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Um passo à frente

19.12.2014
 
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Um passo à frente

In memoriam:

Carlos Alberto Soares de Freitas

Virgílio Gomes da Silva

Eduardo Collen Leite

Stuart Angel Jones

e todos aqueles que foram vítimas da barbárie.

 

Tem sido feito, através da Comissão Nacional da Verdade, um trabalho primoroso pela restauração e pela justiça à memória daqueles que foram vítimas diretas e indiretas dos crimes cometidos pelo governo que, de modo ditatorial e golpista, usurpou as instituições democráticas brasileiras em 1964. O relatório final da CNV é um passo enorme para a nossa ainda tão jovem democracia.

 

Com isso os ânimos se exaltaram, sobretudo por parte da camarilha de entusiastas da ditadura civil-militar, a escória que é moralmente cúmplice das torturas, assassinatos, sequestros, estupros e toda série de barbaridades cometidas pelo Estado naquele período - e que, infelizmente, ainda acontecem até hoje. Insistem em reescrever o passado, falsificando a História a fim de fabricar os heróis de hoje. Recorrendo às técnicas de Goebbels, repetem exaustivamente as mesmas mentiras, ad nauseum, para dar-lhes um tom de verdade incontestável. É por isso que devemos denunciar com veemência o horror de uma das maiores manchas na história do Brasil.

 

Como parte do revisionismo torpe, cobram que se investigue e que se puna, com o mesmo peso, as ações de grupos de esquerda que resistiram de armas na mão. Isso é manobra diversionista depravada e abjeta. O Estado, independente de quem esteja combatendo, tem o dever legal e moral de não torturar ou assassinar quem quer que seja, respeitando rigorosamente os direitos humanos que foram conquistados com muita luta e muito sangue. A Anistia, todos sabem, beneficiou apenas os torturadores da ditadura. Esses mesmos algozes ainda têm, hoje, meios de perpetuação, seja no Senado, sob a figura do dep. Jair Bolsonaro, seja na intelligentsia do proto-fascismo brasileiro, representada por figuras como Olavo de Carvalho. Este último, por ignorância ou falta de caráter - ou ainda, quem sabe, uma mistura dos dois -, amiúde insiste na hipótese fajuta de que a resposta militar à bala veio em resposta às ações da esquerda armada.

 

A ditadura perseguiu e matou desde o inicio, atirando contra trabalhadores e estudantes, prendendo e torturando qualquer um que se opusesse à sua tirania. As referências publicadas que documentam isso são riquíssimas, além das provas empíricas que ainda vivem na memória dos opositores do regime. Mais ainda: há uma rica literatura - muito embora ignorada - que traz à tona as ligações dos mesmos grupos que lideraram ou inspiraram golpes no passado com o golpe executado em 64. Para citar dois exemplos, dois dos líderes do movimento de 64, Carlos Lacerda e o general Olympio Mourão Filho, estavam ligados, direta ou indiretamente, ao terrorismo de extrema-direita contra civis. Em 1962, durante uma exposição de arte soviética no Rio, onde hoje é a Feira de São Cristóvão, grupos de inspiração lacerdista plantaram uma bomba com dez bananas de dinamite. Nota-se que já havia, antes de 1964, ações de radicais de direita tumultuando o processo democrático, antes do Jango assumir. Esses e outros atentados são contados no livro "A direita explosiva", de José A. Argolo, Kátia Ribeiro e Luiz Alberto M. Fortunato. Já o general Olympio Mourão Filho, chefe do Serviço Secreto da Ação Integralista Brasileira, foi um dos responsáveis pela falsificação do "Plano Cohen", documento que procurava descrever um possível plano de revolução comunista no Brasil, fraude que em seguida seria usada para justificar o golpe do Estado Novo. O mesmo general foi responsável por colocar os tanques na rua para execução do golpe que iria depor o então presidente democraticamente eleito, João Goulart.

 

É necessário trabalhar noite e dia a serviço da verdade. Mais que isso, é fundamental que se lute firmemente para que os horrores de nossa terra não se repitam em novas tiranias. Hoje, respirando os ares da democracia, podemos gritar, sem medo, "ditadura nunca mais!". Nós não precisamos mais nos esconder.

 

André Rosa

André Rosa é jornalista e co-autor do livro Palavra é Arte (Cultura Editorial)

 


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