Pravda.ru

Negόcios

Irã e uma possível nova geopolítica da energia

21.04.2015
 
Irã e uma possível nova geopolítica da energia. 22031.jpeg

O recente esboço de acordo entre Irã e EUA sobre o programa nuclear do Irã abre a possibilidade de chegarem ao fim quase 36 anos de sanções econômicas que os EUA impuseram ao Irã. O esboço de acordo já foi recebido com ameaças de ataques unilaterais de Israel contra o Irã, para 'prevenir' que o Irã venha a desenvolver uma bomba nuclear. E está emergindo a mais improvável das alianças, entre a monarquia ultraconservadora saudita e o governo de Israel: contra o Irã e o esboço de acordo. A verdadeira questão é qual a motivação mais profunda, em relação ao Irã, no governo Obama.


Aqui, a geopolítica da energia tem papel decisivo, como tão frequentemente acontece em tudo que tenha a ver com o Oriente Médio. E o alvo dos EUA é a Rússia.

Conversei recentemente sobre esses desenvolvimentos com Shervin, jornalista iraniano especialista em energia que conheci há dois anos em Teerã. Aqui, gostaria de partilhar alguns destaques daquela entrevista. Shervin é especialista em energia da principal agência de notícias do Irã, Tasnim News Agency. Espero que nossa conversa interesse a todos que procuram instrumentos para entender melhor as sanções impostas pelos EUA ao Irã, o possível papel do Irã no mundo e uma possível nova geopolítica da energia.

Conversei recentemente sobre esses desenvolvimentos com Shervin, jornalista iraniano especialista em energia que conheci há dois anos em Teerã. Aqui, gostaria de partilhar alguns destaques daquela entrevista. Shervin é especialista em energia da principal agência de notícias do Irã, Tasnim News Agency. Espero que nossa conversa interesse a todos que procuram instrumentos para entender melhor as sanções impostas pelos EUA ao Irã, o possível papel do Irã no mundo e uma possível nova geopolítica da energia.

Tasnim: Qual sua opinião sobre as sanções contra o Irã?

Engdahl: As sanções dos EUA contra o Irã são ilegais nos termos da lei internacional e são atos de guerra, exatamente como as sanções contra a Síria e, agora, também contra a Rússia.

Tasnim: Com as negociações sobre o Irã chegando a algum acordo, o senhor acha que as sanções econômicas do ocidente contra o Irã serão levantadas?

Engdahl: Temos de ser bem específicos. As sanções saíram de Washington e da unidade de guerra financeira do Tesouro dos EUA, especialmente a mais recente rodada de sanções, contra usarem o sistema de telecomunicações para compensações interbancárias (SWIFT) para vender petróleo iraniano - passo sem precedentes, que Washington jamais dera, e que agora já ameaça dar também contra a Rússia. A União Europeia adoraria reabrir seu comércio com o Irã. Enquanto Washington for governada pelos bancos de Wall Street e o complexo militar-industrial, vocês devem esperar que apareça algum pretexto, mesmo depois de um acordo nuclear, para continuar as sanções, de algum modo. Vejam Cuba.

Tasnim: Como os atuais baixos preços do petróleo afetam a economia nos EUA?

Engdahl: Em setembro passado, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, reuniu-se com o rei na Arábia Saudita, e propôs que pusessem abaixo o preço do petróleo, para pressionar maximamente o Irã e, principalmente, a Rússia de Putin, que Washington está determinada a destruir, porque é a única grande potência militar que pode ameaçar a total hegemonia militar do Pentágono. Se a Rússia capitulasse - e tenho certeza de que não capitulará -, o mundo como o conhecemos entraria em colapso, o Irã seria isolado e destruído, a China também, e todas as novas estruturas multipolares alternativas que se opõem ao totalitarismo cada dia mais descarado dos hegemonistas anglo-norte-americanos receberiam golpe devastador.

