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Brasil: Os perplexos

04.11.2018
 
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OS PERPLEXOS

Fui numa reunião velhos amigos de esquerda para discutir as causas de mais uma derrota política e de como resistir.

Como a maioria era de petistas, havia um certo sentimento de que ocorrera uma injustiça contra o partido e um clima de cobrança  "dessa gente que foi a grande beneficiada nos governos do PT" e  que faltou na hora H.

Foram lembradas e repetidas grandes conquistas do Lulismo:

 - Trinta milhões arrancados da pobreza; fim do desemprego em massa, milhares de universidades e escolas técnicas criadas, mais médicos.

Só faltou chamá-los de mal agradecidos.

Outros se pegavam nos números.

- O Bolsonaro teve só 37% do total de votos ; 30 milhões de brasileiros votaram no PT;  os votos em branco e nulos são mais de mais de tantos milhões de eleitores (aí, passaram a ser chamados de eleitores e não brasileiros) ou seja,  ele foi eleito por uma minoria.

O clima é de perplexidade geral.

As pessoas não se dão conta que usaram contra nós as mesmas armas que nos derrotaram no passado. .

Em 54, contra Getúlio Vargas foi "o mar de lama"

Em 64, contra Jango, "o combate à corrupção e à subversão"

Agora, o Mensalão e o Petrolão.

Nas duas primeiras vezes eles tiveram um guerreiro inteligente do lado deles - Carlos Lacerda - agora bastou um clow midiático , o Moro e um tosco sargentão, o Bolsonaro, para nos derrotar.

O problema todo é que o PT e as esquerdas aceitaram discutir a pauta que a direita propôs.

Corrupção é problema de polícia e não da política.

Em vez de recusar a discussão nesses termos rasteiros, assumimos o tema, querendo provar que o FHC foi mais corrupto;  que o governo do PT foi o primeiro a fortalecer os órgãos de combate a corrupção e pior do que tudo, admitimos, sim, que a tal corrupção na Petrobrás era uma questão de interesse nacional.

Poucos falaram que por trás do tal petrolão havia um ataque direto do imperialismo norte-americano contra a estatal por causa do pré sal.

 Um exemplo: a distinção, nada sutil, que o próprio Haddad propôs em seus discursos entre Dilma e Lula. A primeira foi uma pessoa honesta, derrubada por um golpe parlamentar.  Contra Lula, não havia provas de sua desonestidade.

O empresário é corrupto, porque sonega os impostos (eu diria que todos fazem isso) que deveria pagar para o governo funcionar melhor e explora os empregados (é da essência do sistema); os banqueiros se locupletam com lucros escorchantes e a mídia é vendida para os grandes interesses do capitalismo, mas esses casos não interessam, nem à justiça e nem ao público.

Interessa denunciar o pequeno político que tira vantagens indevidas do seu cargo, mesmo que isso seja uma migalha diante do grande roubo dos bancos,  por  exemplo.

Agora não adianta chorar o leite derramado.

Lula, Dilma e os dirigentes do PT aceitaram discutir as pautas propostas pela direita e aí, ela é imbatível porque conta com a solidariedade de uma população, em sua maioria alienada politicamente e cheia de raiva contra aqueles que, vindos da sua classe social, enriquecem na política.

Quem sabe a esquerda volta à pauta que realmente interessa: socialismo ou barbárie?         

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 


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