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Integração Regional e a Economia dos Países de Língua Portuguesa

26.05.2008
 
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Integração Regional e a Economia dos Países de Língua Portuguesa

Entrevista: Nei Cardim

Por Manoel Castanho (*)

Durante os dias 9 a 11 de abril, economistas de vários países estiveram reunidos em Maputo, capital de Moçambique, no VII Encontro de Economistas de Língua Portuguesa. O tema geral do evento foi “Integração Regional e a Economia dos Países de Língua Portuguesa”. O economista Nei Jorge Correia Cardim (vice-presidente do COFECON em 2005 e atualmente conselheiro do CORECON-BA) foi o responsável pela Coordenação Geral Brasileira. Em entrevista ao site do COFECON, Cardim fala sobre o evento, a cooperação que podemos oferecer e as lições que podemos aprender com os outros países de língua portuguesa.


COFECON: Muitas vezes temos imagens estereotipadas de lugares que não conhecemos (e, no geral, a África é pouco conhecida). Às vezes imaginamos uma coisa e encontramos algo totalmente diferente. Neste sentido, que surpresas o senhor teve ao chegar a Moçambique?

Nei Cardim: Em 2006 estive em Angola para participar do VI Encontro e recentemente em Moçambique, no VII Encontro. Observei que Moçambique avançou politicamente em relação a Angola, embora este último apresente um potencial de riqueza maior. Acredito que o governo de coalizão instituído em Angola não vem permitindo estabilidade econômica e social de forma a garantir uma eficiente divisão de renda e conseqüentemente maior justiça social, enquanto o modelo político atual de Moçambique, aparentemente, tem apresentado melhor resultado em relação ao índice de pobreza e melhoria da qualidade de vida. O fato é que tive a nítida impressão de que Moçambique apresenta um quadro altamente favorável para um significativo avanço social e econômico.

COFECON: O grupo de países que fala português é bastante heterogêneo, distribuído em quatro continentes. Quais os pontos altos e baixos de um debate com um grupo tão diversificado?

Cardim: Um ponto comum do debate é indiscutivelmente a pobreza. Como se trata de um conjunto heterogêneo de países, naturalmente os níveis de pobreza são diferentes, mas todos em situação crítica. 

COFECON: O professor José Flávio Sombra Saraiva, da Universidade de Brasília, defende que devemos oferecer à África cooperação verdadeira, que não perpetue o colonialismo. Nesta mesma linha, o economista queniano James Shikwati disse, em entrevista à Veja (10/08/2005), que a ajuda econômica oferecida pelos países ricos atrapalha o desenvolvimento dos países africanos. De que forma os economistas do Brasil (e o país como um todo) podem dar esta "cooperação verdadeira" aos da África?

Cardim: Os países membros da Associação de Economistas de Língua Portuguesa – AELP são países africanos, exceto o Brasil e Portugal. Nesse contexto o Brasil assume um papel importante na condição de país de maior extensão territorial, possuidor de imensa riqueza natural, de posição geográfica privilegiada, além de se caracterizar como um país cosmopolita e, o que é mais importante, de grande miscigenação racial com preponderância da raça negra e indígena.

As evidencias nos apontam como um fato relevante a importância do Brasil nessa comunidade. O processo colonizador perverso deixou marcas profundas de maneira que Portugal é visto na atualidade como um país amigo e ao mesmo tempo, como um país que pouco contribuiu para a independência desses povos. O Brasil, ao contrário, na condição também de pais colonizado, não teve o mesmo destino dos países africanos, conseguindo desde cedo sua independência e através de um processo histórico marcado com a presença dos reis de Portugal em seu território, ainda que por contingência política de interesse lusitano, permitiu ao nosso país um destino menos traumático que os irmãos africanos.

Portanto, está reservado para o Brasil um papel de suma importância na consolidação da independência desses povos de raízes comuns. O grande avanço conseguido pelo Brasil nos diversos campos do conhecimento deve ser colocado à disposição dos irmãos africanos como um dever ético do povo brasileiro. Esse é o papel da AELP (Associação dos Economistas de Língua Portuguesa) no campo econômico e social: Universalizar o conhecimento de forma a permitir o resgate da dignidade humana dos povos africanos.

COFECON: Apesar de termos uma situação econômica melhor que a dos lusófonos africanos, certamente também temos o que aprender com eles. Em sua maneira de ver, o que nós podemos aprender com os economistas da África?

Cardim: Encontrei nesses países africanos economistas da mais alta qualificação. São profissionais com doutorado na Europa, Estados Unidos, Canadá, Brasil e que estão vinculados a Universidades africanas prestando relevantes serviços de pesquisas. Como eu acredito que o caminho único para consolidar o desenvolvimento econômico, político e social é a educação, esses países poderão encontrar o seu caminho definitivo de dependência e estagnação através de uma política educacional séria e eficaz. A transferência de conhecimento tecnológico pelo Brasil a esses países poderá significar um importante papel neste contexto.

O grande aprendizado que pode ser obtido com esses países é o exemplo de enfrentamento de um quadro perverso de pobreza absoluta, buscando entender arealidade nos diversos ângulos da questão, sem políticas “milagrosas”.

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