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Picadeiro Brasileiro: Entre Desmando e Oportunismo

21.04.2017
 
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Despolitização, ódio, autoritarismo e oportunismo, à direita e à esquerda, permeiam todos os segmentos da sociedade, do Judiciário aos civis

Quem não se lembra do espetáculo tragicômico, bem peculiar por parte da Câmara dos Deputados quando da aprovação do impedimento da então presidenta Dilma Rousseff há um ano, que chamou a atenção do mundo negativamente?

Pois como pouca desgraça é sempre uma grande bobagem quando o país que menos lê no mundo e um dos mais discriminadores do planeta está em cena, o tempo passou e tanto a plateia, à direita e à esquerda, quanto o picadeiro político aperfeiçoam a díspar capacidade de se superar quando o assunto é despolitização, ódio, violência, desmando e muito oportunismo. 

"Passado é passado", referindo-se à ditadura militar palrou do alto do pedestal ele, Luiz Inácio quando gozava dos privilégios do poder que julgou perpétuos, valendo-se de cordiais abraços até em personagens como o senhor engenheiro, doutor Paulo Maluf e José Sarney, entre as mais pitorescas figuras da oligarquia tupiniquim sem nenhum constrangimento. 

"Aí se vai um brasileiro merecedor de três dias de luto oficial", declarou publicamente Luiz Inácio no velório do "doutor" Roberto Marinho, contra cujas Organizações Globo hoje esperneia ferrenhamente, seguido por suas multidões.

À época da filosofada oportunista do então presidente em relação aos militares, mandatário que dizia ainda, categoricamente, nunca ter sido de esquerda, discutia-se a importância de a Comissão da Verdade não apenas recontar os 21 anos de história do regime militar, como também seguir exemplos de outras nações e recomendações de diversos organismos internacionais como a OEA, a fim de julgar os criminosos militares já que crimes de lesa-humanidade não prescrevem. 

Mas uma vez no poder, bajulado pela velha oligarquia, que importância tinha se a máxima de Nicolás Avellaneda era recordada por meia dúzia de "esquerdistas radicais" no Brasil? "Povo que esquece seu passado, está condenado a vivê-lo novamente". Se não se requer ser cientista social para se ter consciência da profunda verdade contida na frase do jurista argentino de saudosa memória, não é que o castigo dos "moderados" veio a cavalo?

Ainda no picadeiro político, saindo da torrente à la Rio Tietê à "esquerda", o excesso de desmando e ódio bem peculiar à direita está personalizado em Sérgio Moro e sua Lava-Jato que o que menos faz é promover justiça, mas sim arrancar mais uma série de assombro internacional pelo caráter politiqueiro e, consequentemente, autoritário para poder alcançar seus objetivos.

Na plateia à esquerda e à direita, o show de comédia trágica abunda diariamente, e só aumenta com o passar do tempo.

No primeiro caso, por 13 anos patrulhou a crítica nervosamente apresentando ataques esquizofrênico-democráticos cada vez que - especialmente quando Luiz Inácio gozava de ampla popularidade - a sociedade era criticada pela despolitização e inércia - um alerta pelo que certamente viria, o que se fez questão de ignorar já que o poder pelo poder era o limite -, bem como alianças e práticas políticas do PT que incluíam injeção de milhões de dólares na grande mídia como nenhum governo jamais fizera, banqueiros que lucraram como nunca antes em uma economia artificial, crescentemente financeirizada que cada vez menos produzia, e evasão de divisas também inédita que nem Fernando Henrique Cardoso fora capaz de presentear ao capital estrangeiro. 

Pois hoje este mesmo setor não apenas aplaude alegremente estas mesmas críticas à sociedade brasileira, como hipocritamente as toma a iniciativa de fazer. Critica duramente - com toda a razão - personagens como Henrique Meirelles, apenas "se esquecendo" de que este ser foi parte do governo "de esquerda" do mesmo PT que abraçou o hoje demonizado Michel Temer - pois no poder, os petistas demonizavam os "esquerdistas radicais" que demonizavam Temer aliado de Dilma: pouca hipocrisia? Eis uma pequena parte do patético espetáculo tupiniquim.

Já o setor à direita da plateia, velho espetáculo à parte, hoje no auge da histeria justiceira: sua "nata intelectual" esbanja, entre termos e a própria construção da língua portuguesa ridículos enquanto de julgam seres de elevado valor cultural, o tradicional festival de ódio, discriminação e intolerância. 

Sem noção nenhuma do ridículo a que se presta, tal setor anda agora rotulando até a Rede Globo de comunista (!) por minissérie televisiva crítica aos anos de regime militar; a cara-de-pau e o show de despolitização e ignorância - marcas registradas mesmo entre sua considerada "elite intelectual" - dão-se da apologia á violência contra toda e qualquer diferença de ideias (a derrubada da ex-presidenta Dilma não se deu, no discurso desta ala, em defesa da liberdade de pensamento político, de expressão garantidos na Constituição, e da democracia?) à crítica do que historicamente seus palhaços no picadeiro praticaram, e hoje no poder seguem praticando.

Condenam a ex-presidente Dilma por corrupção (até hoje não comprovada) enquanto fazem vistas grossas a todas as evidências de que Michel Temer é corrupto, tendo recebido milhões em propinas. 

Não esboçam a mesma indignação quando se aponta que o Mensalão começou com o PSDB em Minas Gerais, nem diante do fato mais que evidente que o Congresso que derrubou Dilma, sim, é comprovadamente corrupto. 

