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Para poucos. E doutos

14.02.2010
 
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Para poucos. E doutos

Adelto Gonçalves (*)

I

Já não vivemos ao tempo do reinado de D. João V, que se estendeu por perto de meio século (1706-1750), nem temos mais poetas do quilate de Gregório de Matos e Guerra (1636-1713?) e Tomás Pinto Brandão (1664-1743). Talvez por isso sejam poucos os vates que hoje se aventuram naquele gênero de poesia jocoso e satírico, que tanto serve para denunciar as “políticas” dos mandões como a hipocrisia daqueles que vivem de aparências, o pavoneio mundano, o exibicionismo que tanto lavra nos corredores do parlamento como nas salas das academias de letras ou nos colóquios universitários.

É que, para tanto, o poeta precisa estar munido de um arsenal que não é fácil de acumular, que vem dos tempos dos romanos Ovídio (43 a.C-17) e Catulo (84 a.C-54.a.C) e do hispano-romano Marcial (38?-102), entre tantos poetas da Antiguidade, passando pelos citados Pinto Brandão, o autoproclamado Pinto Renascido, Matos e Guerra, Bocage (1765-1805), o padre José Agostinho de Macedo (1761-1831) e outros adeptos das más-línguas que, dados ao verso fescenino, erótico e chocarreiro, fizeram da poesia satírica um látego embebido de fel purificador.

Por isso, este livro, com o estranho título de Escarnho, de Paulo Franchetti (Cotia: Ateliê Editorial, 2009), é uma obra para poucos – não só na tiragem limitada de 98 exemplares –, mas porque não são muitos aqueles capazes de compreender o seu universo refinado, ainda que permeado de palavrões ou referências escatológicas. Escarnho, diga-se logo do que se trata, significa zombaria, mofo, motejo, menosprezo, desacato. É o que se lê no Livro de Esopo: O corvo foi mui nojoso pelo escarnho que a raposa dele fazia.

A origem da palavra é controversa, mas provém do italiano scherno, ou por derivação da raiz românica carn-, como em descarnar. Em textos do século XIII, lê-se com freqüência essa forma, escarnho, mas no português do século XIV em diante o mais freqüente é mesmo escárnio. N´O Livro de Salmos (cap.1), na Bíblia, por exemplo, recomenda-se ao varão que não se assente na roda dos escarnecedores, ou seja, daqueles que fazem do riso uma maneira de ridicularizar e falar mal de tudo e todos, os adeptos do bota-abaixo.

Mas, muitas vezes, os escarnecedores não são apenas mariolas, que nada fazem a não ser falar mal da vida alheia, pois têm lá suas razões quando recorrem ao escárnio. Há gente – especialmente, os poderosos do dia e aqueles que se locupletam com o dinheiro público – que, à falta de uma Justiça mais ágil e implacável, só podem ser castigados pelo azorrague de um poeta. Pois, desde o tempo dos latinos, que sabemos que é rindo que castigamos os costumes.

II

É o que faz Franchetti, que trata de tirar o pelo de certos pacóvios de nossa sociedade, com uma linguagem inspirada naqueles poetas dos séculos XVII e XVIII, herança de uma época em que Castela, o país de Cervantes (1547-1616), exerceu sua pressão imperialista explícita sobre o pequenino Portugal, imaginando que faria dele o que fez da Galiza, da qual erradicou até o último laivo da memória das gentes.

Para o bem ou para o mal, essa anexação de Lisboa e seus arredores a Castela, que durou de 1580 a 1640, se na América portuguesa ajudou os escuros paulistas de então (que formaram a nossa elite, que pouco de “branca” sempre teve) a empurrar o meridiano das Tordesilhas até quase o Pacífico, não houvesse no caminho a cordilheira dos Andes, contribuiu também para alastrar por terras lusas (que abrangia o Brasil de então) o gosto pelo barroco, que inclui, obviamente, essa vontade de ridicularizar os enfatuados e os mandões. Até porque era a única opção que restava àqueles que eram oprimidos pelas forças conservadoras, com a monarquia e a igreja à frente, quase sempre de forma violenta. O próprio Cervantes que o diga.

O barroco, explique-se, é um fenômeno urbano, resultado do inchaço que sofreram as principais cidades peninsulares: de um lado, os ricos, os bem-nascidos; de outro, a massa dos criados, operários e funcionários subalternos, que assimilavam o que podiam dos senhores, até algumas letras, às vezes assumindo suas idiossincrasias e posturas (ainda que falsas), mas que, no íntimo, tinham de ruminar a inveja ou o ódio que sempre acumula aquele que serve a outro, menosprezado pelo senhor ou por tantos quantos o rodeiam. Como bem sabe quem já leu La literatura picaresca desde la historia social, de José Antonio Maravall (Madri: Taurus, 1987, pp.227-228).

Esses desvalidos são aqueles que assistem ao espetáculo do mundo, muitas vezes do alto da janela de uma casa que não é sua. E a única arma de que dispõem para colocar para fora sua revolta com a condição social em que nasceram numa sociedade estratificada é o escárnio, o mofo. Por isso, não é ao idoso em si que o poeta Franchetti, tão franco quanto o nome, execra – até porque essa é uma fatalidade a que chega quem escapa da indesejada das gentes –, mas ao velho ridículo, que não sabe o seu lugar na sociedade, que insiste em comportar-se como se tivesse 20 ou 30 anos de idade. E que mais parece uma assombração, deixando à mostra aquilo que ninguém mais quer ver. É o que Franchetti procura reproduzir em “Vendo, pela minha janela, algumas pessoas em exercício, ao cair da tarde”:

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