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Sonhar é fundamental, transformar a sociedade é necessário

14.05.2010
 
Pages: 12
Sonhar é fundamental, transformar a sociedade é necessário

Marcus Eduardo de Oliveira

No posfácio de seu livro “A Cortina de Ouro”, Cristovam Buarque diz que “cada pessoa é a soma das respostas que deu ao longo da vida às perguntas que lhe foram formuladas. O sucesso depende dos acertos nas respostas. Mas os homens que mudam o próprio destino são aqueles que não se limitam a acertar respostas, mas também criam as próprias perguntas certas para o momento”.

Talvez a pergunta mais certa e adequada para o momento em que nos deparamos com a ignominiosa cifra de um bilhão de seres humanos com estômagos vazios, seja uma só: como construir pela economia uma sociedade de iguais, em que não aja tanta desigualdade no mais elementar dos assuntos, a fome? Em outras palavras, como fazer a economia funcionar em prol desse bilhão de pessoas desassistidas, capacitando-as para, no amanhã, estarem, ao menos em pé?

A resposta a essa dificílima indagação passa, indubitavelmente, por algumas considerações que envolvem, certamente, mudanças de valores, sistemas de crenças e estilos de vida.

Um dessas mudanças de valores, para ficarmos apenas nesse exemplo, talvez seja a constatação de que falta aos homens de hoje não a inteligência, mas a prática da ética; falta-lhes, talvez, abraçar o compromisso de luta em tentar fazer desse um país melhor para todos, construindo redes de solidariedade, superando o individualismo e tecendo o arcabouço do coletivismo.

A Providência Divina, é certo, nos deu, aos homens de boa vontade, a inteligência. Pelo uso dessa dádiva, as máquinas de todos os tipos e matizes, usos e funções, aí estão; a inteligência dada ao homem moderno faz a medicina avançar cada vez mais para salvar vidas; faz com que os planetas sejam explorados em pontos inimagináveis; e faz com que novas descobertas científicas saltem a todo instante; mas, no entanto, não faz com que se elimine a fome, a barbárie, as diferenças sociais, as injustiças, os desequilíbrios de ordem múltipla.

Certamente, qualquer um de nós, caso algum dia seja perguntado a respeito da fome, da miséria e da indigência que permeia a vida de quase metade da humanidade, prontamente afirmaremos, sem pestanejar, que isso nos causa ultraje. De pronto, é comum responder então, mediante esse confronto, que a existência desses males sociais trata-se, na essência, de verdadeiro absurdo.

No entanto, esses males convivem conosco de forma um tanto quanto “tranqüila”. O que falta então para mudarmos essa situação uma vez que somos, em tese, radicalmente contra a existência dessas barbaridades e entendemos, de fato, que isso afronta à boa conduta da vida e fere qualquer princípio em termos de dignidade?

Alguns dirão que falta justamente o compromisso ético? O fato de presenciar-se uma criança morrendo de fome, a meu ver, deixou a muito de ser um problema restrito de abordagem econômica; isso é hoje um problema ético – da falta de ética, para não sairmos dessa abordagem.

É certo que a inteligência, para retomarmos esse foco, nos faz interpretar o mundo; conquanto, a ética, que por vezes nos falta, nos amarra, sobremaneira, na transformação necessária desse mundo.

“Um dia ainda haveremos de considerar a fome mais cruel do que foi a escravidão”, esbraveja com razão o dominicano Frei Betto.

É necessário reconhecer, entretanto, que está nos faltando ainda um algo a mais que seja capaz de transformar esses desajustes sociais em equilíbrio harmônico, fraternal.

É importante não perder de vista, diante disso, que toda e qualquer ação humana imbuída de princípios éticos é, por essência, transformadora; constrói algo, tenta promover modificações, intenciona quebrar paradigmas. A realidade, nesse sentido, é construída pelo homem; assim recomenda a filosofia do Construtivismo.

Nada está pronto e acabado; é sempre necessária uma interação entre o indivíduo e o meio físico e social para edificar o novo.

Enquanto essa maldade de morrer de fome continuar existindo não faz sentido pensar em dinamismo econômico, em avanços tecnológicos, em progresso pessoal, em avanço espiritual. É necessário construir o “novo” sem essas maldades, pois com a existência (e persistências) dessas nada poderá ser eterno; tudo não passará de fatos efêmeros.

À cada avanço que se faz na vida, mesmo na escala pessoal, faz-se necessário, por extensão, levar esse progresso para a construção do bem-estar comum, do coletivo, até mesmo porque no final todos ganharão, visto que não estamos sozinhos, isolados nesse mundo. Dentro dessa abordagem, as relações sociais se dão, para o bem de todos, numa perspectiva coletiva; embora o individualismo insista em dar as caras e sempre se por presente.

Parece-me correto afirmar, nesse sentido, que à medida que o homem evolui, ele tende então a promover a eliminação/atenuação das diferenças sociais. Diferenças essas cada vez mais gritantes.

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