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O assanho das pitonisas e o deficit

19.08.2009
 
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O assanho das pitonisas e o deficit

Sergio Granja

A possível candidatura da senadora Marina Silva (PT-AC), ex-ministra do Meio Ambiente, à sucessão presidencial, pelo PV, assanha o apetite palpiteiro das pitonisas eleitorais. Estas geralmente erram muito mais do que acertam em seus prognósticos, mas têm a seu favor o fato de, apuradas as urnas, ninguém se lembrar mais das previsões que cantaram em verso e prosa.

Há palpites para todos os gostos. Segundo a última pesquisa DataFolha, se a eleição fosse hoje, Serra teria 37% das intenções de voto, em seguida viria Dilma com 16%, Ciro Gomes com 15%, Heloísa Helena (PSol) com 12% e Marina ficaria com 3%. A margem de erro de 2% sugere que Heloísa e Dilma possam estar empatadas com 14% cada uma.

Infelizmente, poucos se ocupam em desvendar para o eleitorado o significado político das opções que são postas. Fala-se em percentuais de votação que cada candidatura estaria em condições de amealhar. Esquece-se de especular sobre o viés político e ideológico dessas candidaturas, do impacto que elas poderiam ter na vida pública brasileira e do que elas representariam em termos de projetos de sociedade.

Vai em estágio bastante avançado o americanalhamento da política brasileira e já se consolida o descrédito nos institutos representativos. A polarização PT-PSDB não contrapõe um projeto hegemônico de sociedade a outro contra-hegemônico, mas se trava como uma disputa no interior do marco hegemônico do capitalismo, com ligeiras variações de nuança. É nesse contexto que surge a candidatura Marina Silva.

Uma novidade? Ou advertir-se-ia alguma similitude com a candidatura de Gabeira à prefeitura carioca? Qual seria, afinal, o projeto alternativo de sociedade dos "verdes"? Essas são algumas das questões que se colocam com uma possível candidatura Marina.

Gabeira encarnou, como nenhum outro, a dimensão pós-moderna da política. Por um lado, o abandono da esperança na possibilidade de um mundo diferente do atual, com o seu corolário: o encaminhamento pragmático de "políticas do possível" (naquela conjuntura, pragmatismo era o mesmo que propostas neoliberais). Por outro, a espetacularização da política, o preenchimento do vácuo de propostas inovadoras com jogos de artifício midiáticos que proporcionam uma sensação etérea de "pós-modernidade", de algo profundamente distinto (diferente e glamoroso) - inabordável, é verdade, mas fundamentalmente "positivo". Descontados os truques de prestidigitação, o conteúdo programático de Gabeira foi, em essência, o receituário das técnicas gerenciais da empresa privada e a apologia da subsunção dos negócios público à lógica do capital. Gabeira prometia solucionar os problemas da cidade com mais capitalismo. E não teve pejo em aparecer ao lado de próceres do tucanato e do próprio Arminio Fraga em pessoa. Com o agravante de que, naquele exato momento, se dava a crise econômica por conta da dinâmica processual do mesmo mercado capitalista por ele mitificado. Agora, ele quer sair candidato do PV ao governo do Rio com o apoio do PSDB e do DEM, e discute com a Marina como isso poderia ser viabilizado.

Mas, vale recordar, já na eleição municipal, não constituíram raridades os setores e personalidades de esquerda que se assanharam para apoiar Gabeira no segundo turno (alguns apoiaram desde o primeiro). O argumento, se bem recordo, era o de que Gabeira aparecia como a opção de "esquerda" na percepção popular. Ora, há aqui um reparo a fazer: se Gabeira passava uma imagem não condizente com a realidade, o dever da esquerda só poderia ser o de esclarecer o equívoco em vez de reforçá-lo.

Marina, sem dúvida, deverá agir com mais recato. Está claro que estará balizada pelo PV: Zequinha Sarney, Sirkis e Gabeira, entre outros. Também está claro que, de um modo geral, não tomará a iniciativa de propostas avançadas, em contradição com a lógica da acumulação capitalista. É provável, entretanto, que se contraponha a setores do capital interessados na ampliação da fronteira agrícola, que barre o desmatamento e reprima a poluição do meio-ambiente. Certamente porá o agronegócio em pé de guerra contra ela e estará no contrapé de práticas empresarias predatórias. No mais, é improvável que vá além do acanhado horizonte social do lulo-petismo.

As pitonisas eleitorais erraram todas nas eleições passadas e nada garante que acertarão desta feita. E mesmo que os prognósticos acertassem na mosca, o que está em jogo não pode se cingir à discussão dos imponderáveis eleitorais.

Atílio Boron e José Paulo Neto coincidem em analisar que há um deficit organizacional na esquerda brasileira (e latino-americana em geral). Tendo a concordar com o diagnóstico deles, desde que se inclua nesse "organizacional" o que eu chamaria de deficit programático. De resto, organização e consciência caminham juntas, uma pressupõe a outra como duas faces de uma mesma moeda.

O PSol não escapa dessa faixa da esquerda com um deficit que é tanto organizacional quanto programático. Um bom programa mínimo, afirmativo de uma opção anticapitalista concreta, já seria um primeiro passo para a superação das dificuldades. Aliás, sem um programa mínimo na contramão da lógica do capital não há possibilidade da construção de uma opção contra-hegemônica. Para além do metabolismo da reprodução dos mandatos e da sobrevivência eleitoral, sindical, etc., ficaria a perplexidade: partido pra quê?

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