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Mortos acima de qualquer suspeita

23.07.2016
 
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Geraldo e Cláudio são amigos inseparáveis. Aposentados, podem ser vistos a partir das duas da tarde, todos os dias, na mesa exclusiva da dupla, no Bar do Cardoso. Nos últimos 30 anos, só falharam um dia. Foi no domingo passado, pois naquele dia o bar fechou devido ao recrudescimento da violência que toma conta da cidade há uma semana.

 por Fernando Soares Campos

 

Geraldo abre o jornal e lê para o companheiro:

 

- Vê essa, meu: "Já somam 107 os suspeitos abatidos pela polícia desde sexta-feira passada". 

- Suspeitos de quê?! - perguntou Cláudio

- Aqui só fala em suspeitos. 
- Mas quem são esses suspeitos? 

- Ora, eu já li isso pra você, são os mortos, meu! 

- Sei. Mas quem são os mortos? 

- Putz!, meu, você não saca uma! Quer que eu desenhe? Os mortos são os suspeitos! 

- Mas, meu, eu quero saber quem são os mortos suspeitos. 

- Fácil! São os caras que a polícia matou. 

- E esses caras têm nome? 

- Tinham. 

- Como "tinham"?

- Agora são somente números. 

- São suspeitos de quê? 

- Suspeita-se que alguns desses suspeitos participaram de um movimento suspeito, supostamente ligado ao suspeito crime organizado. 

- Mas, se depois de investigados os casos, descobrirem que alguns dos suspeitos são inocentes? 

- E daí?! 

- O que acontece com esses que já morreram? 

- O que acontece?! Ora, meu!, não acontece mais nada, os caras já morreram. 

- E a polícia está procurando novos suspeitos? 

- Claro. 

- Mas, pelo que estou entendendo, qualquer pessoa que estava na cidade, nos últimos dias, é um suspeito. 

- Não é bem assim...

- Por que não? 

- A polícia não pergunta onde o cara estava aqui nos últimos dias. 

- E se ficar provado que o morto suspeito não estava na cidade há mais de uma semana? 

- Aí o suspeito morto passa a ser apenas morto. 

- Hein?!! 

- Torna-se um morto acima de qualquer suspeita.

 

***

 

Esse conto foi escrito em maio de 2006, inspirado em fatos reais, que ficaram tristemente conhecidos como "O Massacre de Maio", em que foram mortos, principalmente, jovens negros, moradores da periferia da Grande São Paulo. 

 

"Diz-se que, em três semanas, houve 564 mortos e a mídia menciona os policiais executados, e diz que os bandidos mortos teriam caído em confrontos com a polícia. Entretanto, um grupo minoritário de promotores e defensores públicos, fez plantão junto aos necrotérios e arriscou sua vida para provar que a enorme maioria dos mortos era de pessoas desarmadas, inofensivas, que nada tiveram nunca a ver com qualquer forma de crime, jovens entre 11 e 31 anos, que foram "apagados" pelas costas e\ou com tiros de baixo para cima, e\ou com rajadas de metralhadora, enfim, com métodos que não deixavam qualquer dúvida sobre a mão da polícia." (Trecho do artigo "O Massacre de Maio: a memória", do professor Carlos Lungarzo, 2013.)

Para ler o artigo completo, use o link: 

http://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/colunistas/o-massacre-de-maio-a-memoria/

 

Naqueles dias, enquanto a matança continuava aterrorizando a população paulistana e de cidades da região metropolitana de São Paulo, o jornal O Estado de São Paulo (Estadão) publicou reportagem com o balanço parcial do número e características das vítimas:

 

"Ainda não se sabe quem são os 107 mortos pela polícia"

 

