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Falta de rumo

06.02.2014
 
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Milton Lourenço (*)
            
Dois fatos, aparentemente, desconexos, ocorridos nos últimos dias, servem à medida para mostrar a falta de rumo que tem marcado o governo brasileiro na condução de sua política de comércio exterior. Enquanto os portos brasileiros necessitam de serviços de manutenção e ampliação de sua capacidade de operação, o governo comemorou a concessão de R$ 2,6 bilhões de crédito pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para obras de construção do porto de Mariel, em Cuba, como se fosse um grande feito de sua política externa, sob a alegação de que os bens e serviços foram fornecidos por empresas brasileiras e que a iniciativa teria por trás uma hipotética natureza estratégica.

Longe do discurso oficial, porém, o que se diz é que esse tipo de "investimento" no porto cubano será a fundo perdido, pois o governo de Cuba, historicamente, não paga ninguém. Sem contar que a presidente Dilma Rousseff, ao participar da reunião de cúpula da Comunidade de Estados Latinoamericanos e Caribenhos (Celac), em Havana, ao afirmar que o bloqueio imposto a Cuba pelos Estados Unidos é anacrônico, "esqueceu-se" de dizer, talvez para não ofender os anfitriões, que não há regime, no significado léxico, que mais se identifique com o anacronismo do que o cubano.


É de estarrecer ouvir da presidente uma declaração tão demagógica e inadequada, mas, de certo modo, essa afirmação traz em seu bojo a razão pela qual o Brasil está se afundando cada vez mais no comércio exterior, voltando a ser um exportador de matérias-primas como no período colonial.

            O outro fato que deixa exposta a falta de rumo na política de comércio exterior é a insistência do governo federal em autorizar a criação de novos terminais de granéis sólidos na área insular da cidade de Santos, a despeito dos prejuízos que essa iniciativa trará para o meio ambiente e para a saúde de milhares de moradores das proximidades, que continuarão a conviver com os problemas provocados pelo corredor de exportação de grãos.

Melhor seria se tivesse tirado parte dos recursos concedidos a fundo perdido a Cuba para aplicar na construção de um corredor de exportação de grãos na área continental, na margem esquerda do Porto de Santos, no Guarujá.


Em resumo: além de não ter feito os investimentos necessários à infraestrutura portuária do País, o governo brasileiro insiste em buscar relacionamento comercial com países que não dispõem da menor condição financeira para comprar produtos brasileiros. E que, quando o fazem, não pagam. Foi o que fez o governo anterior com Bolívia, Paraguai, Venezuela, Haiti e alguns países africanos, como se o Brasil pudesse ficar doando dinheiro a fundo perdido, quando grande parte de sua população é analfabeta e faminta.
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(*) Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC). E-mail: fiorde@fiorde.com.br. Site: www.fiorde.com.br.


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