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Donald Trump e sua candidatura farsesca

28.07.2016
 
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Indesejado por muitos, o infausto êxito alcançado por Donald Trump na campanha presidencial em desenvolvimento certamente merecerá a atenção de analistas com as mais diversas formações e integrantes dos mais distintos veículos voltados à consideração da vida social, política e econômica dos EUA e sediados nas mais longínquas localidades do planeta. A razão para tamanha mobilização deve-se a dois fatores dos mais relevantes: à importância mundial dos Estados Unidos e ao inusitado avanço de um candidato que postula ideias próprias de um verdadeiro avantesma político.

Iraci del Nero da Costa *

Tal ocorrência torna-se ainda mais cáustica se tivermos presente estarmos em face da sucessão de Barack Obama cuja eleição e reeleição e cujos mandatos representaram um inquestionável e inesquecível avanço político do eleitorado estadunidense.  

É tamanha a estupefação causada pela situação atual da campanha eleitoral americana, escolha de Trump e Hillary Clinton como candidatos, que mesmo um mero curioso como eu aventura-se a opinar sobre os fatos ora vivenciados.

Embora exista no seio da sociedade norte-americana uma rica diversidade ideológica que se reflete no próprio alentado número de candidatos que se apresentam a cada eleição presidencial, é preciso reconhecer que também vigora nos EUA uma forma de pensar típica da imensa maioria dos americanos que não conhece uma formação ideológica mais diversificada e rica; forma esta que, em termos genéricos, caracteriza-se por ser ensimesmada, autoconfiante, prepotente e considerar-se isolada das demais culturas vigentes no mundo exterior.

Não obstante as evidentes limitações de tais elementos do pensamento genérico aqui caracterizado é preciso lembrar que para tais atitudes e formas de pensar sempre  encontraremos sólidos e corretos fundamentos históricos vinculados à formação e desenvolvimento da sociedade norte-americana.

Donald Trump expressa, de maneira caricata exacerbada, a tradicional postura político-ideológica acima referida; já Hillary Clinton, em certa medida, igualmente o faz, porém de modo moderado e portanto muito mais contido do que o candidato Republicano, pois não se afasta em demasia do presidente Barack Obama o qual declarou sobre a candidata do Partido Democrata: "Acho que nunca houve ninguém tão qualificado para o cargo [...] Quero que vocês, que estão comigo desde o começo dessa jornada incrível, sejam os primeiros a saber que eu estou com ela". As declarações de Hillary sobre o presidente foram igualmente fraternais, segundo ela o apoio de Obama: "significa o mundo [...] É absolutamente uma alegria e uma honra que o presidente Obama e eu, ao longo dos anos tenhamos passado de competidores ferrenhos para verdadeiros amigos". 

Em face desse quadro, como apontado pelas pesquisas de opinião efetuadas neste final do mês de julho, ganhou força a candidatura burlesca e fantasiosa de Donald Trump.

Tal evento, a meu juízo, deve ser referido às condições econômicas e políticas internas e externas defrontadas pelos EUA e, sobretudo, ao avanço do terrorismo em escala planetária; assim, ocorre uma continuada entrada de novos imigrantes os quais podem ser vistos como concorrentes dos trabalhadores nacionais, ao mesmo tempo verifica-se um alentado avanço econômico de países asiáticos com a notável presença da China, correlatamente, observam-se aspectos mais elásticos na política internacional implementada pelo presidente Barack Obama tais como o reatamento com Cuba.

Destarte, a atitude entendida como reacionária, de grande parcela dos eleitores norte-americanos, embora altamente discutível, é compreensível e demonstra ser uma revivescência dos modos tradicionais e menos sofisticados de pensar a posição dos EUA frente a seus problemas internos e às demais nações da esfera internacional. Infelizmente, ao menos neste momento da campanha eleitoral, parece haver um retrocesso às posturas absolutamente desprezíveis apontadas acima.

Resta-nos a esperança de que, no correr dos debates entre os candidatos, o eleitorado tome consciência das impropriedades propostas por Donald Trump e que Hillary Clinton não se comprometa com o isolacionismo político dos EUA. 

 

* Professor Livre-docente aposentado da Universidade de São Paulo.

 


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