Pravda.ru

CPLP » Brasil

Bush, Lula e a embriaguez do etanol

29.03.2007
 
Pages: 1234

O governo dos EUA tem muita pressa. Ele inclusive já aprovou um plano deredução em 20%, num prazo de dez anos, do consumo de petróleo e pretende elevar de 5 bilhões de galões por ano para 35 bilhões o consumo de biocombustíveis, como o álcool. “Aprecio o fato de a energia vir da cana-de-açúcar, o que dá ao Brasil grande vantagem. Aprecio a inovação que acontece no Brasil. Vocês são os líderes no álcool. Acredito que vocês continuarão a descobrir novas tecnologias, que serão úteis para outras pessoas”, disse Bush, talvez pensando nos milhões de usuários de automóveis existentes nos EUA.

Já o governo Lula de há muito está obcecado pela idéia dos biocombustíveis. Para o presidente, esta fonte alternativa de energia será decisiva para a solução dos nossos problemas econômicos e sociais e poderá tornar o país uma potência energética. “A estreita associação e cooperação entre os dois líderes do etanol possibilitará a democratização do acesso à energia. O uso dos biocombustíveis será uma contribuição inestimável para a geração de renda, a inclusão social e a redução da pobreza”, garante o ex-sindicalista, que alterou sua opinião sobre o papel dos “bandidos do agronegócios” – como se nota nas citações acima.

Cinco perigos do etanol

Este otimismo com a descoberta de novas fontes de energia não se limita aos integrantes do governo Lula e nem aos barões do agronegócios. A substituição do petróleo por fontes renováveis é uma velha bandeira das entidades ambientalistas. “O fim da queima dos combustíveis fósseis é, por si só, uma boa nova para a humanidade e para a atmosfera da terra: é uma oportunidade para reduzir o aquecimento global... Os biocombustíveis surgem como alternativa não só mais limpa, mas também capaz de promover a justiça social”, explica um equilibrado e bastante crítico estudo da ONG Núcleo dos Amigos da Terra.

Além disto, a possibilidade de o Brasil se tornar uma potência no uso desta nova fonte de energia também abre uma “janela de oportunidades”, o termo da moda, para o país se desenvolver e encarar os seus graves e crônicos problemas sociais. O desenvolvimento dos biocombustíveis teria, potencialmente, a capacidade de alavancar o crescimento da economia nacional, gerando empregos e renda. Mas tudo isto é apenas uma possibilidade. É preciso não se embriagar com o etanol, este rico derivado do álcool. Uma visão idílica do assunto pode queimar a língua dos otimistas no futuro. Os riscos desta nova fonte de energia são enormes.

Ambições imperialistas dos EUA

Em primeiro lugar, é preciso não esquecer os ambiciosos interesses dos EUA no “ouro verde”. A potência imperialista não está interessada no desenvolvimento nacional, como atesta sua rejeição a qualquer queda das barreiras protecionistas. O que almeja é abocanhar este rico produto, seja copiando a nossa tecnologia, comprando as nossas terras e usinas, pagando preços irrisórios pelo nosso álcool ou degradando os nossos recursos naturais – os EUA destruíram suas reservas naturais em apenas quatro séculos, enquanto o Brasil ainda está longe de tê-las esgotado. A produção ianque do etanol com base no milho é menos rentável e não garante a execução do seu plano de redução do petróleo. Daí sua sanha para abocanhar nosso etanol.

Como alerta o professor Bernardo Kucinski, “os governos americanos não são confiáveis para nenhuma parceria porque descumprem sistematicamente as suas promessas depois de obter o que querem. Nos anos 50, levaram nosso urânio e tório com a promessa de compensações específicas em tecnologia nuclear, que nunca vieram; prometeram à Coréia do Norte o petróleo em troca do desmonte de seu programa nuclear, mas o petróleo não foi entregue; até hoje não cumpriram a determinação da OMC de desmontar os seus subsídios agrícolas. Os EUA dependem agora de forma determinante de energia importada... Querem o nosso etanol, mas sem anular as sobretaxas que viabilizam a produção do etanol também nos EUA”.

Concentração da propriedade rual

Em segundo lugar, dependendo da forma como os tais “biocombustíveis” forem produzidos, eles servirão apenas para reforçar a histórica e absurda concentração de terras no país. O ciclo da cana no Brasil, desde o século 18, sempre foi marcado pela escravidão dos trabalhadores e pelo aumento do poder do latifúndio – que hoje concentra 56% das terras agricultáveis. Diante da expectativa do etanol virar uma commodity, já se observa uma intensa movimentação para compra de terras. Investimentos pesados estão projetados, indicando que o país poderá ganhar, em média, uma usina de álcool por mês nos próximos seis anos.

Recursos financeiros não faltarão, inclusive do banco estatal BNDES, que anunciou há dias a liberação de “até R$ 10 bilhões do montante necessário para a instalação das novas unidades”. O restante do dinheiro deverá vir da iniciativa privada nacional e internacional, além das agências multilaterais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Japan Bank for International Cooperation. Reportagem da revista patronal Forbes, de fevereiro último, intitulada “álcool atrai novos empreendedores”, confirma a perigosa tendência do aumento da concentração de terras no Brasil em decorrência da “febre do etanol”.

Pages: 1234

Loading. Please wait...

Fotos popular