Ironicamente, o choque do petróleo de Kerry-sauditas está tendo impacto devastador sobre a enorme nova indústria de petróleo de xisto nos estados de North Dakota, Texas, Califórnia e outros. Estimo que se isso continuar por mais três, seis meses, começaremos a ver falências e calotes que crescerão como bola de neve, de empresas de petróleo e dívidas não pagas correspondentes a empréstimos de mais de $1 trilhão a empresas de petróleo e outros "papeis podres". Até aqui, as empresas de petróleo de xisto têm afogado o mercado com o petróleo que têm, para obter dinheiro para evitar o calote das próprias dívidas, na esperança de que a crise seja de curta duração. As empresas do  Big Oil, como ExxonMobil, Chevron, BP, Shell podem surfar as ondas da tempestade, porque estão bem capitalizadas e são globais. Em termos da economia norte-americana mais ampla, o único ponto em que se viu aumento no número de empregados foi nas centenas de milhares de novos postos de trabalho na indústria doméstica do xisto. Esses empregos já começaram a desaparecer novamente, bem depressa. O governo Obama, mais uma vez, não soube prever as consequências de mais longo alcance dos seus atos. O governo Obama atirou nos próprios dois pés, nessa guerra do petróleo contra Putin.

Tasnim: Como as sanções econômicas contra o Irã impactam também a economia dos EUA?

Engdahl: As sanções que o Tesouro dos EUA impôs ao Irã praticamente não têm impacto algum sobre a economia dos EUA. É o que as torna tão diabólicas.

Tasnim: As sanções econômicas contra o Irã beneficiam mais os EUA ou o Irã?

Engdahl: Realmente, e foi o que vi quando estive em Teerã há dois anos, beneficiam muito mais o Irã. Digo isso, porque as sanções forçam vocês a serem cada vez mais autossuficientes e a não deixar que sua economia, suas indústrias, sua agricultura sejam destruídas por produtos baratos importados do ocidente, como aconteceu com tantos países na Ásia, África, América do Sul. As sanções forçam o Irã a desenvolver internamente as suas próprias maravilhosas capacidades, a controlar o próprio crédito, a não se deixar prender como vassalo de um sistema-dólar que está falindo. Os iranianos são pessoas muito bem educadas e inteligentes, cheias de recursos. Tenho certeza de que se darão muito bem, sem importar iPhone6 e sementes de soja tóxica da Monsanto.

Tasnim: Washington arregimentou os sauditas para derrubarem o preço, para ferir a Rússia e talvez o Irã?

Engdahl: Não tenha dúvidas disso. Foi repetição do que George Schultz e o vice-presidente Bush Pai fizeram em 1986 para conseguir que os sauditas inundassem o mercado, naquele momento, e derrubassem os preços para menos de $10 o barril, para quebrar a União Soviética durante a guerra afegã dos soviéticos contra osmujahideen de Osama bin Laden financiados pelos EUA.

Mas dessa vez o pessoal do Departamento de Estado e da CIA em  Washington eram muito mais estúpidos do que antes. Não calcularam que os sauditas já têm agenda própria e metas próprias a alcançar com o petróleo barato, a saber, destruir a nascente indústria concorrente do petróleo de xisto dos EUA. Agora já é tarde demais para que Obama e Washington consigam facilmente reverter os preços do petróleo. A qualidade intelectual do pessoal que vive na burocracia de Washington, mesmo comparada à do pessoal que lá estava há 30 anos, é escandalosamente baixa. São perfeitos ignorantes de história, cultura, economia, estratégia. Observe que até algumas das pessoas mais torpes do establishment da política exterior dos EUA, como Brzezinski e Kissinger, não se cansam de alertar Obama para que não provoque guerra contra a Rússia. Esses, pelo menos, sabem um pouco de história. Neoconservadores como Victoria Nuland no Departamento de Estado, ou o secretário da Defesa Ashton Carter ou Hillary Clinton, que já pôs seu olhar de gelo sobre a Casa Branca, não têm um palmo de profundidade e não são pessoas de bom caráter. Implica dizer que são gente tão perigosa para o próprio país deles, como para o planeta.

Tasnim: Os sauditas terão visto no pedido de Washington uma oportunidade para quebrar a indústria norte-americana do fracking, preservando para os sauditas o mercado norte-americano?