"Na semana em que o medo tomou conta dos paulistanos, desde o início da onda de violência atribuída à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), a polícia de São Paulo matou mais pessoas que no último trimestre de 2005. Desde o dia 12, 107 pessoas foram mortas pela polícia. Nos últimos três meses de 2005, o número ficou em 65 mortos. A média diária de homicídios praticados pela polícia depois dos ataques é 21 vezes maior do que a média do ano passado. Desde o começo dos ataques, os dois Institutos Médico Legais da capital receberam 85 corpos de pessoas mortas pela policia nas ações de reação aos ataques do PCC. Destes mortos, 64 já foram reconhecidos e enterrados por suas famílias. Dos outros 21, quatro foram identificados, mas as famílias ainda não foram reclamar os corpos. Se isso não acontecer em até 72 horas, ou até que todos os corpos sejam identificados, essas vítimas podem ser enterradas como indigentes. Para os corpos que ainda estão sem identificação, será feito o reconhecimento a partir das digitais. O governo de São Paulo ainda não divulgou uma lista com o nomes dos mortos pela polícia."

Para ler matéria completa, use o link: 

http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,ainda-nao-se-sabe-quem-sao-os-107-mortos-pela-policia,20060519p27542

 

Foi essa reportagem que deu origem ao conto "Mortos acima de qualquer suspeita", que republicamos aqui para lembrar os 10 anos do Massacre de Maio e uma década de dor das "Mães de Maio", movimento formado por mães, tias, avós, parentes e amigos de vítimas do massacre.

 

Nesta semana, ocorreu o encontro do Movimento Black Lives Matter (EUA) e familiares de vítimas de violência policial do Rio e de São Paulo, com a participação de mulheres que mantêm em atividade o movimento Mães de Maio.

Assista ao vídeo desse encontro usando o link: 

https://www.facebook.com/justicaglobal/videos/1196083550422974/?pnref=story.unseen-section

 

O PSDB perdeu as eleições para presidente da República em 2002, 2006, 2010 e 2014, agora está no poder pelas mãos do atual presidente interino

  

Atualmente o Brasil vive sob o governo interino do vice-presidente Michel Temer. Apesar de ter assumido a presidência da República provisoriamente, em vista do afastamento da presidenta Dilma Rousseff, que responde a fraudulento processo de impeachment, Temer desmantelou toda a estrutura administrativa federal e nomeou seu próprio gabinete ministerial, entregando o Ministério da Justiça, ao qual está subordinado o Departamento de Polícia Federal, ao comando de Alexandre de Moraes, político filiado ao PSDB, partido cujos candidatos a presidente da República foram derrotados pela eleita Dilma Rousseff em 2010 (José Serra, atual ministro das Relações Exteriores) e em 2014 (Aécio Neves, senador, ferrenho defensor do impeachment da presidenta Dilma).

 

Informações extraídas do verbete "Alexandre de Moraes", Wikipédia:

  

Secretaria de Segurança Pública

  

Em dezembro de 2014, ele [Alexandre de Moraes] assumiu a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, prometendo o fortalecimento da legislação estadual no setor. No entanto, sua passagem como secretário foi colocada em xeque diversas vezes por conta da violência supostamente excessiva diante de protestos e atos políticos. Segundo dados levantados pela TV Globo, a Polícia Militar foi responsável pela morte de uma em cada quatro pessoas assassinadas no estado paulista em 2015.

 

Tribunal de Justiça de São Paulo

  

Ainda em 2015, reportagem do "Estado de S. Paulo" afirmou que Alexandre constava no Tribunal de Justiça de São Paulo como advogado em pelo menos 123 processos da área civil da Transcooper. A cooperativa é uma das cinco empresas e associações que está presente em uma investigação que trilha movimentações de lavagem de dinheiro e corrupção engendrado pela organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). À época, Alexandre disse, por meio de nota, que "renunciou a todos os processos que atuava como um dos sócios do escritório de advocacia" e que estava de licença da OAB durante o período investigado.

Para ler verbete "Alexandre de Moraes" completo, use o link:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Alexandre_de_Moraes

 

De onde partiu tão "brilhante" ideia tosca?