Esbanjam moralismo seletivo ao não reprovar a compra da reeleição de Fernando Henrique Cardoso junto ao Congresso, a crise de 1999 promovida por este, a privataria que se desfez a preço de banana nossas riquezas naturais e enriqueceu seu bolso, e os desmandos, o fracasso administrativo e os escândalos de corrupção envolvendo José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves.

Batem no PT mais que em Judas em Sábado de Aleluia por excessivos gastos, incluindo o Bolsa Família enquanto não apenas "se esquecem" que o próprio Aécio Neves, candidato reacionário à presidência em 2014, havia afirmado que o manteria se vencesse as eleições. Se se relembra que o Bolsa Família do PT é criação de Fernando Henrique, aperfeiçoada e com o nome modificado (Bolsa Escola), não se demonstra a mesma indignação pela "irresponsabilidade" dos "gastos contra vagabundos", especialmente "vagabundos nordestinos".

Desconsideram ainda que o Brasil hoje com Temer, que tanto afirmaram que superaria as crises econômica e política, as quaism piora dia a dia, gasta com juros da dívida oito vezes mais que com saúde pública, por exemplo (o que não era diferente nos anos neoliberais de Lula e Dilma).

Enfim, que esperar de um setor que se simpatiza com figuras como Jair Bolsonaro, e que caiu teimosamente no engodo Eduardo Cunha - sem demonstrar nenhum arrependimento hoje?

A Lava-Jato é uma operação evidentemente política, mas embora se esteja tentando, o que não é nenhuma novidade no Brasil, criminalizar setores à esquerda, é um grande equívoco de uns, e descarado oportunismo de outros embarcar a cúpula petista nesta luta direita-esquerda. 

Luiz Inácio é, sim, vítima de discriminação por ser nordestino e originário da roça. Assim como Dilma, por ser mulher em uma sociedade altamente machista. Ambos têm ainda hoje sofrido perseguição sistemática da grande mídia, da "Justiça" e da própria sociedade brasileira, altamente elitista em todos os segmentos (a grande desgraça brasileira é que se conseguiu transformar até pobres em seres reacionários).

Mas setores "à esquerda" têm descoberto a pólvora e se dado conta de que o Brasil possui uma economia neoliberal, que o saneamento básico e a moradia do país são uma tragédia, além de uma sociedade sem educação minimamente satisfatória, altamente despolitizada e uma mídia inescrupulosa, completamente desregulada: Temer é apenas o estágio mais avançado das políticas oligárquicas, herdadas de seus antepassados todos. Porém, em grande medida tudo isso, outrora combatido (i.e., quando Luiz Inácio e Dilma estavam no poder) é tratado como grande novidade.

O que está em questão envolvendo o PT é a velha briga de cachorro grande pelo poder, neste sistema de Partido Único cuja máscara democrática já caiu há muito tempo e apenas os mais ingênuos e irregeneráveis insistem em não enxergam.

A cúpula do Partido dos Trabalhadores não se regenerou pós-farra nos porões do poder, e algumas evidências disso são a aliança a nível municipal, estadual e nacional que tem feito, desde que Dilma caiu, com o próprio PMBD que a derrubou.

E a evidência de que, de volta ao poder nacional em 2018 não se diferenciará do regime oligárquico e neoliberal que o marcou por 13 anos, é que nas entrevistas que Lula e Dilma concedem não tem nada mais a oferecer como solução ao país que a retomada do poder. Não há autocrítica e, por isso mesmo, não há projetos que não sejam vencer as eleições.

Eis a cara de uma "esquerda" brasileira historicamente apática, mesquinha, politiqueira, inerte, dessituada e como consequência disso tudo, sem a menor capacidade de reação. Completamente rendida a uma direita do pior nível, intelectual e moral.

Que ninguém se engane: seja Lula preso ou presidente da República novamente, tudo seguirá como sempre esteve no Brasil. O que menos se está fazendo é justiça, o que as siglas integrantes da ditadura de Partido Único no Brasil, e seus respectivos canalhas de turno desejam, é apenas deleitar-se dos privilégios do poder.

Quanto ao PT, particularmente, tem sido vítima de todos os seus venenos, um a um: de não ter se aliado à sociedade em todos os anos que esteve no poder - perdendo a oportunidade de fazê-lo especialmente em junho de 2013 -, da repressão e cooptação dos movimentos sociais, da despreocupação com educação e politização da sociedade, da criminalização da esquerda autêntica. 

A grande ironia deste cenário circense é que, hoje assim como foi durante o golpe parlamentar do ano passado, o partido depende desesperadamente de cada um desses pontos para retornar ao poder. 

O Brasil requer, está mais que claro, alternativas já que o PT não mudou o péssimo caráter uma vez de volta ao poder, sem sombra de dúvidas, viraria as costas aos mesmos que se apoiou para lá chegar como outrora fez e aos seus próprios "discursos" e "indignações" de esquerda.

Existe a alternativa que a sociedade - em grande medida de maneira nada sincera e até sem nenhuma consciência - anda dizendo que deseja, reforma no sistema político, na condução da economia no sentido de haver equidade com responsabilidade, na mídia e no sistema judiciário. 

Porém, essa alternativa - a ser buscada com lupa, é verdade - passa longe dos grandes partidos que compõem a ditadura de Partido Único travestido de democracia, com suas siglas que nada mais são que a outra face de uma mesma moeda.

 


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