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O mito da despiora da crise

20.05.2009
 
O mito da despiora da crise

Eu não sabia que o termo despiorar existia, até ouvi-lo numa reportagem que buscava informar os rumos da crise econômica mundial. As crises também têm a virtude de enriquecer nosso vocabulário, como com o termo desglobalização. Mas, voltando ao despiorar, ele busca expressar a tese corrente entre os interlocutores da alta burguesia de que o pior da crise já passou.

Psicologicamente falando, pode ser que a despiora seja verdade. Na esfera internacional, por exemplo, a eleição de Obama, do ponto de vista econômico, até aqui teve apenas efeito placebo. Quando a terapia do otimismo e da esperança perder seu efeito, a dura realidade do desemprego e dos homeless romperão as fissuras da represa.

No Brasil não é diferente. Lula e seu governo tentaram no início passar a idéia de descolamento do Brasil da crise internacional. O resultado do PIB no último trimestre de 2008 desmentiu o governo. As demissões em massa na indústria e nos setores exportadores no primeiro trimestre de 2009 deram uma dimensão do tamanho do problema.

A reação do governo envolveu a redução do IPI dos automóveis e da linha branca, Minha casa, minha vida, demissão do presidente do Banco do Brasil (para forçar o spread bancário para baixo) e tímida redução do superávit primário. Muito disso tudo, o próprio governo sabe disso, não passa de incentivo ao bom humor dos consumidores e jogo de cena para a sociedade.

O que acontece de real na vida dos brasileiros mesmo é o corte de R$ 25 bilhões no orçamento do governo federal para 2009, que atinge em cheio áreas essenciais como a segurança pública, e o corte nos repasses federais para os estados e municípios, subproduto da redução do IPI e da arrecadação do Imposto de Renda.

Aos municípios, que reclamam uma perda prevista de R$ 8 bilhões nos repasses do FPM, Lula respondeu com uma ajuda de R$ 1 bilhão, que na melhor das hipóteses tapa o buraco dos quatro primeiros meses do ano. À perda dos estados, o governo federal liberou uma linha de crédito junto ao BNDES. Ou seja, está tudo sendo empurrado com a barriga, com o objetivo de levar a coisa em banho-maria até as eleições de 2010.

Um dado muito importante e bastante simbólico nesta conjuntura: segundo a ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), a produção de veículos caiu em abril de 2009 em relação a março deste ano (-6,9%) e também em relação a abril do ano passado (-15,8%). O rombo nos cofres públicos causados pela redução do IPI dos automóveis parece ter funcionado fundamentalmente para engordar os cofres das montadoras.

A lição que fica até aqui é que medidas conjunturais não apagam este incêndio e que a despiora, mesmo naquilo que pode ter de verdade, também é conjuntural. A defesa estrutural da renda da maioria da população, o combate efetivo ao desemprego, com medidas como a redução da jornada de trabalho sem a redução salarial, assim como a reforma agrária, são caminhos inescapáveis para a construção de uma economia mais estável e justa para o nosso povo.

Edilson Silva é presidente do PSOL/PE

http://www.socialismo.org.br/


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