PT) e sofreu duras críticas do próprio ex-presidente Luiz Inácio da Silva que ainda pretende voltar à presidência da República em 2018; no entanto, como anunciam as pesquisas efetuadas junto ao eleitorado, ele perderia as eleições caso elas fossem realizadas no momento presente.

A inflação viu-se aumentada e fugiu do controle do governo, a meta anual é de 4,5% (admitido um máximo de 6,5%), pois bem, no ano de 2015, a inflação atingiu 10,67% tendo alcançado nestes últimos doze meses um grau ainda maior. É este o quadro básico no qual nos vemos engolfados no momento; como avançado acima, contamos com um governo inoperante e com uma oposição fracionada e incapaz de apresentar propostas que possam nos deslocar da posição crítica na qual nos encontramos.

Seria necessário cortar os gastos do governo, efetuar reforma tarifária, fiscal e previdenciária bem como sanear as empresas públicas e efetuar aplicações infra-estruturais sobretudo nas rodovias, ferrovias (praticamente destruídas), hidrovias e nos portos de sorte a baratear nossas exportações tornando-as mais competitivas. Os bens industrializados precisariam conhecer a aplicação de novas tecnologias e um rebaixamento de impostos de sorte a tornarem-se igualmente competitivos. Enfim, impõem-se reformas de base indispensáveis a recuperar a indústria e o comércio, impulsionar a educação, as atividades trabalhistas e favorecer a exportação de bens primários e secundários. Nada disso está sendo encaminhado e, pior ainda, nenhuma das reformas e dos empreendimentos necessários está sendo planejado.

Ademais, da perspectiva política, vivemos um período absolutamente conturbado uma vez que estamos em meio aos procedimentos legais que podem culminar com o impeachment da presidente da República o qual vê-se apoiado pela maioria da população; assim, de acordo com a última pesquisa realizada - divulgada neste 20 de março - 68% dos eleitores mostraram-se favoráveis ao afastamento da presidente, sendo que tão somente 27% são contrários ao seu impedimento; quanto à avaliação da gestão de Dilma Rousseff, 69% a consideram ruim ou péssima enquanto apenas 10% a tem como ótima ou boa. Reforçando tal situação crítica, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), o maior apoiador do governo federal, resolveu, aos 29 de março, abandonar a base aliada da presidência da República.

 

* Professor Livre-docente aposentado da Universidade de São Paulo.

 


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