 

Na última quinta-feira (21) a Polícia Federal prendeu 10 suspeitos de planejar ações terroristas a serem executadas durante a Olimpíada do Rio de Janeiro. O ministro Alexandre de Moraes fez várias declarações à imprensa sobre esse episódio, que foi tratado com reservas por diversos órgãos de imprensa.

 

"Segundo afirmou o ministro da Justiça, Alexandre Moraes, alguns deles teriam feito um juramento online ao grupo radical islâmico, mas não houve contato pessoal com os militantes no exterior. As autoridades rastrearam as redes sociais, sites acessados e as mensagens trocadas entre os integrantes da célula por Telegram e WhatsApp. ("Polícia Federal prende 10 suspeitos de planejar ação terrorista na Olimpíada", EL PAìS, São Paulo 21 JUL 2016)

Para ler reportagem completa, use o link: 

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/07/21/politica/1469112537_834424.html

 

Entretanto, experts em segurança cibernética garantem ser praticamente impossível monitorar mensagens de texto ou voz nos aplicativos Telegram e WhatsApp, por tratar-se de sistemas criptografados. Além disso, WhatsApp não fornece as informações solicitadas pelas autoridades brasileiras, o que tem causado conflitos entre a empresa e o Judiciário, havendo casos em que juízes decretaram a suspensão dos seus serviços e até a prisão do vice-presidente do Facebook (empresa dona do WhatsApp), exatamente por negar colaboração em investigações policiais. 

 

Porém, dessa vez existe a possibilidade de o WhatsApp ter entregue ao nosso Ministério da Justiça os dados de monitoramento dos paspalhos brasileiros que se diziam simpatizantes do Estado Islâmico. pois, assim como Microsoft, Yahoo!, Google, Facebook, AOL, Skype, YouTube, Apple, PalTalk, que são empresas acusadas de colaborar com a NSA - National Security Agency (a Agência Nacional de Segurança dos EUA), através de grampos telefônicos e vigilância de atividades online, sem autorização judicial, mas apoiados pela "USA Patriot Act", a lei do pós-11 de Setembro, certamente o WhatsApp também está submetido aos ditames dessa lei.

 

A "USA PATRIOT Act", a "Lei Patriótica", é um decreto assinado pelo presidente George W. Bush logo depois do 11 de Setembro de 2001. Tal instrumento legal nos EUA permite que órgãos de segurança e de inteligência daquele país interceptem ligações telefônicas e e-mails de organizações e pessoas supostamente envolvidas com terrorismo, sem necessidade de qualquer autorização da Justiça, seja ela estrangeira ou americana.

 

Porém, esse caso dos "terroristas" que ameaçavam a segurança dos Jogos Olímpicos Rio 2016 parece tratar-se de elementos previamente manipulados e que serviram como "figurantes" de uma simulação para treinamento da Divisão Antiterrorismo brasileira nas vésperas da abertura dos Jogos Olímpicos, quando movimentos populares se preparam para grandes protestos contra o governo golpista

 

A ideia de formar o grupo entre elementos desconhecidos entre si e residentes em vários Estados deve ter tido o objetivo de deflagrar uma matéria sensacionalista de âmbito nacional, além de dificultar a identificação do(s) cabeça(s) da ideia estúpida.

 

Evidente que esses "terroristas" não passam de patos manipulados por elementos que precisavam de um factoide para apresentar à população brasileira e aos turistas estrangeiros a eficiência da Divisão Antiterrorismo do Brasil.  

 

Só resta saber de onde partiu tão "brilhante" ideia tosca.

 

***

Assista ao vídeo com trecho de entrevista com o ministro.

 

Ministro engasga com o copo d'água ao ser peguntado sobre...
COMO O SR MONITORA O TELEGRAM E WHATSAPP?

Jornalista pergunta ao Ministro Interino da Justiça, Alexandre Moraes, como o 'grupo terrorista' foi monitorado se o Whatsapp e Telegram são criptografados.

Veja a reação do ministro interino.

Use o link: 

https://www.facebook.com/fernando.campos.9277/posts/10206909932451487

 


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