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De Getúlio a Lula, frases de um Presidente

30.12.2016
 
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Quando o gaúcho Getúlio Vargas, nascido em São Borja, se matou com um tiro no peito em 1954, no Rio de Janeiro, o pernambucano Lula, nascido em Caetés, ainda não era conhecido por este apelido e tinha 9 anos e se chamava apenas Luís Inácio da Silva.

Além de terem sido os presidentes do Brasil mais populares de sua história, os dois têm em comum uma habilidade política que nenhum outro político brasileiro mostrou até hoje e um repertório de frases incomuns.

Getúlio, segundo ele mesmo dizia, era capaz de transformar um inimigo político de hoje num futuro correligionário amanhã e disso deu provas várias vezes em seu mandato.

Homem da fronteira, criado nas lides do campo, foi buscar no seu passado a melhor imagem para definir a paciência qual se deve tratar as questões políticas:

"Política é esperar o cavalo passar"

Chegou à Presidência em 1930 a frente de um movimento militar que representava as aspirações nacionalistas da oficialidade jovem do exército, contra o domínio dos conservadores paulistas e mineiros, mas logo conseguiu convencer seus antigos adversários, chamados pejorativamente de "os carcomidos", que era a pessoa mais indicada para dar ao País uma estabilidade política que iria garantir a continuidade de seus grandes negócios.

Agradou e desagradou sucessivamente aliados e adversários, jogando com as vaidades e o apetite de poder de cada um deles, para se manter no comando do País durante 15 anos. Flertou com o fascismo italiano e até mesmo com o nazismo alemão, mas acabou levando o Brasil a uma aliança com os Estados Unidos para combater as potências do Eixo.

Mas nada era feito sem uma contrapartida. Para o apoio aos americanos, cobrou investimentos que permitiram a construção de Volta Redonda.

Usava o poder da Presidência para conquistar as metas que se propunha, mas nunca se soube de que tirasse proveito pessoal do seu cargo, embora o mesmo não se possa dizer de outros componentes do seu governo e os amigos a quem protegia.

"Aos amigos tudo. Aos indiferentes, a lei. Aos inimigos, os rigores da lei"

A política econômica atendia os interesses das oligarquias rurais brasileiras, mas isso não impediu que Getúlio montasse as bases do desenvolvimento industrial brasileiro e desse ao trabalhador brasileiro o primeiro conjunto de leis que lhe garantiu a existência com uma dignidade até então desconhecida.

Embora fosse uma unanimidade junto ao povo brasileiro, as elites nunca confiaram muito nele, nem ele, nelas.

"Eu sempre desconfiei muito daqueles que nunca me pediram nada. Geralmente os que sentam à mesa sem apetite são os que mais comem".

Foi derrubado em 1945 pelos mesmos generais que promovera durante seus quinze anos de governo, mas voltou cinco anos depois, quando numa manobra política de mestre, conseguiu o apoio dos dois partidos que criara, o PTB, representando os trabalhadores, e o PSD, dos conservadores mineiros e os coronéis nordestinos, isolando seus adversários abrigados na UDN.

"As vezes vencer é saber esperar"

A manobra se completou com a cooptação de Adhemar de Barros, governador paulista, com quem se comprometeu a apoiá-lo na eleição seguinte, conseguindo com isso neutralizar as resistências de São Paulo, um lugar sempre hostil a Getúlio.

O PSD, embora tivesse candidato próprio, Cristiano Machado, votou ao lado de Getúlio. A traição ao seu candidato próprio deu origem inclusive ao neologismo político "cristianizar", para identificar as situações onde um partido abandona o seu candidato oficial.

Justificava sua perseverança na busca de novas conquistas políticas com uma frase também de origem rural.

"Quem não aguenta o trote, não monta o burro".

Possivelmente por ser um homem já velho - tinha 68 anos quando chegou novamente a Presidência - (a idade média dos brasileiros era bem menor do que hoje) já não tivesse tanta paciência com os políticos e fez um governo nacionalista de poucas concessões à alta burguesia e ao capital internacional

A prova que Getúlio não tinha muitas expetativas de apoio de seus aliados é sua frase sobre o ministério que organizara para governar:

"No Ministério tem gente capaz, o problema é que a maioria é capaz de qualquer coisa"

No fatídico agosto de 1954, a popularidade de Getúlio estava em baixa, com acusações diárias de que dava guarida a corruptos no seu governo. Carlos Lacerda dizia na Tribuna da Imprensa que "corria um mar de lama nos porões do Palácio do Catete".

