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Michel Temer e a ojeriza popular

25.01.2018
 
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Como sabido, os políticos brasileiros em sua grande maioria assim como a parcela majoritária dos eleitos para as duas casas do Congresso Nacional (Senado e Câmara dos Deputados) são tidos pela população em geral como desprovidos de qualquer respeito pela Nação e absolutamente carentes de ética

Como sabido, os políticos brasileiros em sua grande maioria assim como a parcela majoritária dos eleitos para as duas casas do Congresso Nacional (Senado e Câmara dos Deputados) são tidos pela população em geral como desprovidos de qualquer respeito pela Nação e absolutamente carentes de ética; enfim, são vistos como aproveitadores da posição ocupada e interessados, tão somente, em tirar proveito dos recursos sobre os quais exercem poder ou influência e das benesses que possam vir a beneficiá-los mediante suas deliberações ou decorrentes de acordos com o ocupante da Presidência da República. 

Iraci del Nero da Costa *

De outra parte, é reconhecida a grande habilidade do presidente Michel Temer no trato com os integrantes do Poder Legislativo e com os dirigentes dos mais variados partidos políticos. Tal capacidade é considerada, em termos genéricos, como um alto poder de manipulação dos políticos em favor dos interesses do atual presidente da República. Segundo o Prof. Julio Manuel Pires: "Um ponto complementar em relação a essa 'competência' para lidar com os políticos é dado por um certo consenso que diz: se fosse o Lula no lugar da Dilma, o impeachment jamais teria ocorrido, pois afinal de contas, o Lula, com sua 'competência' teria conseguido 'convencer' o Congresso, como, de certa forma fez, no Mensalão. O que me incomoda nesse argumento, e que serve também em relação ao Temer, está na determinação do que consiste exatamente essa 'competência'. A meu ver, consiste, no final das contas, em simplesmente dar aos congressistas (deputados e senadores) o que eles querem, seja em termos de cargos ou liberação de verbas, nada mais do que isso. Ou seja, nos dois casos, o que temos são políticos que não têm o menor escrúpulo em entregar o patrimônio público aos políticos mais corruptos, sabendo exatamente que eles vão usar o cargo para roubar (o caso das vice-diretorias da Caixa Econômica é exemplar a esse respeito), para se manter no poder e manter sua base aliada. Assim, no meu entendimento, se a pessoa está imbuída desse propósito, como o caso de Lula e Temer, trata-se apenas de 'acertar as posições', encaixar os 'aliados' nos postos onde seja possível. Tenho muitas dúvidas se isso exige muita competência no sentido estrito do termo ou apenas falta de escrúpulo." (1)

Paralelamente, entende-se que falta a M. Temer o predicado carismático de ganhar a simpatia popular mediante um contato e uma fala que cheguem ao coração e à cabeça do eleitorado. Estaríamos, pois, em face de um ótimo articulador político quando a confabulação dá-se dentro de uma sala e, em contrapartida, de um péssimo espécime de político quando exposto abertamente à massa popular.  

Destarte, M. Temer aparece aos olhos do grande público como grande amigo de políticos - o próprio fato de haver conduzido de modo extremamente vitorioso sua dupla "absolvição" pelo plenário da Câmara dos Deputados Federais definir-se-ia como prova cabal de tal afinidade. Assim sendo, não pode ele gozar da confiança popular, ainda mais se lembrarmos algumas de suas medidas consideradas como integralmente antipopulares dadas a falta de diálogo com a população e as falhas de comunicação as quais, como dito acima, marcam indelevelmente a personalidade do presidente.    

Assim, mesmo admitindo-se as vitória do presidente quanto a medidas econômicas e políticas altamente favoráveis à nação - a superação da crise econômica recessiva, a baixa taxa de inflação situada abaixo da meta, o controle dos gastos públicos e a modesta recuperação do nível de emprego são alguns do mais relevantes exemplos de tal ação benéfica - deparamo-nos com uma altíssima porcentagem de repúdio ao presidente M. Temer e a seu governo.

Esta aparente contradição, a nosso juízo, vê-se explicada pelos parágrafos iniciais deste texto: estamos em face de um presidente contemplado como íntimo apaniguado dos políticos e absolutamente distanciado da massa popular à qual não estaria a servir. Tal fato deve ser do conhecimento de M. Temer o qual, não obstante, não pode desapegar-se dos políticos, pois deles dependem as aprovações de suas medidas e propostas de reformas, vendo-se, assim, impedido de achegar-se ao eleitorado e à população trabalhadora em geral.

Como repetido por muitos e muitos analistas sentimo-nos, ao menos por ora, obrigados a afirmar que o apanágio maior do atual governo, independentemente daqueles que dizem compreendê-lo e são seus apoiadores, é a flagrante ojeriza popular.

NOTA

1 Sem comprometê-lo com minhas opiniões agradeço a leitura crítica da versão preliminar deste texto efetuada pelo Prof. Julio Manuel Pires bem como sua contribuição que foi anexada ao texto original.

* Professor Universitário aposentado.

Foto: Por Élcio Alvares - Flickr, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=38069112

 


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