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COP21: O aviso da abelha

11.12.2015
 
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Acaso o leitor sabe distinguir uma abelha brasileira de uma abelha europeia, africana ou africanizada? Se sabe, acaso é capaz de dizer quantas espécies de abelhas brasileiras existem? Respondo 'sim' à primeira pergunta, mas 'não' à segunda. Os índios caiapós distinguiam com clareza 55 espécies de abelhas brasileiras. Só sei dizer que ela são menores que as abelhas introduzidas pelos europeus em nossa fauna, são pretas e têm o ferrão pequeno, não podendo se defender com ferroadas. Por isso, são chamadas abelhas mansas. Elas também produzem mel, mas nem as abelhas nem seu produto são conhecidos como as abelhas exóticas.

Arthur Soffiati, ecohistoriador e ambientalista

Num certo domingo, acordei tarde e fui ao café matinal. Por sorte, não foi a dupla sertaneja que me acordou cantando "mas eu, eu, eu, prefiro estar aqui, te perturbando, domingo de manhã". São tantas as duplas sertanejas atualmente, que não sei os nomes que formam essa dupla. Quem me apareceu, no sexto andar do edifício onde moro, foi uma abelha brasileira, que, docemente, pousou no meu braço e pôs-se a andar entre os pelos, com suas asinhas agitadas.

Confesso que fiquei emocionado. Sem esperar resposta, perguntei a ela como havia saído da roça e chegado à cidade, embora sabendo que elas podem construir suas colmeias em ambiente urbano. Perguntei-lhe também como ela havia chegado ao sexto andar de um prédio. Embora apareçam lagartixas, baratas e mosquitos no apartamento em que moro, creio que a abelhinha não conseguiria voar tão alto a ponto de atingir seis pavimentos. Teria ela subido de elevador? Estaria ela perdida, ali, solitária, no meu braço?

Foi um momento mágico, posto que simples. Confesso que verti algumas lágrimas por conta daquele encontro. Episódio semelhante ocorreu com o professor Fausto Castilho, no fim dos anos setenta, quando dava uma aula na Universidade de São Paulo. De repente, uma ave entrou na sala e pousou na sua cabeça. A natureza atravessara a espessa crosta que os humanos criaram, afastando cada vez mais para longe a natureza da cultura. Pior: não apenas afastando, mas também destruindo.

Só vim a saber desse acontecimento em São Paulo depois que a abelhinha pousou no meu braço, galgando seis andares de um edifício. Se eu fosse romântico e melífluo, talvez escrevesse um poema piegas sobre o evento. Ao contrário, não pude conter as reflexões e as perguntas. A história do mundo ocidental em suas relações com a natureza é uma história de destruição. Se esse ímpeto destruidor se limitasse à Europa, berço do capitalismo, talvez não fosse necessário promover a 21ª Conferência sobre Mudanças Climáticas em Paris, mas o processo de globalização da civilização ocidental a partir do século 15, envolvendo todos os continentes, levou-nos à crise ambiental planetária, da qual estamos pensando apenas nas mudanças climáticas e não tanto nas outras.

Em 250 anos, a civilização ocidental globalizada foi afastando a esfera da natureza e a substituindo pela cultura material principalmente, uma cultura agressiva, escorada em energia obtida de elementos minerais fósseis, em grandes plantas de empresas rurais, industriais e comerciais. Atualmente, as pessoas que vivem no que Toynbee chamava de tecnosfera, nada ou pouco sabem da biosfera. O que dela é necessário para nós vem por meios artificiais: água, comida, roupa, casa etc.

Talvez tardiamente eu tenha percebido que a civilização ocidental submeteu às pessoas, a natureza, os países do mundo todo ao objetivo irracional de ganhar dinheiro. Muitos autores têm escrito sobre a racionalidade do capitalismo. Ele pode até existir dentro de cada empresa. Mas, no plano externo, é um sistema caracterizado pela irracionalidade. E quem vos escreve não é marxista. Fiquem tranquilos e não me chamem de comunista. Os índios encontrados pelos europeus, ao chegarem ao Brasil, em 1500, também tinham esse estranhamento.

Para ganhar dinheiro, é preciso cultivar nas pessoas o individualismo, a futilidade o consumismo. Assim, o indivíduo é colocado no centro de tudo. Em sua volta, constituiu-se um círculo próximo representado pela microeconomia, microssociedade e micropolítica. Supermercados, shoppings, pequenas associações de classe e frivolidades políticas. Mais distante está o círculo da macroeconomia, da macrossociedade e da macropolítica. Grandes bancos, grandes empresas, associações internacionais, problemas político em países distantes, corrupção. Agradecemos a Deus por não sermos alvos do Estado Islâmico, mas não podemos agradecê-Lo por sermos atingidos pela crise micro e macroeconômica e política. O círculo mais distante é representado pela natureza, afastada e agredida pela civilização.

Ao final da experiência com a abelhinha naquele domingo de manhã, concluo que o animal não atravessou todos os círculos até o centro para trazer a natureza até mim, mas para me perturbar, como a dupla sertaneja. Ela veio em paz, na condição de mensageira, para me dar um aviso: "Cuidado. Vocês pensam que podem tudo, que podem nos destruir e nos transformar em mercadoria e lixo, que somos infinitos e estamos à disposição de vocês. Mas nós temos vida própria e, a qualquer momento, podemos ser mais perigosos que o Estado Islâmico.      

 


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