Engdahl: Não se trata do mercado norte-americano para os sauditas. Os sauditas exportam muito mais para a Ásia e bem pouco, cerca de 800 mil barris/dia, para os EUA, para um consumo diário de petróleo nos EUA de cerca de 19 milhões de barris dia; cerca de 4%. Os sauditas estão preocupados é com o mercado global, que eles querem dominar, alavancando a OPEP árabe - sauditas, Kuwait, Emirados.

Sem o Irã para os sauditas, é claro, mas com o conflito sunitas-xiitas especialmente depois que Washington deliberadamente iniciou as 'revoluções coloridas' da chamada 'primavera árabe' no final de 2010, a meta sempre foi criar total desordem entre os membros antes cooperantes da OPEP no Oriente Médio. E estabelecer o controle militar direto dos EUA sobre toda a região. Os países da OPEP e seus Fundos Soberanos, usando suas imensas rendas do petróleo, estavam começando a estabelecer redes independentes de banking islâmico independentes da usura e da escravidão do endividamento como é rotina no ocidente - Tunísia, Líbia, Egito... Se aquilo continuasse, o dólar, em alguns anos, se tornaria inútil como moeda de república-de-bananas, quase exatamente como a ameaça que Washington vê hoje nos países BRICS e no Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII), liderado pela China.

É útil ter em mente que a hegemonia de Washington depende de dois pilares: controle da moeda por Wall Street, e o dólar como moeda internacional de reserva; e controle da força militar. O controle sobre o dinheiro começou a desmontar-se e entrar em colapso com a alucinada desregulação dos bancos na gestão de Alan Greenspan no Fed e a consequente orgia de especulação chamada "patrimônio sustentado por seguros" que levou à inevitável crise financeira de 2007-2008. Depois disso, a 'solução' militar tornou-se mais claramente dominante, porque o pilar financeiro estava debilitado demais para servir como motor da dominação global ou da, como Bush e David Rockefeller a batizaram, Nova Ordem Mundial deles.

Ajuda saber que hoje esses oligarcas norte-americanos, como os chamo, estão entrando em pânico que não acontecia há, no mínimo cem anos, temendo que possam perder tudo que têm. Estão desesperados. Washington hoje está cheia de gente confusa em luta uns contra os outros e contra o mundo. É mais ou menos como os últimos anos do Império Romano do século IV d.C. Faz-me lembrar do que diziam os antigos gregos: "Os deuses primeiro enlouquecem quem eles querem destruir." Hoje Washington é lar do Hegemon Perdido e de gente muito doida, como se vê em Israel, governada por aquele gângster, Benjamin Netanyahu.

Tasnim: A redução do preço do petróleo é ameaça ou oportunidade, para o Irã?

Engdahl: É oportunidade, e oportunidade maravilhosa, para que o Irã assuma lugar de destaque num novo sistema de comércio internacional que seja justo, e no qual o preço do petróleo não seja feito em dólares. Enquanto o mundo negocia seu petróleo em dólares, todos apoiamos o Império do Dólar e nos autodestruímos. Nesse ponto, China, Rússia e outros países desempenham papel crucial, no trabalho de fazer o preço do petróleo em moedas locais e, assim, desdolarizando as respectivas economias. Hoje, os únicos itens que ainda se compram e vendem-se pelo viciado e endividado sistema do dólar norte-americano são petróleo, drogas e soldados norte-americanos, vendidos como se fossem policiais globais. É sistema bem frágil, em minha opinião.

Tasnim: Que sugestões o senhor tem, para as autoridades econômicas?

Engdahl: O Irã é terra maravilhosa, com povo caloroso e muitos recursos econômicos e de inteligência. Se eu fosse governante do Irã, dirigiria o meu governo para criar processos de planejamento por todo o Irã, em todas as regiões onde ainda não existam, e engajaria os cidadãos em diálogo com funcionários regionais da economia, para assim definir os objetivos econômicos de cada região do país para os próximos cinco anos (projetos de maior prazo quase sempre se tornam excessivamente rígidos). Mais ou menos como fez Charles de Gaulle, que com certeza jamais foi comunista, com a "Planification" dele e de Jacques Rueff. 

