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Por que Lula não venceu no 1º turno?

15.10.2006
 
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Por que Lula não venceu no 1º turno?

As únicas certezas das eleições no Estado de São Paulo eram a de que Serra venceria para o governo ainda no primeiro turno. A segunda, era a de que Lula perderia aqui, mas também seria eleito pelo povo brasileiro ainda no primeiro turno, impulsionado pelas classes menos favorecidas.

RONALD KUNTZ*

As únicas certezas das eleições no Estado de São Paulo eram a de que Serra venceria para o governo ainda no primeiro turno. A segunda, era a de que Lula perderia aqui, mas também seria eleito pelo povo brasileiro ainda no primeiro turno, impulsionado pelas classes menos favorecidas.

Para desespero dos adversários, o presidente-candidato Lula parecia beneficiário de inexplicável blindagem, invulnerável aos efeitos de sucessivos escândalos protagonizados por velhos companheiros e das devastadoras críticas que envolviam corrupção, mensaleiros e sanguessugas que ceifaram metade do primeiro escalão, além de aliados e líderes do PT.

Sua aparentemente inabalável liderança em todas as pesquisas o tornou um fenômeno, espécie de Aquiles tupiniquim, inexpugnável em seu misterioso efeito "teflon". Na Brasmarket, investiguei a fundo e descobri que o fenômeno tinha explicação lógica e racional. Após mais de 20 anos de intensiva e monocórdia propaganda em torno da moralidade pública e do discurso da ética, o PT obteve êxito e tornou-se o paladino da moralidade no País.

Ao envolver-se nos escândalos, o PT usou o único argumento que lhe sobrava, admitindo que não era melhor nem pior do que os outros políticos brasileiros e valia-se das mesmas práticas que antes denunciava. O resultado foi que afundou na vala comum da rasteira e negativa imagem da classe política que forjou e foi o principal algoz. A sociedade brasileira, que enfim acreditara no discurso petista e levara Lula ao poder em 2002, diante da overdose de escândalos e do choque brutal que despertou sua indignação, caiu na real e deixou de acreditar que houvesse políticos honestos e dignos de confiança.

E o resultado foi o expresso por dois exemplos muito populares: o do Tamanduá que abraça a onça ou o do abraço do afogado: agressor e agredido, vítima e algoz, todos morrem juntos ao final.

A absolvição dos deputados envolvidos nos escândalos, as inúmeras denúncias de acordões para evitar convocações que poderiam comprometer figurões de lado a lado, o descaramento e imprecisões terminológicas dos depoentes etc., tudo isso fartamente exposto e denunciado pela Imprensa brasileira, foram as provas que faltavam de que todos tinham lá rabos a ocultar, e que tudo não passava de uma contenda política entre rotos e rasgados.

Essa é a história recente da ética no Brasil: o detentor do seu monopólio afundou, mas levou com ele a rapadura, não permitindo que seus algozes a tomassem e pudessem usá-la. A bandeira da ética virou o Santo Graal tupiniquim, ou melhor, a nossa excalibur, à espera de um herói que consiga desencravá-la da rocha: para o eleitor em geral, e principalmente para o de baixa renda e escolaridade, nenhum político presta. Ruim por ruim, escolhe o candidato que considera que fará mais por ele e pelos mais pobres e humildes.

O juízo final -- Os adversários do PT são beneficiários de uma dádiva: com os quadros e os aliados que mantém, o PT não precisa de inimigos -- seus cavalos de Tróia e lideranças são experts em atirar em seus próprios pés e servem de oposição com eficácia fabulosa.

Nenhuma outra força política é tão atrapalhada e especializada em marcar gols contra: o denunciante era um aliado; o principal responsável pela CPI que apurou o escândalo do mensalão foi o senador petista Eduardo Suplicy, o mesmo que complicou a vida do partido dando mais evidência e credibilidade aos irmãos e detratores do PT no caso do assassinato do então prefeito Celso Daniel na CPI mista do Senado.

Aqui em São Paulo, principal reduto eleitoral do País, não foi diferente. Só que desta vez o cavalo de Tróia foi outro expoente do PT, o senador Aloizio Mercadante que, além de levar a cabo uma campanha limpa, morna e inepta como convinha ao adversário e franco favorito na disputa, o tucano José Serra, ainda meteu os pés pelas mãos e foi um dos protagonistas do maior escândalo já ocorrido em reta final de eleições da história brasileira: a atabalhoada compra de um misterioso dossiê que supostamente envolveria os dois candidatos tucanos da mais alta plumagem (Serra e Alckmin) num episódio policialesco no escândalo de corrupção conhecido como dos sanguessugas.

A incompetência de toda a operação -- além de deixar exposto o que seria o maior beneficiário -- somada à inépcia dos envolvidos e à incapacidade de formular estratégia eficaz de reação expôs e comprometeu o então imbatível projeto presidencial do PT. O partido perdeu o passarinho que já tinha na mão (a conquista da presidência) e também os dois que passaram voando (sem aperceber-se que pássaros voando eram, na verdade, tucanos).

A petista Marta Suplicy, mesmo com uma rejeição maior do que a do insosso e elitista Mercadante teria, com absoluta certeza -- registrada em nossas pesquisas -- inserção social maior e performance muito melhor do que a do rival Mercadante. Mercadante dividiu o partido em São Paulo ao insistir na postulação e depois ignorou os interesses e necessidades partidárias maiores (promover o máximo desgaste possível aos candidatos tucanos no maior reduto do País) fazendo campanha centrada no próprio umbigo, como se fosse ele e não Serra o franco favorito da disputa. No afã ególatra de mostrar-se gentleman, esqueceu-se da missão de apontar os defeitos e erros de adversários, o seu passado e as ligações deles com um governo que terminou melancólico, com péssimo índice de aprovação.

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