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Declaração pública das FARC

10.04.2019
 
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Declaração pública das FARC

 

Autor: 

Bancada Força Alternativa Revolucionária do Comum.

 

Deve cessar todo tipo de estigmatização, não mais ódio, semente de violência, não mais acusações inúteis, levantemo-nos todos como nação, como um só povo, por uma vez em nossa história tenhamos a estatura moral que nos leva a nos unirmos em meio às diferenças e permitamos que as próximas gerações não herdem a guerra que nos legaram nossos pais e avôs.


Comemoramos, os colombianos, a 9 de abril, o dia nacional das vítimas do conflito. Ocasião mais que propícia para destacar a importância que tem para uma nação como a nossa rememorar os acontecimentos de nossa história recente, cujo conhecimento como povo deve nos servir para não persistir na cadeia de erros que nos mantiveram atados à violência por mais de 200 anos de história republicana.

Não foi fácil trasfegar como nação; mais de três séculos de jugo colonial, do qual conseguimos nos libertar após uma gesta heroica, foram sucedidos por um sem-fim de guerras intestinas do qual não pudemos ainda nos libertar definitivamente.

Se estimam em milhões as vítimas desta tragédia nacional, são milhões também os hectares de terra despojados por meio da violência que nos põem para vergonha nacional, entre as nações com um maior índice de concentração da terra, ao mesmo tempo em que cerca de cem mil colombianos e colombianas permanecem desaparecidos sem que seus familiares possam saber o que se passou com eles.

Passam de 250.000 os mortos na última fase desse conflito, a maioria dos quais são civis.

Para não tornar longa a lista, podemos assegurar que na prática todos os colombianos somos simultaneamente responsáveis e vítimas dessa tragédia; porém, sem sombra de dúvidas, é o Estado, obrigado constitucional e legalmente a garantir a convivência nacional, o maior responsável por não ter sido capaz de gerar as condições básicas para essa convivência e o estabelecimento de uma sociedade justa e democrática que possa tramitar suas diferenças sobre a base do diálogo político e social, como deve ser em qualquer nação civilizada.

Como partido político surgido dos acordos de paz, somos conscientes da imensa responsabilidade que nos corresponde na etapa atual de nossa história; hoje, aqui, frente às vítimas e perante dos colombianos, queremos reafirmar nosso compromisso de paz; não pouparemos esforços em fazer tudo o que seja possível para que muito em breve os colombianos, todos, possamos nos reconciliar e viver em meio às diferenças, sobre claros preceitos democráticos.

Somos os primeiros em aceitar a responsabilidade que nos corresponda pelos erros cometidos e em pedir perdão às vítimas que tenham padecido por causa de nosso acionar. Fazemos isso com humildade, com transparência e sem nenhum sentimento de rancor. Pelo contrário, um profundo sentido humanista, nascido de nosso conhecimento dos horrores da guerra, nos move a pedir este perdão com sinceridade.

Pactuamos com o Estado um Sistema Integral de Verdade, Justiça, Reparação e Não Repetição, compromisso ético e político que honramos e honraremos, ao tempo em que exigimos do Estado que faça o mesmo, como corresponde a todos aqueles que intervimos na confrontação. Não poderá haver verdadeira reconciliação se a classe que por décadas administrou [e continua administrando] o Estado não dá passos nesse sentido. As falácias de um só responsável, ou a não existência do conflito, não levam à paz.

Desse tamanho é a responsabilidade histórica do governo atual. Ou conduzir a Colômbia pelo caminho da convivência e da paz ou nos afundamos no pântano de novas violências, talvez por quantas décadas mais.

Durante os 5 anos de diálogos e os 2 que levamos da implementação conhecemos a generosidade das vítimas; escutamos seus relatos de dor, porém também suas palavras de perdão. Um sentimento comum se desprende de suas vozes, não podemos seguir perpetuando o conflito, sua exigência sempre foi a paz completa, estável e duradoura, garantia única de não repetição.

Tomamos distância das vozes que insensatamente se levantam para aprofundar os ódios, pedir vingança e atiçar mais violência em nome das vítimas. Instrumentalizar dessa forma a dor com obscuros propósitos não pode nos levar a nenhum caminho promissor como nação. Nos alenta ouvir que são mais as vozes que chamam à cordura e ao respeito pelos direitos das vítimas a saberem a verdade do ocorrido.

Deve cessar todo tipo de estigmatização, não mais ódio, semente de violência, não mais acusações inúteis, levantemo-nos todos como nação, como um só povo, por uma vez em nossa história tenhamos a estatura moral que nos leva a nos unirmos em meio às diferenças e permitamos que as próximas gerações não herdem a guerra que nos legaram nossos pais e avôs.

Com sentimento de patriotismo,

Bancada Força Alternativa Revolucionária do Comum.

9 de abril de 2019.

Tradução > Joaquim Lisboa Neto

 


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