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Os comunistas, hoje

25.09.2016
 
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O sentimento de repúdio ao PT, introjetado na classe média brasileira por uma forte ação dos veículos de comunicação, não tem consistência para resistir a uma simples análise sociológica. Ele é inteiramente irracional nos seus objetivos, mas suas origens podem ser desvendadas facilmente na medida em que se reconheça o processo desenvolvido pela mídia para ir transformando o sentimento que, inicialmente era de solidariedade a um partido cujas bandeiras eram de representação das reivindicações populares em seu oposto, de repúdio ao seu projeto e principalmente aos seus líderes.

A palavra chave para esta mudança se chama corrupção, atribuída pela mídia ao PT como se fosse uma prerrogativa exclusiva sua e de seus membros. O interessante nessa ação sistemática da mídia em atribuir essa característica ao PT é de que há claramente uma inversão de responsabilidades nesse processo.

Os agentes da corrupção são sempre os mesmos em toda a história brasileira moderna: os grandes empresários que usam seu poder material para construir o modelo político que lhes interessa e manter seus agentes sob controle.

Mesmo que eventualmente alguns desses empresários corruptores possam ser presos, como acontece agora, eles são apresentados pela mídia quase que como vítimas da ganância dos políticos.

Nesse aspecto, os meios de comunicação cumprem seu papel institucional - alguns com mais virulência, outros de forma mais amena - de defensores do modelo de democracia formal capitalista em que vivemos.

É nesse ponto em que se situa a necessidade de destruir um partido - no caso o PT e seus líderes - pela ameaça que ele representou, ainda que de forma muito tímida, a continuidade de um sistema que é essencialmente nocivo ao povo.

Outras ameaças ao sistema foram atacadas no passado da mesma maneira, usando a bandeira da honestidade contra a corrupção. Na história recente do Brasil, foram estes argumentos os usados para pressionar o Governo Vargas, levando o seu líder ao suicídio e no processo que terminou com o golpe de 64.

Nenhum caso, porém, foi tão marcante na nossa história recente como a transformação dos comunistas nos grandes inimigos da pátria brasileira. Como hoje ocorre com os petistas, a mídia os transformou nos grandes agentes do mal.

Dois eram os argumentos principais, já que nesse caso a acusação de corrupção não se sustentaria: o comunismo era uma doutrina exótica, distante dos sentimentos cristãos e ocidentais do povo e o comunismo era contra a religião e a existência da família.

O primeiro era um absurdo conceitual, já que os comunistas se espiravam no marxismo, um sistema baseado num tripé: as ideias dos economistas inglesas, dos socialistas franceses e dos filósofos alemães, nada mais ocidental, portanto.

Segundo, os comunistas, por princípio, não incluíam a ideia de Deus na construção do mundo e da sociedade e em consequência disso, não admitiam uma religião de Estado, como temos hoje aqui, ainda que de forma disfarçada, mas por princípio democrático defendiam que cada um pudesse escolher a religião que quisesse.

Quanto à família, talvez fossem até conservadores demais.

O processo de desconstrução dos ideais pelos meios de comunicação a serviço dos interesses da grande burguesia foi tão eficiente que o Partido Comunista praticamente desapareceu como agente de influência na vida política brasileira.

Ainda que substituindo a bandeira revolucionária dos comunistas da foice e do martelo pela bandeira reformista da estrela, o PT é hoje o alvo a ser destruído, como o PCB foi no passado.

Os comunistas de hoje, para a grande mídia, são os petistas

Marino Boeira, é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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