Então os ministros do governo central reúnem-se e revisam os desejos e necessidades das pessoas em todo o Irã e define prioridades exequíveis. Pessoalmente, eu baniria para sempre todas as vacinas ocidentais, todas. Dieta saudável e família e comunidades afetivamente generosas é a única 'receita' infalível para ter um sistema imunológico que funcione bem. Eu também proibiria todos os matadores químicos de sementes, como Monsanto Roundup, que seria proibida até de chegar indiretamente ao país pela soja dos EUA ou Argentina, ou por milho geneticamente modificado. A China já começa a perceber a extensão do erro que cometeu ao permitir a importação de 60% da soja que o país consome, e toda essa soja é material geneticamente modificado. Eu desenvolveria naturalmente a maravilhosa cultura alimentar iraniana, com métodos livres de produtos químicos, subsidiada por política positiva de impostos e imporia impostos punitivos contra o agronegócio à moda dos EUA.

Hoje, os oligarcas ocidentais têm agenda simples: genocídio contra todas as linhagens de sangue não anglo-saxão, que exibam peles morenas. Tenho cruzado com muitos deles ao longo dos anos, em conferências e reuniões em Davos, Frankfurt, em vários locais. São amaldiçoados racistas, eugenistas, gente como Gates com suas vacinas que matam bebês e esterilizam meninas e moças.

Bill Gates, George Soros, David Rockefeller, Warren Buffett, os DuPonts, a família Russell da Yale University e outros, cujos nomes não são tão conhecidos. Gente fundamentalmente estúpida e ridícula, incapaz de ver as consequências da vida normal que eles roubam de toda a espécie humana. 

Para matarem "comedores inúteis" como nós, eles fazem guerras, disseminam doenças, tornam nossas crianças cada dia mais doentes e aleijadas; com as vacinas venenosas que distribuem, destroem a medicina tradicional sem drogas industrializadas como ainda existe em partes da China, do Irã e da Rússia. Tudo isso, para criar 'mercados' para as drogas e toxinas das empresas ocidentais de medicamentos industrializados as quais, por falar delas, controlam a Organização Mundial da Saúde. Eles criam organizações terroristas para disseminar suas guerras de destruição. Essa é a origem da Al Qaeda, que destruiu a Líbia, o Iraque, o Iêmen e continua ativa em todo o mundo árabe; do grupo Cemaat, de Fethullah Gülen na Turquia e também fora de lá; do  ISIS que foi criado pela inteligência dos EUA e Israel para destruir Bashar al-Assad e os laços que ligam os sírios ao Irã e ao Iraque.

Washington agora quer seduzir o Irã e fazê-lo dar as costas ao antigo aliado, a Rússia, e quer cortar as exportações de gás russo para Turquia e União Europeia. Minha opinião é que o futuro do Irã não está em tornar-se novo aliado dos neoconservadores que governam os EUA hoje, para receber algumas migalhas econômicas do ocidente, caso o Irã abandone sua aliança natural com a Eurásia, especialmente com Rússia, China e os países da Organização de Cooperação de Xangai.

A reservas conhecidas e comprovadas de gás natural do Irã foram estimadas, pela empresa British Petroleum, em cerca de 34 trilhões de metros cúbicos; as da Rússia, em 33 trilhões de metros cúbicos. A cooperação agora entre essas duas superpotências do gás natural é essencial para construir a arquitetura da Eurásia de modo que beneficie todos, inclusive a Alemanha e o resto da União Europeia. É uma oportunidade de ouro para mudar o locus da geopolítica da energia global, levando-a para bem longe das potências do eixo Washington-Londres-Riad que a controlam desde o acordo inicial entre o presidente Roosevelt dos EUA e o rei saudita Ibn Saud em 1943, que deu às grandes Rockefellers norte-americanas do petróleo o controle exclusivo sobre os ricos recursos de petróleo da Arábia Saudita. *****

12.04.2015, F. William Engdahl, New Eastern Outlook, NEO
http://journal-neo.org/2015/04/12/iran-and-a-possible-new-energy-geopolitics/

 


Loading. Please wait...

Fotos popular