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Preferência por caças da França pode causar tensão entre o presidente e militares do Brasil

08.01.2010
 
Preferência por caças da França pode causar tensão entre o presidente e militares do Brasil

Os principais jornais da França estão afirmando que o vazamento de um relatório técnico das Forças Armadas do Brasil recomendando ao Governo do País a compra de caças suecos ameaça criar um atrito entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os militares.

Apesar de inicialmente a Força Aérea Brasileira (FAB) ter indicado, através de relatório técnico (que teria vazado) sobre a compra de 36 caças, o modelo sueco Gripen NG, como a melhor opção para o Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não vai levá-lo em conta na sua decisão de compra.

Apesar da FAB ter recomendado o sueco Gripen NG, o modelo a ser escolhido deve ser o francês Rafale, terceiro colocado na avaliação dos militares brasileiros. Já o americano F-18 Super Hornet foi o segundo melhor avaliado pela FAB, mas, segundo adiantou o próprio presidente, sua escolha deve ser política e estratégica para consolidar as relações do País com a França.

Essa reação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está causando estranheza e perplexidade junto aos analistas militares pelo fato de se descartar um relatório eminentemente técnico e optar por uma estratégia apenas política na compra dos caças, podendo chegar até ao nível de abrir um canal de tensão entre o presidente e os militares brasileiros.

O relatório técnico da Força Aérea Brasileira (FAB) sobre os caças oferecidos ao País (que inicialmente apontou o Gripen NG como melhor opção de compra) que será entregue ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, não deve "hierarquizar" qual o melhor modelo de aeronave. A mudança teria ocorrido em virtude de pressões exercidas pelo governo, segundo o jornal Estado de São Paulo.

O diário Les Echos estampou na capa a manchete "Braço de ferro entre Lula e os militares" e disse que há "um aumento na tensão entre Luiz Inácio Lula da Silva e seu Exército".

O Les Echos disse ainda que "após um longo período de convivência pacífica alimentada pelos projetos de modernização do arsenal e da vontade de transformar o Brasil em grande potência, o clima se deteriorou subitamente no Ano-Novo".

Outro diário francês, o Libération, destacou a reação do ministro francês da Defesa, Hervé Morin, que criticou a opção pelo caça sueco e que, ao ser perguntado sobre o preço do "Rafale" (que é considerado muito alto em relação aos seus concorrentes), respondeu em tom de interrogação: "É possível comparar o Rafale, que é como uma Ferrari, com o Gripen, que é semelhante a um Volvo?".

O jornal Le Monde, por sua vez, comenta que a suposta preferência dos militares "contradiz o que manifestaram várias vezes o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Defesa, Nelson Jobim".

O Le Monde ainda que a polêmica é "mais um" ponto de conflito entre Lula e os militares, que já haviam protestado no fim do ano contra o projeto de criação de uma Comissão da Verdade para apurar as responsabilidades pelos crimes cometidos durante a ditadura militar de 1964 a 1985.

Hervé Morin disse que sua oferta inclui transferência tecnológica ao Brasil, que passaria a ter uma plataforma industrial para a América Latina. À rede de televisão francesa BFM TV, Morin disse que “a decisão do Brasil será política", e lembrou que “a França estabeleceu uma aliança estratégica com o Brasil", que se traduziu na venda, no ano passado, de helicópteros militares e submarinos no valor de 4,5 bilhões de euros.

O pronunciamento do ministro francês foi devido as informações publicadas na imprensa brasileira de que uma comissão técnica tinha comunicado ao Ministério da Defesa sua preferência pelo modelo de avião de combate sueco, frente às alternativas francesa ou americana.

Depois que a Força Aérea Brasileira (FAB) desmentiu (ou foi pressionada a desmentir) ter entregue esse relatório técnico sobre a licitação para adquirir 36 caças, o ministro francês estimou que, neste assunto, "a imprensa brasileira não tem necessariamente a verdade".

"O 'Rafale' é um avião de missões múltiplas, que já é uma realidade provada e utiliza as tecnologias mais modernas", disse o ministro francês, que afirmou ser a venda do "Rafale" uma transferência tecnológica que daria ao Brasil e à própria indústria francesa "uma plataforma industrial de primeiro plano para toda a América Latina", onde seria possível comercializar este aparelho.

ANTONIO CARLOS LACERDA

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