Para fugir à deposição por um golpe de estado, tramado inclusive por alguns de seus antigos aliados, Getúlio se suicidou no dia 24 de agosto, com um tiro no peito.

Mesmo morto, foram as frases que escreveu na carta testamento que mudaram a ordem das coisas e impediu a consumação do golpe.

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"Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história".

Lula, do líder sindical do ABC paulista durante o regime militar conquistou o apoio da esquerda ligada à Igreja Católica e a simpatia da mídia paulista que via nele uma cópia possível de Lech Walesa, o líder sindical fundador do sindicato Solidariedade e que depois chegou à presidência da Polônia.

No início, Lula gostou da comparação, mas depois mudou sua opinião sobre Walesa,

"Ele é um pelegão"

Lula elegeu-se deputado federal e por três vezes tentou sem sucesso à Presidência, derrotado por Collor e FHC duas vezes, quando concorreu numa aliança com partidos de esquerda. Na quarta tentativa, avisou que concorreria somente se pudesse mudar a política de alianças. Ganhou o apoio do empresário mineiro José Alencar e dos evangélicos ligados ao PL e derrotou José Serra, levando a bandeira do PT para Governo.

Lula explicou a aliança com Alencar

"Nós somos como Romeu e Julieta"

Apesar da ameaça dos empresários de haver uma debandada em massa dos capitais do País se ele ganhasse as eleições, fez um governo que promoveu um grande desenvolvimento econômico do País e no final se reelegeu facilmente, agora com o apoio de empresários e trabalhadores.

Quando tomou posse, disse qual era a sua principal meta de governo:

"Se no final de meu mandato cada brasileiro puder comer três vezes ao dia, terei cumprido a missão de minha vida."

No seu segundo mandato continuou na sua política desenvolvimentista, gerando empregos para os trabalhadores e grandes negócios para os empresários.

Quando mais uma crise cíclica do capitalismo ameaçou as economias do mundo inteiro, fez uma frase pela qual é cobrado até hoje.

"Lá, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai ser uma marolinha, que não dá nem para esquiar".

Sua liderança política era tão inconteste, que como Vargas havia feito em 1945 promovendo a eleição de um quase desconhecido general - Eurico Gaspar Dutra - bancou a candidatura de uma figura também quase desconhecida da política - Dilma Rousseff - para a sua sucessão.

"Em 2010, o governo federal estava com uma aprovação tão extraordinária, que eu elegeria qualquer pessoa que eu indicasse nesse país".

Na primeira reunião que teve com Dilma Presidente, Lula fez uma frase de apoio à nova presidente:

'A bola está com senhora, Dona Dilma. Monte seu time que eu estarei na arquibancada, de camisa uniformizada, sem cornetear, batendo palmas e nunca vaiando",

Quando o governo Dilma começou a fazer água, usando a mesma linguagem futebolística de que ele gosta tanto, poderíamos dizer que Lula ameaçou jogar a Dilma para escanteio, ao criticar sua política de ajuste fiscal e a falta de ação do governo no campo social.

"Tem uma frase da companheira Dilma que é sagrada: Eu não mexo no direito dos trabalhadores nem que a vaca tussa. E, mexeu". 

Hoje, já se fala abertamente numa nova candidatura de Lula à Presidência em 2018. Getúlio voltou do ostracismo da Fazenda de Itu para o Governo. Quem sabe, Lula não possa deixar de ser o perseguido pela "República de Curitiba" e voltar ao Planalto?

Mais de uma vez, nos últimos meses, Lula tem dito que não quer, mas que pode sim ser candidato a Presidente.  Ao lembrar que, durante as secas do sertão, foi alimentado com o fruto do umbu, fez uma frase para mostrar sua disposição de luta.

"Eles não sabem que fui criado com umbuzada. E quem comeu umbuzada é duro de morrer antecipadamente e muito menos morrer pela vontade dos outros"

Getúlio dizia que não havia inimigo que não pudesse se transformar num amigo. Lula faz melhor. Numa visita a Israel em 2010, ele afirmou:

"Eu acho que o vírus da paz está comigo desde que estava no útero da minha mãe. Não me lembro o dia que briguei com alguém".

Marino Boeira é jornalista, formado em História para UFRGS

 


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