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Diálogo econômico-ecológico

08.10.2015
 
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A natureza é vista pelo ensinamento econômico tradicional como mera participante do processo produtivo, muitas vezes denominada de externalidade, no linguajar técnico da economia.

A economia convencional, (neoclássica), não leva em conta que o sistema econômico necessita do sistema ecológico, e não o contrário.

Desse modo, os economistas tradicionais desconsideram os principais fundamentos biofísico-ecológicos que regulam o sistema natural, ignorando que esse sistema, além de sustentar o sistema econômico, ainda fornece matéria e energia para o funcionamento do mesmo.

Marcus Eduardo de Oliveira

Por isso os serviços energéticos não são apenas parte do sistema econômico, eles são, em grande parte, o que dirige os sistemas econômicos, como assevera Robert Ayres, economista norte-americano, especialista em termodinâmica.

Visto por esse prisma, a economia deve ser entendida como um subsistema de um sistema maior chamado meio-ambiente. Sendo assim, como reiteradas vezes defendemos aqui mesmo nesse espaço, a economia está inserida - é, pois, dependente - de um sistema maior, finito e materialmente fechado, embora aberto ao fluxo energético.

Desconsiderar essa premissa, em outras palavras, é ignorar a própria movimentação que faz a atividade econômica em relação à natureza, quando recebe (materiais e energia) e devolve (resíduos) ao meio ambiente.

Logo, trata-se de enorme equívoco enxergar a economia (atividade de produção) de forma isolada, sem interação com o meio ambiente. É importante reiterar que a economia é apenas uma parte de um todo; o todo é (e sempre será) o meio ambiente.

Nesse sentido, o diálogo entre essas duas ciências se faz cada vez mais necessário e urgente. A "conversa" entre a Economia e a Ecologia tem obrigatoriamente de acontecer para que a conscientização ecológica se faça presente, até mesmo porque "não existe sociedade (e economia) sem sistema ecológico, mas pode haver meio ambiente sem sociedade (e economia)", como contextualiza Clóvis Cavalcanti, economista da Universidade Federal de Pernambuco.

Não se pode perder de vista que o processo de produção econômica vem necessariamente acompanhado da geração de resíduo e poluição. Portanto, toda a produção econômica, também por esse enfoque, "carrega" elementos do processo ecológico.

De toda sorte, essa relação entre a economia e o capital natural é cada vez mais emblemática, envolvendo aspectos pertinentes como alterações do clima que são potencialmente provocadas pela ação do homem-econômico; dito em outras palavras, por ação antrópica, como sentencia o Nobel de Química, Paul Crutzen; exagero de produtos tóxicos ejetados no meio ambiente como resposta às políticas de crescimento da economia sem o menor respeito aos limites físicos da natureza; a falta de energia e matéria para lidar com as manifestações e os desejos da sociedade de consumo que são, sabidamente, cada vez mais intensos e ilimitados.

Esses fatos apontam para a necessidade - com muito mais premência - de se consolidar um novo modo de pensar a atividade econômica, a partir da perspectiva da inserção da preservação da biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos na análise econômica moderna, superando assim o caráter reducionista presente nas análises neoclássicas que insistem em externalizar as coisas da natureza.

O diálogo entre os sistemas econômico e ecológico, não tenhamos dúvida disso, pode ser, metaforicamente, a "porta de entrada" para a consolidação desse novo modo de pensar a economia.

Contudo, cabe ainda uma indagação não menos importante: como estabelecer esse diálogo? Nossa resposta para tal inquirição se aproxima da prática daquilo que o físico austríaco Fritoj Capra chama de ecoalfabetização - ou seja, o desenvolvimento de uma consciência ecológica, de uma capacidade de observar a natureza e trazer esses ensinamentos para a vida real.

Estamos convencidos que esse processo proporcionará todas as condições necessárias para o pleno desenvolvimento de um novo modo de pensar a atividade econômica que tanto carecemos.

De igual maneira, somos partidários da ideia de que, enquanto não mudarmos a forma de produção, respeitando prioritariamente os ciclos da natureza, longe continuaremos da possibilidade de alcançar a condição de bem-estar.

O não alcance dessa condição permite, ademais, aprofundar-se políticas de crescimento econômico fúteis, baseadas no consumo material. Combater os excessos - e os desperdícios em economias que extrapolam limites - e entender que o progresso humano não pode ser confundido com o crescimento material, ou seja, com a expansão física das economias, é uma primeira e decisiva etapa para consolidar a noção de ecoalfabetização.

Para isso, é fundamental disseminar essa espécie de "consciência ecológica". Essa consciência ecológica passa, por sua vez, por eliminar definitivamente o "analfabetismo ecológico", termo também criado por Capra que visa, na prática, enaltecer a ecoalfabetização.

Em paralelo a tudo isso, comungamos à ideia da necessidade de se desenvolver uma política nacional de educação ecológica; uma verdadeira ecoalfabetização que seja capaz, antes de qualquer outra coisa, de sensibilizar a todos para a importância que representa o sistema ecológico em nossas vidas.

No centro dessa questão fica, pois, a certeza de que esse novo modo de pensar a economia, em sua relação íntima com a ecologia, faz a conversão para o tema principal do século XXI: a construção de um desenvolvimento econômico, social e ecológico digno e sustentável, que enalteça a vida em toda a sua amplitude, afastado dos interesses que regulam o mercado de consumo, típico de sistemas econômicos que conferem maior valor as mercadorias, não as pessoas.

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e especialista em Política Internacional, com mestrado pela Universidade de São Paulo (USP).

prof.marcuseduardo@bol.com.br

 


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